Megaoperação prende policiais por corrupção no Rio de Janeiro

Operação Guilhotina tem como alvos policiais civis e militares acusados de envolvimento com o tráfico e milícias

Bruna Fantti, iG Rio de Janeiro |

Agentes da Polícia Federal no Estado do Rio de Janeiro desencadearam na manhã desta sexta-feira (11) a Operação Guilhotina. Até agora, 35 pessoas foram presas. A megaoperação visa cumprir 48 mandados de busca e apreensão, em bingos, residências e estabelecimentos comerciais, e 45 de prisão preventiva contra suposto grupo criminoso formado por policiais civis e militares acusados de envolvimento com o tráfico de drogas, de armas e de munições, além de atuação em milícias, na segurança de pontos de jogos clandestinos e na venda de informações sigilosas.

Cerca de 500 homens participam da ação, entre eles 200 agentes da secretaria Estadual de Segurança Pública (Seseg), além de representantes do Ministério Público Estadual. Dos 35 presos, 19 são policiais militares e oito são policiais civis.

O Globo
Policiais fazem busca na 22ª Delegacia Policial, localizada na Penha, zona norte do Rio
Investigação teve início com vazamento de operação

Segundo a assessoria da Seseg, as investigações tiveram início a partir do vazamento de informações de uma investigação policial conduzida pela polícia federal em setembro de 2009, que visava prender traficantes da favela da Rocinha, na zona sul da cidade do Rio.

De acordo com o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, o cerco era para prender o traficante conhecido como Roupinol, que atuava na favela da Rocinha, junto com o traficante Nem. O criminoso fugiu avisado por um membro da cúpula da polícia.

“Fui avisado no início da madrugada que a operação havia vazado. Neste momento, tínhamos dez policiais na mata, esperando a operação começar. Eles ficaram rendidos, mas conseguimos retirá-los”, disse.

As investigações da PF revelaram que o agente duplo era um braço-direito do chefe da Polícia Civil.

Delegado foragido

Um dos procurados pela PF é o delegado Carlos de Oliveira, subsecretário de Operações da Secretaria Especial da Ordem Pública (Seop). Oliveira, que ficou no comando da Drae (Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos) durante três anos e da subchefia da polícia operacional, é considerado foragido. Agentes foram até a casa dele, no bairro de Campo Grande, na zona oeste, e não o encontraram.

Em nota oficial, Prefeitura diz que ele foi exonerado de seu cargo na Seop.

“Ele é apontando, entre outros crimes, por acobertar o chamado espólio de guerra, que é quando o policial fica com dinheiro além de armas e munições apreendidos durante as operações. Depois, esse material era vendido para traficantes, retroalimentando o crime”, afirmou o chefe da Polícia Federal do Rio, Ângelo Gioia.

Chefe da polícia civil prestou esclarecimentos

O chefe da polícia do Rio de Janeiro, Alan Turnovski, foi interrogado na manhã desta sexta-feira (11) por agentes federais, na condição de testemunha. De acordo com os policiais, ele não é acusado de nenhum crime. O secretário José Mariano Beltrame enfatizou que, por enquanto, Turnoviski conta com sua total confiança. "Não vou fazer julgamento precipitado. Vou escutar os esclarecimentos dele e, se for o caso, tomaremos as medidas cabíveis ao seu tempo", afirmou Beltrame.

Também compareceu na sede do DPF a delegada Márcia Beck, que também já atuou como titular da Drae. Ela presta depoimento formal e pode ser acusada, pois policiais sob o seu comando foram presos.

Atualmente, a delegada estava à frente da 22ª DP (Penha), delegacia que foi vasculhada pelos agentes que apreenderam computadores e munições. Outra delegacia, a 17ª DP (São Cristóvão), também foi vasculhada pelos agentes. As distritais chegaram a ficar fechadas temporariamente, mas já estão funcionando.


Investigações revelaram quatro quadrilhas independentes

Segundo o superintendente da Polícia Federal, Ângelo Fernandes, inquérito instaurado pela delegacia de Macaé (Região Metropolitana), a partir de um vazamento de informação, identificou quatro grupos de agentes que agiam em todo o Estado do Rio de Janeiro. Eles atuavam aleatoriamente controlando milícias que vendiam segurança, produtos apreendidos em operações – armas e drogas –, além do repasse de informações sigilosas.

Os grupos agiam com independência, sem a figura de um "chefe" para comandá-los. “Às vezes eles até se bicavam. Mas ficava tudo resolvido entre eles”, afirmou Ângelo.

Durante a investigação foram realizadas escutas telefônicas e ambientais, mas depoimento de testemunhas e de informantes também ajudaram a polícia. Em uma dessas gravações, os policiais flagraram um diálogo de policiais que atuaram na ocupação do Complexo do Alemão (zona norte do Rio). “Eles se referiam ao Complexo como um espécie de 'Serra Pelada', que seria perfeita para o garimpo. De lá, desviaram armas, motos, e objetos pessoais de traficantes. Algumas prisões foram baseadas nessas gravações”, disse o superintendente da PF no Rio.

O policial militar Marco Antônio de Carvalho, conhecido como Marco Paraíba, liderava um dos grupos na zona norte. Segundo as investigações, ele era responsável pela venda de drogas e armas apreendidas em operações policiais para diversas facções criminosas. “Esta é uma virada para a polícia do Rio de Janeiro. É difícil para nós, policiais, mas isso tem que ser feito para dar credibilidade aos policiais honestos do Estado”.

A milícia que atuava na zona oeste da capital, além da venda de botijões de gás e sinal de TV a cabo clandestino, oferecia segurança a casas de prostituição ede jogos. Segundo Gioia, a polícia federal realizou grampos telefônicos que revelaram a atuação dos policiais.

A operação Guilhotina continua em vários bairros do Rio de Janeiro e conta com o apoio de dois helicópteros e quatro lanchas. Os policiais ainda querem encontrar possíveis endereços usados pelas quadrilhas para esconder armas e drogas.

*Colaborou Anderson Ramos, especial para o iG

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