Menino passava noites no corredor para fugir de tiros antes de UPP

No Santa Marta, onde programa começou há dois anos, Juan lembra de traficantes exibindo fuzis e oferecendo armas e brinquedos roubados

iG Rio de Janeiro |

Raphael Gomide
Juan e Alan, que ainda se lembram dos traficantes no morro, andam de bicicleta no Santa Marta, onde a UPP completa dois anos
Toda vez que havia tiroteio na favela Santa Marta, Juan, 12 anos, já sabia o que fazer para se proteger de eventuais balas perdidas. “Eu ficava deitado no corredor, entre o banheiro e a cozinha, porque tinha mais paredes no caminho (de tiros). A gente botava colchão no corredor, minha mãe e meu pai dormiam juntos e eu e meu irmão de 16 anos em outro lugar. Eu ficava com muito medo”, conta Juan.

De tiroteios longos e violentos, ele se lembra bem de uns cinco, inclusive um, quando o pai, nervoso, não conseguia abrir a porta de casa com a chave; de outros, “sem muita importância”, perdeu a conta.

Desde a chegada da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da comunidade – a pioneira de 13 no Rio, em 19 de dezembro de 2008, atendendo a cerca de 6 mil moradores – Juan não dorme mais no corredor. A unidade com 123 policiais militares virou modelo, e sua primeira comandante, a hoje promovida major Pricilla Azevedo, virou garota propaganda do Rio para as Olimpíadas de 2016.

'Quer segurar a arma, quer segurar?'

Raphael Gomide
Alessandra celebra a chegada da UPP e do fim de uma favela violenta que Brayn, 2 meses, já não conheceu

Mas os criminosos ainda são uma lembrança clara para Juan. “A gente jogava bola na rua e tinha um cara que ficava oferecendo arma para a gente, o maior chato! Falava: ‘Quer segurar a arma, quer segurar?’ Queriam levar para o crime. Uma vez eu ia chamar um amigo para brincar, aí vi um bandido na ladeira e desisti de sair de casa”, disse, andando de bicicleta, calmamente, na entrada da favela.

O amigo Alan, 11 anos, também já viu muitos tiroteios. E recebeu a visita indesejada e tensa de bandidos e policiais em sua casa, armas na mão, uns fugindo e outros perseguindo. Outras vezes, a avó não abriu a porta para traficantes.

“Tinha um cara que ficava se exibindo, com o fuzil na mão, apontando para cima. Agora está mais tranqüilo. Antes tinha muitos mototáxis, mas acho que só funcionavam para os bandidos, que andavam para cima e para baixo de moto, rápido, sem querer saber dos moradores”, disse.

Nem dos “benefícios” do tráfico Alan tem saudade. “No Dia das Crianças, um jogava dinheiro ‘a avanço’ (para quem corresse e pegasse antes). No Natal, davam brinquedo roubado. Tinha muita mulher que ia de casa em casa vendendo produto roubado. Tinha caminhão cheio de bicicleta. Eu não peguei, não”, afirmou Alan.

Moradora da favela desde que nasceu, a funcionária de van escolar Alessandra Carmen da Silva, 26 anos, diz que antes “era o bicho” e, com a presença dos policiais, a vida “melhorou 100%”. Só uma de seus três filhos cresceu em meio à presença ostensiva do tráfico, Stefanie, 10 anos. Geovana, 2 anos e meio, nasceu meses antes da UPP, e Brayn, 2 meses, já chegou à Santa Marta liberada das armas ostensivas. “Agora as crianças têm liberdade para brincar na rua, tranquilas. É tudo diferente, e dá para dormir de cabeça aliviada”, disse.

Ela explica, porém, que, no dia-a-dia do morro, sua estratégia para lidar com traficantes e policiais é "igual". "Quem manda são eles, bandidos ou policiais. É só não mexer com eles e andar de cabeça erguida.”

Moradores reclamam de conta de luz e do fim dos bailes funk

Alessandra vê alguns inconvenientes da chegada da polícia. Precisa pedir permissão para fazer festas, que passaram a ter hora para acabar. Contas antes inexistentes, como de água e luz, agora são cobradas pelas concessionárias. “Essa é a pior parte, o prejuízo. Era melhor viver com ‘gato’ (furto de energia), era muito bom, quando pega o gostinho...”, lamenta, mostrando uma conta de R$ 80 que pagaria em poucos minutos.

Fabrizia Granatieri
A comandante da UPP da Santa Marta, Pricilla, caminha pela favela pacificada
A amiga Juliana Barbosa da Silva é mais crítica. “É um absurdo ter que pagar essas contas. Aqui é um morro, o que já diz tudo. Se a gente quisesse e pudesse pagar conta, não morava aqui. Estamos aqui porque não tem condição de morar em lugar melhor”, reclama ela, que não trabalha e recebe Bolsa Família do governo federal.

Juliana sente saudade dos intermináveis bailes funk nos fins de semana – de acordo com a polícia, promovidos pelo tráfico. “O pior (com a UPP) é o fim dos bailes. Ficava até 7h, 12h do outro dia, não tinha hora. Eu saía na sexta e voltava para casa no domingo. Hoje, tem limite até para fazer festa em casa. Às 2h, se quiser continuar ou desliga o som ou tem de abaixar”, disse ela, que também se queixa de “alguns PMs abusados, que querem esculachar moradores”.

Fátima Santos, moradora da parte baixa do morro entra na conversa. “Está achando ruim que a PM está aí?”, pergunta. “Paguei luz a vida inteira e acho ótimo eles aí.”

Em outras comunidades, muitos parecem concordar. Na inauguração da UPP do Morro dos Macacos, em Vila Isabel (zona norte), uma senhora interpelou o comandante das UPPs, coronel PM Robson Rodrigues. “Isso aqui (a UPP) é certo mesmo ou é brincadeira? Vocês vieram mesmo para trazer a paz? Nós precisamos de paz! Sou nascida e criada aqui no Macacos e nunca fui mulher de ninguém (do tráfico). Eu quero paz!”, resumiu Dircilene Souza. O coronel disse que "é para valer".

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