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Ocupação desordenada dos morros atrapalha recuperação de Angra dos Reis

Alguns moradores relutam em deixar casas localizadas em áreas de risco, enquanto outros comemoram

Anderson Dezan, enviado especial a Angra dos Reis |

George Magaraia
Da laje de sua casa, Hugo de Oliveira mostra o deslizamento no Morro da Carioca
Na década de 70, um boom econômico tomou conta de Angra dos Reis. Em dez anos, os moradores da pacata cidade do sul fluminense viram ser inaugurados um terminal petrolífero, usinas nucleares e uma rodovia (Rio-Santos). Em virtude dos avanços, governos da época promoveram incentivos para a vinda de novos moradores. Sem planejamento adequado, a ocupação desordenada dos morros do centro é hoje - 40 anos depois - um dos principais problemas para a reconstrução da cidade após a tragédia de janeiro de 2010 que deixou 53 mortos.

George Magaraia
Da laje de sua casa, Hugo de Oliveira mostra o deslizamento no Morro da Carioca
“As pessoas vieram e migraram para os morros. A ocupação irregular na época foi de 400%. A realidade de Angra dos Reis é essa. Agora não adianta lamentar e culpar ninguém, mas estamos pagando um preço muito caro”, avalia o prefeito Tuca Jordão.

Localizada entre a Serra do Mar e o Oceano Atlântico, Angra dos Reis vive uma sensação de “bomba-relógio” sempre que uma chuva forte atinge a cidade. A geografia do município aliada às casas localizadas nos morros faz com deslizamentos sejam recorrentes na região. O cenário de crise é agravado pelos moradores que relutam ao terem demolidas suas casas construídas em áreas de risco.

“Não tinha perigo nenhum, nunca aconteceu nada lá e nem havia rachadura. Foi à toa”, diz a aposentada Emília Barros, de 73 anos, que deixou sua casa no Morro do Abel no início deste ano quando a Defesa Civil detectou que o imóvel corria risco de vir abaixo. “Não queria sair do morro. Estou acostumada com a vida aqui, foi onde criei minhas sete filhas”, lamenta ela, que foi incluída programa aluguel social e está na lista das pessoas que receberão um apartamento em um dos condomínios construídos para as vítimas das chuvas.

George Magaraia
Da laje de sua casa, Hugo de Oliveira mostra o deslizamento no Morro da Carioca
Morando ao lado do local houve o deslizamento no Morro da Carioca, que deixou 20 mortos, o assistente administrativo Hugo de Oliveira, de 25 anos, respirou aliviado quando a Defesa Civil constatou que sua casa não corria risco. A comemoração teve um motivo a mais. Segundo ele, se tivesse que deixar o imóvel, não o faria.

“Não deveriam ter derrubado as casas que já estavam aqui. Em área de risco, Angra dos Reis inteira está. A cidade é toda rodeada por morros. Aqui tenho uma história, cresci, brinquei e convivi com amigos nessas ruas. Não trocaria esse lugar por nenhum outro”, diz ele, mesmo tendo noção do perigo. “No período de chuvas, de dezembro a março, não dormimos direito. A preocupação é constante”.

George Magaraia
Silvana Castro (à esq.) e Núbia Porto (à dir.) comemoram vida nova pós-tragédia
Alívio

Enquanto uns relutam em deixar suas casas, outros que viram todo o patrimônio da família vir abaixo com as chuvas do início do ano comemoram a possibilidade de poder reconstruir tudo com a família completa. É o caso da operadora de caixa Silvana Castro, de 37 anos. Grávida de sete meses, sua casa foi levada pelo deslizamento no Morro do Bule quando passava o réveillon com o marido e o filho de sete anos na casa da sogra.

“Fico triste por ter perdido tudo. Conseguimos esquecer um pouco o trauma, mas ele nunca irá sumir completamente da memória. Ao mesmo tempo, fico feliz porque vou receber um novo lar”, diz a operadora de caixa, que será contemplada com um dos apartamentos do condomínio construído no bairro Areal, cujas obras atrasaram e devem ser entregues até o final do ano. “Na nova residência vou ter paz”, completa.

A opinião é compartilhada pela universitária Núbia Porto, de 25 anos. Ela, os pais e o irmão passaram 20 dias em um abrigo montado em uma escola municipal depois que sua casa desabou com os deslizamentos no Morro da Carioca. Recebendo aluguel social, a jovem aguarda a entrega de um dos imóveis que estão sendo construídos na Pousada da Glória - com previsão de entrega apenas para março de 2011.

“Uma vizinha me disse na semana passada que ela não tinha nada o que comemorar neste ano-novo. Eu paro e vejo que tenho sim o que comemorar. O bem mais precioso que temos é a nossa família e vou poder comemorar com ela completa essa passagem de ano. Se perdi todos meus bens materiais é porque Deus tem algo melhor guardado para mim e minha família”, diz, emocionada.

Veja fotos do antes e depois em Angra dos Reis: 

 

 

 

 

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