Motel vira refúgio para desalojados em Teresópolis

Com fortes chuvas, famílias improvisam residência em estabelecimento fora de operação

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Um motel fora de operação, localizado em uma das áreas atingidas pelas fortes chuvas em Teresópolis, região serrana do Rio, serve de refúgio para várias pessoas que acabaram desalojadas devido a deslizamentos de terra e enxurradas.

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Motel fora de operação se transforma em refúgio para desabrigados
O Motel Cabanas fica na altura do km 69 da BR 116 (rodovia Rio-Bahia), a 9 km do centro de Teresópolis e próximo às localidades de Biquinha e Bacia. A primeira fica à beira dos rios Ipaquequé, que corta o município, e Biquinha. Já a segunda, que também se situa perto desses rios, é formada por cerca de 150 barracos erguidos em uma encosta de morro.

Com as fortes chuvas que arrasaram Teresópolis na madrugada da última quarta-feira, dezenas de moradores destas localidades foram obrigados a deixar as suas casas. Como o próprio Cabanas foi muito danificado pela enchente, ficando sem funcionar, os desalojados fizeram do lugar um abrigo improvisado, contando com a ajuda da zeladora do motel, Gabriela de Souza, 34 anos.

Aberto há mais de 40 anos, o Cabanas possui três apartamentos e nove chalés pequenos. Seis deles, que ficam perto do curso do rio Biquinha, foram considerados área de risco pela Defesa Civil e não podem ser ocupados. Outra dependência impedida de ser usada é a casa da zeladora, que fica muito próxima do Ipaquequé.

"Parecia o fim do mundo", afirma Gabriela, sobre a enchente de quarta-feira. Ela diz que o pátio interno do motel ficou totalmente inundado. A zeladora mostra o pequeno quintal de sua casa, que fica nos fundos. Ainda cheio, o Ipaquequé corre com força muito próximo ao pátio, que é protegido por bambus. "Metade desses bambus foi embora, a água levou tudo", diz a zeladora.

Aglomeração

Com os poucos locais disponíveis para receber os desalojados, a saída foi aglomerar diversos deles dentro de cada cabana. Segundo Gabriela, quase 30 pessoas chegaram a utilizar os três chalés que não corriam risco, sendo que um deles chegou a ter 11 ocupantes de uma mesma família ao mesmo tempo.

Assim como quase todas as localidades atingidas pelas chuvas, o motel não tem água nem luz. Os chalés estão muito danificados, pela chuva e pela ação do tempo. Em uma das garagens do local, Gabriela improvisou seu quarto e uma pequena cozinha, onde prepara comida com as doações que chegam de outros moradores da cidade, que também dão roupas às pessoas lá instaladas.

A zeladora afirma que, com as poucas condições de higiene, ela convenceu alguns dos ocupantes do motel a saírem de lá, principalmente aqueles que tinham crianças.

Uma das ocupantes do motel é a comerciante Elizabete das Graças, 54 anos, moradora da Bacia. Ela, seu marido, filhos e netos tiveram de deixar o morro devido aos deslizamentos de terra. Elizabete afirma que, antes que metade da laje de sua casa desmoronasse, ela conseguiu escapar, com a água chegando à altura do seu joelho.

Depois de passar a noite na sede das Testemunhas de Jeová, a comerciante foi ao motel na manhã de quarta-feira, em busca de abrigo. Um dos filhos de Elizabete, o armador Renato Almeida, 35 anos, chegou a se abrigar no motel junto de seus três filhos - um deles, nascido há apenas 13 dias -, mas acabou saindo para buscar outro lugar para morar.

Elizabete diz que ela e o marido tinham um pequeno negócio na beira da estrada, que era o principal sustento da família. Com as enchentes, o local ficou abandonado, e os produtos foram saqueados. Ela também alega ter sofrido saques na sua casa, de onde teriam sido levados objetos e mais de R$ 1 mil em economias.

Remédios

Recém saída de uma internação hospitalar, a comerciante mostra os oito remédios que é obrigada a tomar, por diversos motivos - hipertensão, colesterol, gastrite, entre outros. "Quando acabar (o estoque de remédios), acabou. Nem quero pensar nisso", afirma.

Ela diz que parou de se medicar contra a pressão alta para garantir que o marido o faça. Ele tem um aneurisma que não foi operado, e a falta do remédio, segundo Elizabete, pode ser fatal.

Junto de sua namorada, a bartender Maria Luiza de Oliveira, 37 anos, Gabriela se preparava nesse domingo para deixar o motel e seguir para o Rio. Lá, ela pretende deixar com familiares os poucos pertences que lhe sobraram. A ideia é seguir depois para a cidade mineira de Ubá, onde Maria Luiza trabalha, e permanecer por lá.

Já Elizabete, em lágrimas, diz não saber como será seu futuro. Ela tem medo de voltar para sua casa, até mesmo para buscar os seus pertences. "Eu só queria acordar e ver que tudo isso é só um pesadelo", afirma.

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