Morte de juíza: depoimento complica ainda mais a situação de tenente-coronel

Mais um PM acusado de participar da execução de Patrícia Acioli aponta o ex-comandante Cláudio de Oliveira como mandante do crime

iG Rio de Janeiro |

Reprodução Facebook
Patrícia Acioli tinha 47 anos e foi morta quando chegava em sua casa, em Niterói
Mais um cabo da PM acusado de participar da morte da juíza Patrícia Acioli reforçou a acusação de que o tenente-coronel Cláudio Luiz Silva de Oliveira, de 46 anos, ex-comandante dos batalhões de São Gonçalo e da Maré, foi o mandante do crime.

O cabo afirmou que o comandante Cláudio de Oliveira teria dito que a execução de Patrícia "seria um grande favor".

A primeira denúncia contra o oficial foi feita por outro PM acusado pelo homicídio. Ambos apresentaram as informações em troca da delação premiada - tentativa de obter redução de pena.

O PM revelou que além da magistrada o grupo também tramava a morte de um inspetor da Polícia Civil lotado no setor de homicídios da 72ª DP (Mutuá), em São Gonçalo.

Na avaliação dos PMs, o inspetor "distorcia" os registros de auto de resistência feitos por eles e, por conta disso, deveria "levar um rodo" (morrer). O cabo acrescentou que durante uma conversa com o tenente Daniel dos Santos Benitez, de 27 anos, o tenente-coronel Cláudio teria afirmado: "covardia se combate com covardia".

O depoimento, que durou cerca de duas horas, foi prestado nesta sexta-feira (30) ao juiz Peterson Barroso Simão, da 3ª Vara Criminal de Niterói.

Ainda nesta sexta-feira, o soldado da Polícia Militar Handerson Lents Henriques da Silva, de 27 anos, admitiu ter "confirmado" a policiais acusados de envolvimento no crime o endereço da magistrada . Ele, no entanto, afirmou desconhecer a intenção de matar a juíza e alegou inocência.

Veja também: Tenente-coronel acusado de dar a ordem para matar juíza diz que é inocente

Benitez, que também está preso, comandava o Grupamento de Ações Táticas (GAT) do batalhão de São Gonçalo e é apontado como o braço-direito do tenente-coronel Cláudio Luiza Silva de Oliveira. Na terça-feira (27), o delegado Felipe Ettore, titular da Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro, afirmou que a magistrada " estava no encalço" do tenente-coronel, por indícios de corrupção e execuções de pessoas .

"Vontade de matar juíza era quase obsessão"

O delator afirmou que "a vontade de Benitez de matar a juíza era quase uma obsessão ". Segundo o PM, por conta disso o tenente passou a dormir no batalhão e a insistir "constantemente com seus colegas de equipe que a empreitada fosse realizada".

Inicialmente, ainda de acordo com o relato do cabo, Benitez pretendia contratar "a milícia do Rio de Janeiro" para matar a juíza. Porém, segundo o PM, ele fora censurado pelo tenente-coronel Cláudio Luiz Silva de Oliveira que teria dito que "se tivesse de fazer era para fazer com mais um, porque com mais de dois passaria a não ser segredo".

O cabo ainda acrescentou que após ser preso Benitez teria confessado o crime ao tenente-coronel Cláudio Luiz de Oliveira em uma das 13 visitas que o ex-comandante fez ao subordinado antes de ser preso como mandante do crime .

Acompanhe ainda: Juíza decretou a prisão de PMs horas antes de ser morta

Domingos Peixoto / Agência O Globo
Tenente-coronel Cláudio Luiz de Oliveira chega para prestar depoimento na Divisão de Homicídios
Três promotores do Ministério Público do Rio de Janeiro acompanharam o depoimento do cabo nesta sexta-feira. Rubens Vianna, Leandro Navega, Claucio Cardoso e Daniel Faria Braz, afirmaram que não têm dúvidas de que o tenente-coronel participou do crime, concordando com a execução.

No relato à Justiça nesta sexta-feira, o policial confessou que, como investigava a juíza Patrícia, cada policial do GAT recebia semanalmente propina de aproximadamente R$ 10 mil e R$ 12 mil.

O dinheiro tinha origem nas apreensão de drogas e dinheiro que o tráfico movimenta em favelas de São Gonçalo (conhecido como expólio de guerra).

Quando a arrecadação era grande, segundo o PM, o tenente Benitez reservava uma parte do lucro para o tenente-coronel Cláudio.

Por conta das investigações da juíza, o policial ainda afirmou que o grupo tentara matar Patrícia outras duas vezes . A magistrada já havia determinado que o tenente-coronel mantivesse fora das ruas PMs envolvidos em autos de resistência. Segundo o cabo, Cláudio não gostava da juíza e chegou a dizer que se suas ordens não fossem apresentadas por escrito, "ele não cumpria".

Antes de ser executada com 21 tiros, a juíza Patrícia determinara a prisão de PMs suspeitos de um homicídio contra um jovem de 18 anos identificado como Diego da Conceição de Beline, no dia 5 de julho no Complexo de Favelas do Salgueiro, em São Gonçalo. O crime foi registrado como auto de resistência, mas testemunhas afirmaram que foi execução.

Dois dos acusados já estavam presos temporariamente desde junho. Os demais estavam junto deles no dia do crime, mas não teriam participado diretamente da ação. Entretanto, eles são acusados de outros homicídios que também foram registrados como autos de resistência ou há testemunhas com receio deles.

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