¿O cheiro parece com polvo podre¿, diz vizinho de lixão no Rio

Moradores do Morro do Céu reclamam da proximidade de aterro sanitário

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro | 20/08/2010 10:00

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Segunda-feira, 7h da manhã. O operador de máquinas David Agostinho, de 45 anos, acorda para mais um dia de trabalho, se espreguiça, cumprimenta a esposa e abre a janela de seu quarto para ver como está o tempo. Tudo normal, não fosse a cena com a qual ele se depara: uma enorme montanha de lixo. O visual inusitado faz parte do dia-a-dia de David e de centenas de pessoas que moram ao lado do aterro sanitário Morro do Céu, no município de Niterói, Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

“Não trago ninguém aqui em casa porque tenho vergonha. A única pessoa da minha família que veio aqui foi minha mãe. É um visual muito feio”, confessa o operador de máquinas, que mora no local há oito anos. “À noite fecho a casa inteira por causa do barulho dos caminhões e do cheiro, que às vezes parece com o de polvo podre”.

Segundo David, o gás metano – liberado na decomposição do lixo – causou um problema de pele em seu filho de cinco anos. “Ele já está em tratamento há três meses por causa disso. Tenho um quarto na minha casa só para secar roupa. Não podemos deixá-la exposta”.

Os filhos do pedreiro Gilson Santos, de 46 anos, também sofrem com as operações do lixão. “Aqui tem muita poeira, por isso meus filhos que têm sinusite e bronquite ficam na casa da avó, que é mais afastada”, conta. “Antigamente colocávamos uma calha no telhado e pegávamos a água da chuva. Com o lixão não dá. Os ambientalistas dizem que isso é perigoso, devido à poeira e ao gás que fica no ar”, informa.

Utilizada desde o início da década de 80, a área onde está o aterro sanitário Morro do Céu era uma chácara com árvores frutíferas e nascentes de água. Com o encerramento das atividades no aterro do Morro do Bumba – palco de tragédias em abril deste ano em decorrência das fortes chuvas que atingiram o Rio –, o lixo passou a ser desviado para lá. Com isso, saíram os animais silvestres e vieram os urubus, os ratos, os porcos e as moscas.

“Essa área foi invadida. Era lindo aqui. Eu descia para pegar laranja e hoje acabou tudo. Era uma bênção em termos de água, dava até para pescar”, relembra o vigia José Izidio, de 51 anos, morador do local há 40. “Do mesmo jeito que o homem constrói, ele destrói. Para reconstruir, vai ser difícil”, avalia, enquanto passa um técnico jogando um veneno para matar moscas, que não é nocivo ao homem.

De acordo com Izidio, técnicos do governo estadual já tiraram medidas das casas situadas ao lado do lixão e esses moradores deverão ser desapropriados e indenizados. Uma reunião está prevista para esta sexta-feira para tratar do assunto. “Estamos sentados em cima de uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento e não queremos esperar que isso aconteça”, diz, referindo-se à tragédia no Bumba, que deixou 47 mortos.

<span>Casa de David com o aterro sanitário ao fundo</span> - <strong>Foto: Hélio Motta</strong> <span>José Izidio e a mulher Rosalina mostram o lixão ao lado da varanda da casa deles</span> - <strong>Foto: Hélio Motta</strong> <span>Poeira intensa é levantada durante as operações no aterro sanitário</span> - <strong>Foto: Hélio Motta</strong> <span>Catadores de lixo trabalham no Morro do Céu</span> - <strong>Foto: Hélio Motta</strong> <span>Técnicos lançam veneno para matar moscas em casas vizinhas ao lixão</span> - <strong>Foto: Hélio Motta</strong>

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