Moradores de Teresópolis contabilizam perdas e buscam familiares

Moradores têm dificuldade para vencer lama e destroços e chegar até parentes. "A cidade acabou", diz dona de casa de 29 anos

BBC Brasil |

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Os bairros da Posse e de Campo Grande, duas das áreas mais atingidas pelas chuvas que castigaram a cidade de Teresópolis, na Região Serrana do Rio, mais parecem cenários de guerra. Em sua maioria surpresos, os habitantes da cidade contabilizam as perdas e vão atrás de familiares.

"A cidade acabou", disse à BBC Brasil a dona de casa Bianca Batista, 29 anos, ao ver os estragos no trajeto entre o centro da cidade e o bairro do Caleme, onde foi buscar a sua filha de 7 anos. A criança estava na casa do pai, localizada em uma área que corria risco de desabamento. O alerta foi dado pelo próprio pai da menina, que é bombeiro.

Bianca tem mais três filhas, todas pequenas. No caminho para o Caleme, de carona em um carro da reportagem da BBC Brasil, ela contou que outras crianças estavam a salvo, na casa da avó, situada em um local menos perigoso. Chorando, ela demonstrava desespero por não conseguir mais notícias da filha que estava na casa do pai da criança, já que os telefones celulares não estavam funcionando.

Segundo a dona de casa, os deslizamentos ocorridos na madrugada da última quarta-feira atingiram locais onde nunca antes haviam ocorrido coisas do tipo. "Olha isso, a minha casa fica em um lugar assim. Aqui sempre foi seguro", afirma Bianca, apontando para uma encosta que havia desabado no bairro de Barra do Imbuí.

No local, uma equipe formada por bombeiros e militares tentava resgatar uma mulher presa em escombros - não se sabia se ela estava viva ou morta. Uma retroescavadeira foi usada para demolir o muro da frente e, depois, a própria casa. Horas depois, os trabalhos continuavam, ainda sem sinais da possível vítima.

Chegando ao bairro da Posse, distante 6 km do centro de Teresópolis, nota-se uma paisagem composta por casas destruídas, árvores caídas, dezenas de rochas enormes interrompendo a rua e carros virados de cabeça para baixo, destruídos a ponto de seus modelos ficarem irreconhecíveis. O local era antes dominado pelo verde e pelas residências que margeavam um córrego.

Retroescavadeira

A lama predomina no local, chegando a 3 metros de altura nos pontos mais críticos. Com uma retroescavadeira, um homem tenta realizar um dreno em meio à terra para chegar ao primeiro andar de uma casa. Lá mora a tia do vendedor Marcos Vinícius Beraldo, 37 anos. Ele e outro primo têm poucas esperanças de encontrá-la com vida.

"Foi como uma onda na praia", diz Beraldo, a respeito da enxurrada que levou toda a lama para a localidade, fazendo transbordar o córrego e soterrando dezenas de casas - inclusive a da sua tia, que é viúva e mora sozinha. "A gente está fazendo o que pode, mas sabe que é difícil", afirma o vendedor, sobre a tentativa de resgate.

Alguns metros adiante, à beira do curso d'água, uma equipe de resgate tentava chegar ao interior de uma casa totalmente inundada. Com a expectativa de encontrar corpos, os homens somente retiraram colchões e objetos de pouco valor do local. Os trabalhos eram observados por vários de curiosos, principalmente moradores da área.

O fotógrafo Marcelo Sampaio, 39 anos, diz que já havia visto o córrego que passa pela Posse ficar cheio em outras ocasiões, mas o nível d'água desta vez, para ele, é assustador. "O nível da lama é impressionante, e tem todo esse entulho", afirma, olhando para as dezenas de árvores que se acumulam junto das construções.

Ao lado de um vizinho e de integrantes das equipes de salvamento, Marcelo diz ter certeza de que alguns de seus conhecidos estarão entre os mortos da enchente em Teresópolis. "Só não sei quem, ainda". No entanto, ele não sabe afirmar que familiares seus podem também fazer parte da relação das vítimas.

Cerca de 200 metros acima na estrada, fica o bairro de Campo Grande, onde os estragos foram idênticos. Em frente a um mercado, se concentram carros do Corpo de Bombeiros. Ao lado, passam funcionários da Defesa Civil e voluntários levando um corpo em uma maca, por baixo de uma lona. Entre a manhã e o início da tarde, foram localizados 12 mortos na área.

'Quando o bicho pega'

Em uma das casas tomadas pela lama, observando o movimento pela janela, está o zelador Luiz Gomes da Rocha, 55 anos. Ele explica que, no lugar, fica um condomínio que foi quase todo soterrado pela terra que deslizou do morro próximo. Luiz é o responsável por tomar conta do local.

O zelador afirma que, no dia em que ocorreu o deslizamento, ele saiu de sua casa, pois, segundo ele, percebeu o risco que havia. Luiz diz que correu para uma parte mais alta do condomínio, onde ele via menos riscos de ser atingido. Depois que tudo passou, ele voltou para a casa, mesmo estando com pelo menos 2 metros de lama na garagem.

Para Luiz, ficar em casa no momento não representa maior perigo. "Pior é a lama, que invadiu as vagas para os carros", afirma, com aparente calma. A solução, na opinião do zelador, é pensar rápido e não esperar para agir. "A hora que o bicho pega, a gente foge", diz.

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