Milícia fazia denúncias falsas à polícia contra vítimas e matava

Integrantes do bando preso no Rio chegaram a ir ao MP, que os investigava, desqualificar morador. Em seis meses, ao menos dois homicídios

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Agência O Globo
Policiais fazem buscas em imóvel em Copacabana durante operação contra milícia
Além de recorrer a ameaças e à violência, a milícia desarticulada nesta quarta-feira no Rio pela Operação Tríade fazia registros de ocorrência de crimes inexistentes, em delegacias, contra suas vítimas e possíveis denunciantes. O objetivo era desqualificar as denúncias feitas por eles e para confundir as autoridades em investigações.

De acordo com o delegado titular da Draco/IE (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais), Alexandre Capote, as investigações identificaram ao menos dois homicídios praticados pela quadrilha nos seis meses de investigações.

Um integrante do bando - que tinha como líderes um delegado da Polícia Federal aposentado, um comissário de Polícia Civil e um soldado da PM - chegou a ir pessoalmente ao Gaeco, órgão no Ministério Público que investigava o caso, para fazer denúncias contra um dos principais delatores do grupo. Dois militares da Aeronáutica também participavam da quadrilha.

“É um fato inusitado. Eles usavam recursos cinematográficos que revelam uma genialidade ímpar”, disse o promotor Décio Gomes, em entrevista esta quarta-feira.

Segundo o promotor, a atuação dos milicianos era tão articulada e engenhosa que, de fato, fazia com que as vítimas quase passassem por “malucas” - caso de um morador da área que, desde 1998, quando a quadrilha passou a atuar, perdeu muitos imóveis para o bando.

Outro artifício dos milicianos era ameaçar liberar a área da Taquara, sub-bairro de Jacarepaguá, para traficantes fugidos de favelas pacificadas caso os moradores se recusassem a pagar as taxas de "proteção" cobradas pelo grupo paramilitar.

Quinze presos

Catorze pessoas foram presas e seis armas e 76 munições apreendidas, além de uma arara e um papagaio (sem autorização do Ibama), que estavam no sítio do delegado aposentado Luiz Carlos da Silva, um dos líderes da quadrilha. Um homem que não tinha mandado de prisão mas fazia parte do grupo foi preso vestido com uma farda falsa do Bope (Batalhão de Operações Especiais da PM).

O grupo explorava os serviços de segurança (a taxa de proteção era de R$ 35 mensais), venda de gás, TV a cabo, internet, água encanada, transporte alternativo na zona oeste do Rio. A movimentação estimada era de R$ 200 mil mensais.

A quadrilha praticava também grilagem, crimes ambientais e, até mesmo, parcelalamento irregular do solo urbano. Seus membro são acusados de homicídios, ocultação e destruição de cadáveres, torturas, estupros, lesões corporais graves e invasões de domicílios.

De acordo com a investigação, os integrantes do grupo tinham papéis definidos: o delegado organizava o grupo, o policial civil Eduardo Moreira era o "matador" e o soldado PM Thiago Pacheco o organizador do transporte alternativo.

O bando contava ainda com advogados, também presos, que obtinham documentos falsos para regularizar terrenos e imóveis tomados à força de moradores pela milícia. Entre os ameaçados pelo bando, esteve uma equipe da Subprefeitura da região.

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