“Não sei por que você e sua família ainda não foram para o inferno”

Até mulheres de milicianos ameaçavam moradores de morte. Vítima que denunciou bando sofreu atentado e viveu dia de terror

Raphael Gomide e Mário Hugo Monken, iG Rio de Janeiro |

Agência O Globo
Delegado aposentado da PF, o miliciano Luiz Carlos da Silva é apontado como "liderança máxima da malta" pelo MP
A milícia desarticulada nesta quarta-feira (27) pela Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais) aterrorizou a vida de uma família que se recusou a pagar as taxas cobradas pela quadrilha e a denunciou à 32ª Delegacia de Polícia, na Taquara, zona oeste do Rio de Janeiro, como mostram a denúncia e o pedido de prisão de 14 milicianos, aos quais o iG teve acesso.

Até as mulheres dos dois principais chefes do bando, o delegado federal aposentado Luiz Carlos da Silva e o comissário de polícia Eduardo Lopes Moreira, ameaçaram de morte moradores da área.

“Não sei por que você e sua família ainda não foram para o inferno”, disse a mulher de Eduardo Moreira, em meio a xingamentos, a D., que tomou a frase como uma ameaça. Após isso, o homem e sua família fugiram da região por três anos. Ele voltou ao bairro, apesar de ameaças, intimidações e até agressões a seu filho.

As informações foram prestadas por D. à Draco/IE. Ele sofreu atentado em outubro do ano passado, mas escapou. O autor da tentativa de homicídio, preso e condenado por outro assassinato, apontou um membro da quadrilha, José Carlos Teixeira, como mandante. O objetivo era se apropriar do terreno da vítima.

As investigações feitas pela Draco indicam que a milícia agia desde 1998 nas localidades de Pedra Branca, Santa Maria, Pau da Fome, Estrada dos Teixeiras, Estrada do Rio Pequeno e Estrada do Rio Grande, todas na zona oeste da capital fluminense.

Entre as práticas criminosas exercidas pela quadrilha estão homicídios qualificados; a cobrança de “taxas” por serviços clandestinos de segurança, conservação de ruas, sinal de internet e TV a cabo, água encanada e transporte alternativo. O bando faturaria cerca de R$ 200 mil por mês. Um policial militar e dois mililtares da Aeronáutica também fazem parte do grupo.

“Esse cara já era para ter morrido há muito tempo. Mas não passa deste mês”, diz mulher

Agência O Globo
Policiais fazem buscas em imóvel em Copacabana durante operação contra milícia
Por volta das 16h, “a mulher do delegado federal Luiz Carlos da Silva” entrou no lugar onde estava e disse a um funcionário que “ele não passa deste mês”. “Eu não sei como o D. está vivo. Esse cara já era para ter morrido há muito tempo. Mas ele não passa deste mês”, afirmou a mulher do delegado. Apesar das ameaças, nenhuma das duas mulheres foi denunciada.

O dia de terror da vítima e de sua família não acabou aí. De acordo com o Ministério Público, uma hora depois, o homem recebeu uma ligação de “número desconhecido” no celular. “Uma pessoa com voz de homem lhe disse: ‘Seu babaca, a sua neta está saindo da escola e nós estamos em frente’”. Em seguida, sua mulher lhe telefonou confirmando que havia um Toyota Corolla preto e de vidros escuros parado em frente à escola.

Foice para cortar a luz

Apavorada, ela ligou novamente uma hora depois, para alertá-lo de que duas motos grandes – uma vermelha e outra amarela – estavam rondando a casa da família. Como estava escuro, ela não conseguiu reconhecer nenhum dos ocupantes, sem capacete, mas viu que “um dos motoqueiros portava uma arma, e outro portava uma foice”.

A foice foi usada para cortar o fio da luz da casa da família, que ficou às escuras, aumentando o sentimento de pânico. “Neste momento, o declarante pegou uma moto emprestada e dirigiu-se rapidamente à casa de sua família, onde constatou que a casa de sua família estava sem luz e seus familiares apavorados”.

Morador fez poço para escapar de taxa, mas milícia o fechou com concreto

A ousadia da milícia não para por aí. Além de obrigar as pessoas a pagarem taxas pela distribuição de água, os criminosos concretaram um poço cartesiano construído por um morador que se recusava a pagar o imposto.

Segundo a denúncia do MP, "os moradores que se recusam a pagar a "taxa de água" são ameaçados e têm o fornecimento interrompido. "Dos autos constam declarações afirmando que morador local, por não concordar com tal cobrança, abriu um poço artesiano em sua casa; que uma vez descoberto, foi, manu militare, concretado pelos milicianos".

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