Motorneiro ganhou lanche de moradora pouco antes da morte

Nelson Silva, que conduzia bonde quando turista francês morreu, era querido em Santa Teresa. O iG conta como foi seu último dia

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Raphael Gomide
Bonde tombado em Santa Teresa, após resgate dos bombeiros
O motorneiro Nelson Correia da Silva começou a trabalhar no bonde número 10 às 14h deste sábado. Desceu com o veículo para o Centro e subiu de volta para Santa Teresa pelo menos uma vez antes da viagem em que sofreu o acidente fatal. Antes de começar o serviço, recebeu um telefonema de uma moradora conhecida, dona de uma lanchonete no bairro.

“Eu liguei lá para a estação e ele atendeu. Falei com ele: ‘Nelson, quando passar por aqui, toca o sino que te dou o lanche’”, contou Luciana Miranda.

Cerca de uma hora depois, Nelson parou em frente à lojinha e tocou o sino. Levou uma bolsa com sanduíches e maçãs do amor para ele e os outros motorneiros. “Ele parou, dei o lanche para ele e ele me agradeceu antes de ir. Ele era uma pessoa muito querida”, contou Luciana.

Bairro com jeito de cidade do interior, os moradores de Santa Teresa conhecem os motorneiros dos bondes, mais tradicional meio de transporte entre a localidade, em uma parte alta da cidade, e o Centro do Rio.

Nelson era o motorista que guiava quando caiu o francês, mas ninguém o culpava pelo acidente. Charles Damien Pierson, 24 anos, caiu do bondinho através da grade furada quando o veículo passava em cima dos Arcos da Lapa.

O colega de Nelson, Gilmar Silvério, contou ter dado carona de bonde ao amigo para subir para Santa Teresa neste sábado. Ele fez diversas viagens entre Santa Teresa e o Centro e não percebeu nada errado com o veículo.

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O motorneiro Gilmar e Luciana, que deu lanche para Nelson pouco antes da morte
“Eu ‘largo’ o trabalho às 14h. Subi e entreguei a ele o bonde”, disse o motorneiro, que passou a cuidar do boletim de ocorrência de um abalroamento de um ônibus com o bonde que conduzia.

Nesta tarde de sábado de temperatura amena e tempo encoberto, Santa Teresa estava cheia de cariocas turistas, que buscam o bairro como um recanto agradável e aconchegante para passar o fim de semana. Os bondes, modo mais charmoso de se conhecer o bairro, desciam cheios – a lotação máxima é de 32 passageiros sentados e 12 em pé. “No estribo vai quem quer”, explica Gilmar.

Depois de fazer a primeira viagem e pegar o lanche com Luciana, Nelson continuou no comando do bonde naquela que seria a última viagem de sua vida.

Em uma das últimas curvas do percurso até o Centro, já na parte baixa de Santa Teresa, o experiente motorneiro perdeu o controle do bonde lotado – há 57 feridos registrados oficialmente. O veículo saiu dos trilhos e seguiu sem rumo e em alta velocidade pela sinuosa pista de paralelepípedo da Rua Joaquim Murtinho.

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Bonde destruído, após acidente e resgate
A gritaria de desespero dos passageiros podia ser ouvida à distância. Sem conseguir manejar o bonde pela manivela nem conseguir acionar os freios, Nelson não conseguiu forçar o bonde número 10 a fazer uma curva fechada para a esquerda.

Cerca de 30 metros depois de descarrilar, o motorneiro viu o vagão tombar e bater fortemente contra um poste de luz. Nelson ficou esmagado entre o poste e o bonde. “Vi o motorneiro agonizando, imprensado no poste pelo bonde, preso às ferragens. Tinha muito sangue, ele sangrava muito pela boca, mexia um pouco os dedos, como se estivesse pedindo socorro. Tentamos, mas estava impossível de retirá-lo dali. Ele estava caído sobre uma mulher, com certeza já morta.”

Minutos depois, os bombeiros chegaram e removeram Nelson dali. Mas, muito ferido, o motorneiro não resistiu e morreu pouco depois.

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