Morre jovem que percorreu hospitais do Rio em busca de atendimento

Diretor de hospital foi exonerado após episódio. Médico alega que seguiu determinação da secretaria estadual de Saúde

iG Rio de Janeiro |

Morreu no final da madrugada desta quinta-feira (29) o rapaz de 21 anos que peregrinou por cinco hospitais da Região Metropolitana do Rio, por aproximadamente sete horas, até conseguir internação. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, Gabriel de Sales morreu por volta das 5h no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, zona norte da capital fluminense, e seu corpo foi encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML).

O jovem foi internado após cair de uma altura de cinco metros no último dia 19. Na ocasião, ele consertava uma antena de internet na laje de sua casa e, segundo familiares, bateu com cabeça após a queda. O paciente estava em coma induzido e seu quadro era considerado grave pelos médicos. Na quarta-feira, o estado dele piorou.

A peregrinação de Gabriel teve início após a queda. Ele foi levado para o posto de saúde de Xerém e, de lá, seguiu para o Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, em Saracuruna. Como não foi atendido, levaram o rapaz para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, zona norte do Rio. A entrada do paciente não teria sido aceita e, de lá, ele foi levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro da capital fluminense.

Bruno Gonzalez / Agência O Globo
Parentes de Gabriel em frente ao Hospital Salgado Filho, onde o jovem ficou internado
Novamente rejeitado, segundo parentes, Gabriel foi encaminhado para o Hospital Estadual Carlos Chagas, em Marechal Hermes, zona norte do Rio. Ele teria feito exames na unidade, mas seguiu para o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, onde finalmente foi internado.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio informou que o jovem não foi atendido no Hospital Municipal Souza Aguiar porque a unidade estava com o serviço de neurocirurgia atendendo a três casos graves, sendo dois de acidente vascular cerebral hemorrágico e um baleado.

Ainda segundo a secretaria, não constava no sistema de regulação qualquer solicitação de internação para o rapaz. De acordo com a nota, um paciente só pode ser transferido sob orientação da central de regulação. Fora destas condições, há o risco de não ter lugar para a vítima.

Exoneração polêmica

Por causa do episódio envolvendo Gabriel, a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro anunciou a exoneração do diretor do Hospital Getúlio Vargas , Luiz Sérgio Verbicaro. A pasta também exonerou o chefe de equipe de plantão do Hospital Adão Pereira Nunes, em Saracuruna, na Baixada Fluminense, Jocelyn Santos de Oliveira, que também não atendeu o rapaz.

Procurado pela reportagem do iG, o diretor exonerado do Hospital Getúlio Vargas afirmou, no entanto, ter sido exonerado da função duas horas antes do episódio que o governo alega ter sido o motivo de sua saída. De acordo com Verbicaro, ele teve uma reunião com o secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes, às 15h de terça-feira, na qual foi avisado de que estava sendo afastado.

A chegada de Gabriel à unidade aconteceu às 17h do mesmo dia, quando ele já havia sido desligado da função de confiança. "Depois do ocorrido, a secretaria aproveitou para dizer que me exonerou como punição pelo ocorrido, mas isso não é absolutamente verdade. Eu já estava exonerado. Agora querem me vincular como se eu fosse culpado. Isso é demagogia do secretário", afirmou Verbicaro. O fato é negado pela Secretaria de Estado de Saúde.

Ainda segundo o diretor exonerado, a secretaria determinou no dia 29 de julho, através de um ofício, que hospitais sem neurocirurgião de plantão não deveriam receber pacientes com "suspeita de lesão cerebral aguda". De acordo com Verbicaro, Gabriel de Sales não foi atendido no Hospital Estadual Getúlio Vargas porque ele seguiu a regra determinada, já que não havia neurologista de plantão na unidade.

A assessoria de comunicação da secretaria informou que as unidades estaduais de saúde contam atualmente com 83 neurocirurgiões, mas reconhece que "existe um déficit desse profissional no mercado para contratação". Para o ex-diretor do hospital, se Gabriel tivesse sido recebido teria aumentado o risco de morrer, porque não teria o tratamento adequado, por falta de especialista em neurologia.

*com reportagem de Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro

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