Nota fiscal de show de Marcelo D2 na Rocinha estava com 'laranja' do tráfico

Produção de artista confirma contato com Feijão, denunciado por lavagem de dinheiro de Nem, mas afirma desconhecer ligação dele com crime

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Vivian Fernandez
Documento apreendido na casa de Vanderlan Barros, o Feijão, denunciado por lavagem de dinheiro do tráfico, mostra que Marcelo D2 recebeu R$ 30 mil pelo show na Rocinha
O dinheiro do tráfico da Rocinha, comandado até o mês passado por Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, pode ter pago em 2009 um show do músico Marcelo D2, além de festas de Natal e de Dia das Crianças na comunidade.

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Denúncia do Ministério Público do Estado do Rio revela que a Polícia Civil apreendeu um recibo de pagamento, no valor de R$ 30 mil, para a empresa Leiroz de Caxias, “referente ao show de Marcelo D2 na Rocinha”. O documento foi encontrado na sede da empresa do líder comunitário Vanderlan Barros de Oliveira, o Feijão, a V Barros de Oliveira Comércio de Acessórios para Veículos Ltda.

Reprodução da internet
Feijão, apontado pelo MP como "laranja" de Nem, tinha recibo do show de D2
O processo que investigou a quadrilha de Nem apontou Feijão como "braço direito" do traficante, "tesoureiro" da quadrilha e o principal responsável pela lavagem de dinheiro do tráfico na comunidade, por meio de duas empresas de fachada, uma delas a V Barros de Oliveira. Ele responde em liberdade.

De acordo com o Ministério Público, a Leiroz intermediou a apresentação de D2 na favela. O músico fez show na garagem da Rua 4, na Rocinha, em outubro de 2009.

A produção de D2 confirmou ter sido contatada por Vanderlan, o Feijão, mas informou desconhecer e ter ficado surpresa com a informação de que ele teria ligações com o tráfico. "Nunca imaginamos qualquer coisa desse nível, até porque não prejulgamos as pessoas pelo local onde moram. Para a gente, fazer um show numa comunidade com o tamanho da Rocinha é o mesmo que fazer um show no Complexo do Alemão, no Citibank Hall, ou mesmo no Rock in Rio." A produçãode D2 informou que emitiu nota fiscal pelo show e recolheu todos os impostos devidos.

Leia também: Para produção de D2, possível dinheiro do tráfico em show na Rocinha é surpresa

Feijão usava contas das empresas para pagar débitos da quadrilha e de Nem

De acordo com as investigações da Polícia Civil e do Ministério Público do Estado, Feijão "usava contas correntes bancárias das empresas com a finalidade de quitar débitos da referida facção criminosa, bem como (despesas) pessoais do acusado Nem". "O mesmo (Feijão) é responsável pelo recebimento de dinheiro advindo da venda das drogas, fraudulentamente a declarando como capital oriundo de atividade empresarial", diz a denúncia do MP.

O traficante usava Vanderlan como seu “laranja”, inclusive para legitimar a promoção de eventos na comunidade e contratar artistas para performances no local.

Segundo a denúncia do MP e a investigação da polícia, Feijão mora em uma casa modesta na Rocinha, é dono de um lava-jato e de uma distribuidora de gelo que funcionam de fachada para lavar o dinheiro do tráfico, e não tem recursos suficientes para despesas vultosas.

Em depoimento, Feijão alegou que o show foi pago por comerciantes da Rocinha.

Líder comunitário era anunciado como patrocinador nos eventos da Rocinha

A polícia do Rio aponta que festas e bailes promovidos pelo tráfico em favela do Rio têm o objetivo principal de atrair e estimular o consumo de drogas. Nessas ocasiões, normalmente em fins de semana, milhares de pessoas iam à favela.

Moradores ouvidos pelo iG contaram que muitas festas com músicos contratados na Rocinha eram muitas vezes abertas ao público, porque aconteciam em palcos improvisados no meio de vias. Na apresentação dos eventos, o locutor frequentemente anunciava: “Patrocinador: Feijão!”

Raphael Gomide
Imagens divulgadas pela polícia mostram a suposta negociação de venda de um fuzil
O show de D2 foi, porém, em um lugar fechado, com cobrança de ingressos, segundo sua assessoria.

Feijão também pagava despesas pessoais de Nem e de sua família, Danúbia Rangel. O líder comunitário pagou pelo aluguel de brinquedos e equipamentos para festas na Rocinha. “Todo pagamento de festas infantis ocorridas na Rocinha à tal empresa passava por Vanderlan”, afirma o Ministério Público na denúncia.

A polícia teve acesso aos e-mails trocados por Feijão com o dono da empresa de brinquedos, demonstrando que o “laranja” de Nem teve participação “em todos os alugueres de tais objetos nas festas realizadas na comunidade da Rocinha”.

O processo informa que em 2009, houve “uma grandiosa festa de Natal, oferecida pelo acusado Antônio Francisco, vulgo ‘Nem da Rocinha’, com farta distribuição de brinquedos”. De acordo com a denúncia, Feijão procurou a empresa Ney Locações de Brinquedos e Festas Ltda. duas vezes: a primeira na festa do Dia das Crianças, e a segunda no Natal. Nessa segunda ocasião, Feijão pagou R$ 9 mil, em espécie, pelo aluguel dos brinquedos.

Cervejadas de R$ 100 mil

O tráfico também bancava cervejadas na Rocinha, de acordo com a investigação. Uma nota fiscal da empresa Leyroz Ind. Com. & Logística revela a venda de “grande quantidade de cerveja Itaipava, entre 7 de agosto de 2009 e 22 de dezembro de 2009, totalizando mais de R$ 100 mil”.

Divulgação/Taiane Hunder/Seap
Durante o voo de transferência para Mato Grosso do Sul, Nem permaneceu com a cabeça baixa a maior parte do tempo
Antônio Alessandro da Silva, funcionário do lava-jato de Feijão, seu pai de criação, afirmou ter emprestado folhas de seu talão de cheques a Feijão para que pagasse as cervejas compradas para eventos que seriam realizados na comunidade da Rocinha e na academia do vereador Claudinho da Academia, morto em junho de 2010.

Outra nota fiscal mostra que a mesma conta foi usada para pagar por 30 caixas de cervejas Itaipava – 720 garrafas –, ao custo de R$ 1.158,00. Em alguns dos canhotos de cheque, aparece o apelido “Feijão”.

“Sempre que um desses cheques era compensado, logo em seguida o próprio denunciado (Antônio Alessandro) fazia outro depósito, em dinheiro, da quantia exata em sua conta. Ou seja, cheques do denunciado Alessandro pagavam a cervejada e logo depois sua conta era abastecida em dinheiro, o que evidencia a sua utilização em favor e para lavagem do tráfico de entorpecentes”, afirma o MP.

A assessoria de D2 afirmou que desconhecia qualquer ligação de Feijão com o tráfico.

A reportagem ligou para Feijão e deixou recado, mas não teve resposta. O iG não conseguiu contato com a empresa Leiroz de Caxias.

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