Menino arrastado por 4 Km em enchente deixa hospital e retoma rotina

Marcus Vinícius passou mais de um mês internado após sobreviver à tragédia em Teresópolis, na Região Serrana

Flávia Salme, enviada a Teresópolis | 18/03/2011 17:55

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Em janeiro, o menino Marcus Vinícius , de 11 anos, ficou conhecido após ser arrastado por cerca de quatro quilômetros pelas chuvas que devastaram a cidade de Teresópolis, na Região Serrana, e sobreviver. Embora bastante machucado, ele saiu andando e sem qualquer fratura pelo corpo. Sua história foi mostrada com exclusividade pelo iG no dia 15 daquele mês.

Logo em seguida, Marcus foi transferido do Hospital das Clínicas de Teresópolis para o Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e só saiu no último dia 22. Para muitos, o menino recebeu um milagre. “Só pode ter sido bênção de Deus”, diz o pai de Marcus, o pedreiro Cartolino Ferreira, o Totonho, que também foi arrastado pelas águas por cerca de 1,5 quilômetro.

Foto: Hélio Motta/ Reprodução Ampliar

Ana Cláudia, mãe de Marcus, não sobreviveu à enxurrada que invadiu a casa da família, no bairro de Campo Grande

Na tragédia, Marcus perdeu a mãe. A pensionista Ana Cláudia Lopes de Souza, de 38 anos, foi arrancada de casa pela enchente junto com o marido e o filho, mas não conseguiu sobreviver. Recuperado do acidente, o menino tenta retomar a rotina e viver uma vida normal com tudo o que mais gosta: pizza de chocolate e desenhos do Bob Esponja.

Voltou a estudar na última segunda-feira (14), e encara com bom humor os problemas na nova casa – ele se divertiu quando a reportagem do iG sentou na parte quebrada do sofá que recebeu como doação de amigos. A anterior, onde nasceu, está destruída. Localizada no bairro de Campo Grande, tinha três quartos, piscina e a história dos Ferreira.

Marcus foi informado sobre a morte de Ana Cláudia enquanto estava internado. “A mãe da Ana Cláudia comentou no hospital e ele ouviu. Disse que a gente o enganou. Mas ele sabe que foi uma tragédia”, conta Totonho. “Ele aceita conversar sobre tudo, mas não pergunte nada a respeito da mãe. Ele não quer falar disso”, ressalta o pedreiro.

Na última quarta-feira (16), o menino visitou a antiga residência. Percorreu o que restou do imóvel em busca de memórias da família. Encontrou uma cartela com negativos de fotografias e guardou. “Se não der para revelar, uso para brincar”. Antes de sair do novo apartamento, pegou fotos da mãe e as olhou em silêncio. Eram cenas das festas de aniversário, passeios e momentos alegres.

Foto: Hélio Motta

Na antiga casa, Marcus observa o local de onde foi arrancado pela chuva

No cenário da tragédia, o menino encontrou o corpo de um cachorro em decomposição. Chamou atenção para cena e falou: “Imagina como devem estar as pessoas soterradas”. Minutos depois, caminhou pelo lugar com ramos de hortênsias que colheu em um muro vizinho.

Quando voltou a se comunicar, pediu para ganhar um casal de Dachshund, aquele cachorrinho comprido como uma linguiça e de pernas curtas, que pretende batizar de Huck e Princesa. Antes da tragédia, ele tinha oito cães. Todos morreram no dia do acidente. “Encontrei uma tampa de isopor e me agarrei a ela. Me ajudou a enfrentar a força das águas. Não consegui salvar nenhum cachorrinho”, lamenta.

Ao todo, 17 mortos na família

Foto: Hélio Motta Ampliar

O quintal da casa de Marcus e Totonho: área onde as crianças brincavam ficou destruída; pedras tomaram conta do lugar

A tragédia de janeiro deixou 18 familiares de Marcus sem casa, incluindo a avó e as tias paternas do menino. Outros 17 parentes morreram; o corpo do primo Juan, de 4 anos, até agora não foi encontrado.

De acordo com os Ferreira, nenhum integrante do grupo conseguiu o aluguel social de R$ 500. “Já fizemos o cadastro, pegamos o cartão provisório, mas não recebemos dinheiro”, diz Totonho. “Atualmente, moramos de favor. O dono da casa deixou a gente pagar o aluguel quando entrar o benefício do governo”, acrescenta.

A nova casa, um apartamento instalado sobre uma igreja evangélica no bairro Cascata do Imbuí, tem cerca de 50 metros quadrados onde estão divididos dois quartos, cozinha e um banheiro. Por ele terão de pagar R$ 430 mensais.

A residência que pertencia à família Ferreira era bem maior: 120 metros quadrados. Marcus e seu pai, dividem o espaço com Paulo Henrique, de 24 anos, o primogênito da casa, e dona Maria Rosa, mãe de Totonho.

A sobrevivência diária do grupo está complicada: enquanto Maria Rosa conta com pensão previdenciária no valor de um salário mínimo – com a qual paga luz, gás e remédios –, seu filho não conseguiu até agora nenhuma fonte de renda.

Foto: Hélio Motta

Totonho chora ao observar o que restou da antiga casa: "Morei 17 anos aqui. Agora não tenho lugar para terminar de criar meu menino"

Trabalhar Totonho ainda não pode. Como também foi arrastado pelas correntezas, ainda sente no corpo as dores da tragédia. Ele quebrou cinco costelas, o ombro, precisou fazer enxerto de pele e curar dezenas de escoriações. Ficou internado entre 14 de janeiro e 20 de fevereiro.

Sem o aluguel social, e nem mesmo as prometidas cestas básicas anunciadas pelas autoridades no momento do incidente, restou apenas a ajuda de um ex-patrão que quando viu a história de Marcus no noticiário saiu em busca da família e ofereceu R$ 1.000. “Nem os medicamentos a gente ganha, tudo é preciso comprar”, conta Totonho sem conter o choro.

Fraudes atrapalharam a entrega de benefícios, diz prefeitura

A prefeitura de Teresópolis informa que por conta de tentativas de fraudes foi preciso checar as informações colhidas no momento da tragédia. Um novo cadastro está sendo finalizado.

“Esse cadastro servirá para verificar, inclusive, os benefícios que cada família recebe, como aluguel social, cestas básicas e cartão de ônibus, entre outros donativos”, informa a assessoria de comunicação por e-mail. A prefeitura acrescente que 300 famílias não receberam os benefícios “por problema de irregularidades no cadastro”.

Enquanto aguarda a burocracia seguir seu rumo, a família de Marcus e Totonho conta com a solidariedade de vizinhos, amigos e desconhecidos. Eles doaram uma geladeira, fogão, panelas, colchões, sofá, lençóis, toalhas, roupas e sapatos para os Ferreira seguirem em frente.
 

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