Norte-fluminense tem "refugiados ambientais"

Ilha da Convivência viu sua população de 400 famílias ser reduzida a três, por causa do avanço da água

Valmir Moratelli, enviado a São Francisco do Itabapoana (RJ) |

Pensar em uma ilha deserta pode levar a crer em ideias como tranquilidade e uma vida sem sobressaltos. Não é o caso de quem ainda resiste a viver na Ilha da Convivência, localizada na desembocadura do rio Paraíba do Sul, bem próximo ao mar. Desde 1996, a ilha pertence ao município de São Francisco de Itabapoana, no norte-fluminense. Mas só vê a ilha quem está em São João da Barra, na praia de Atafona.

O historiador Roberto Acruche, que pesquisa as histórias de nativos de São Francisco do Itabapoana, conta que o tamanho oficial da ilha foi modificado oito vezes nos últimos dez anos. “Neste período, a ilha dá para se afirmar sem erro que a ilha perdeu, pelo menos, a metade do tamanho que tinha há uma década. A ilha está praticamente deserta”, diz Acruche. De acordo com a prefeitura não há dados oficiais sobre a área atual da ilha.

Vida severina

Não há luz elétrica. Água potável vem em baldes e galões, de barco. A travessia do continente até a ilha pode durar 5 ou 30 minutos, dependendo da força da maré. Quando a reportagem do iG esteve na ilha, a maré estava baixa e a travessia demorou quase 20 minutos, devido aos bancos de areia que se formam no Paraíba do Sul.

João Souza é um ex-morador da ilha. Hoje, além de pescador, ele vive com os trocados que ganha levando turistas para conhecer o local a bordo de seu barco. “Tive que ir embora da ilha depois de perder minha casa. Minha família se mudou para Atafona. Eu gostava de lá, era sossegado, uma vida que não se encontra em nenhum outro canto”, diz ele, que deixou o local no ano passado.

“Destruição completa”

A pedido da prefeitura de São João da Barra, o engenheiro civil Guilherme Lindroth esteve na cidade em 2004 para uma análise dos efeitos da erosão. Há sete anos ele previu a destruição de parte do litoral da cidade, no distrito de Atafona. “Caso não haja nenhuma nova alteração do regime de vento (tipo nordeste), é de se prever a destruição completa do que restou do Pontal e de parte da cidade, num período não muito longo”, relatou Lindroth. Ainda segundo ele, a foz do rio tinha orientação para o norte e, nas últimas décadas, sob influência do vento nordeste, o rio começou a mudar sua foz para sul.

Para os especialistas a alteração de correntes marinhas são, entre outros fatores, reflexos de mudanças climáticas do planeta. Atualmente, já não existe mais o pontal que o engenheiro percebeu em 2004. Com isso, a água do mar entra cada vez com mais força na desembocadura do rio Paraíba do Sul, invadindo também trechos consideráveis da Ilha da Convivência.

O técnico ambiental Luis Henrique Araújo perdeu sua casa há três anos, na praia de Atafona. Um pouco mais à esquerda, ele avista a Ilha da Convivência . “Minha casa, quando foi construída, ficava há seis quarteirões do mar. Hoje, os destroços estão há dez metros de onde as ondam batem. Me sinto um refugiado ambiental, assim como os moradores daqui e os da ilha”, diz ele.

Reprodução
Visão de satélite do Google Mapas

Gilberto Pessanha, do departamento de Engenharia Cartográfica da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e professor do departamento de Análise Geoambiental da UFF (Universidade Federal Fluminense), lembra que o mesmo fenômeno, que origina “refugiados ambientais” no País , também é percebido na foz do rio Parnaíba, no rio São Francisco, rio Doce, rio Jequitinhonha, entre outros.

O pescador Jorge Ribeiro, outro morador da ilha, pensa em abandonar em breve o local. “Não dá mais para ficar vivendo com o olho no mar. É o medo constante de perder tudo a qualquer momento”, diz. Cada vez mais o nome da Ilha da Convivência vai perdendo sentido.

Divulgação/ UERJ
Panorama do rio Paraíba do Sul, que também avança sobre Atafona

    Leia tudo sobre: atafonamudanças climáticaserosão marinha

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG