Obras em prédio que desabou tiveram início sem laudo técnico

Segundo um sócio da empresa TO, obras no 3° e 9° andar não precisavam ser comunicadas ao governo e não abalaram a estrutura do prédio

Luisa Girão e Mario Hugo Monken, iG Rio de Janeiro |

A obra que estava sendo realizada no 9° andar do Edifício Liberdade, um dos que desabaram no centro do Rio de Janeiro, teve início sem que o laudo técnico da engenharia estivesse pronto, de acordo com o um dos cinco sócios diretores da empresa responsável, Tecnologia Organizacional (TO), Sérgio Alves. Ele explicou, em entrevista concedida à imprensa nesta sexta-feira, que o engenheiro Paulo Brasil não pode fornecer o laudo na data prevista porque sua mãe estaria com um problema de saúde.

Alves afirma que a obra era de repaginação e não necessitava de autorização do governo, apenas do síndico do prédio, que por sua vez deu a permissão para o início dos trabalhos, contanto que o documento fosse entregue depois de 15 dias. A obra havia começado há oito dias e o laudo seria entregue nessa semana, segundo Alves.

Além disso, a planta da obra teria sido desenhada por Cristiane Azevedo, uma administradora de empresas que fez um curso de desenho técnico. A mesma planta foi usada em outra reforma que estava sendo realizada no 2° andar do edifício.

O 9° andar seria um vão livre e teve dois banheiros removidos. O sócio da TO afirmou que as três paredes removidas eram de tijolos ou plástico e não de ferro e ou cimento. "Tenho certeza de que minhas obras não abalaram o prédio", disse. Ele também contou que abriu uma janela no 10° andar do prédio, mas não soube dizer se foi pedida uma autorização à prefeitura.

Outra obra

No 3° andar, outra obra estava quase concluída e também teve início sem o laudo, que segundo Alves, foi entregue "logo depois". “Era só uma reforma simples”, afirmou ele, afirmando que estava sendo feita uma repaginação do banheiro, por isso cerca de quatro paredes de tijolos e divisórias foram erguidas e uma de alvenaria, removida, “mas nada que afetasse a estrutura”.

O sócio da TO disse que todos os laudos foram perdidos no desabamento, mas que o síndico e o engenheiro possuem cópias. O Crea-RJ (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia) do Rio de Janeiro, em um vistoria preliminar, considera que o desabamento ocorreu devido a um dano estrutural.

Lúcia Navarro, mulher do empresário Roberto Monteiro, outro sócio da empresa TO, fez um desabafo na manhã dessa sexta-feira (27), em seu perfil no Facebook, explicando que a obra era uma reforma para pintura e troca de carpetes e que ninguém teria mexido nas vigas do prédio.

Após prestar depoimento na Polícia Civil hoje à tarde, o síndico do prédio, Paulo Renha, se resumiu a dizer que a documentação referente às obras do 9º andar estão a cargo do advogado do condomínio e que pediu a ele que tomasse as atitudes cabíveis. Segundo ele, as obras eram de modernização e reforma.

Estalos

Mariana do Nascimento, afilhada do casal Cornélio Ribeiro Lopes, de 73 anos – que morreu no desabamento – e Margarida Vieira de Carvalho, que moravam no Edifício Liberdade, contou ao iG que os padrinhos costumavam ouvir estalos durante a madrugada . Além disso, segundo Mariana, o interior do prédio estava repleto de rachaduras.

Até agora, mais de 10 corpos foram encontrados nos escombros dos prédios . Ainda há desaparecidos, mas o número ainda é incerto.

Empresa

Sérgio Alves disse que a empresa existe há 15 anos e que eles estavam instalados no Edifício Liberdade há pelo menos 13. Atualmente, 60 pessoas trabalhavam no prédio.

O advogado de Alves, Jorge William, explicou que a empresa está dando todo o apoio aos familiares de vítimas, tanto psicológico como financeiro. Questionado sobre uma possível indenização que terá de pagar, Alves não soube informar como a empresa vai proceder. "Nunca ninguém morreu na minha empresa, foi uma coisa nova para mim."

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