Manguinhos ganha PAC, mas não tem polícia nem coleta de lixo

Apesar de investimentos previstos de R$ 672 milhões, complexo de favelas continua sob o tráfico e sem serviços públicos básicos

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Das quatro áreas de urbanização do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) nas favelas no Rio de Janeiro, Manguinhos é a única sem processo de pacificação. O Complexo do Alemão foi tomado pelas forças de segurança , em novembro de 2010, e está ocupado pelo Exército. A polícia entrou na Rocinha e manteve o Bope lá . Pavão-Pavãozinho/Cantagalo tem UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) desde dezembro de 2009.

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Manguinhos, porém, continua sob o domínio do tráfico e o abandono dos serviços públicos, presentes no resto da cidade. Os moradores reclamam de ausência de coleta de lixo, da iluminação precária, do esquecimento pela polícia e pelos Correios e da inexistência de cabos de telefonia – o que os impede de ter linha telefônica fixa, em pleno conjunto habitacional entregue pelo PAC em 2010 .

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Biblioteca Parque de Manguinhos tem 27 mil títulos e recebe de 300 a 500 visitantes por dia

As obras estão previstas em R$ 671 milhões - valor só inferior ao quase bilionário PAC do Alemão. O governo federal repassou praticamente o total de sua parte, R$ 298 milhões, e o Estado aportou R$ 292,2 dos R$ 359 milhões previstos, segundo a Secretaria de Obras - restante cabe à prefeitura. A execução das obras, porém, anda em ritmo mais lento que a liberação de recursos.

Carlos Ivan / Agência O Globo
PMs no Complexo de Manguinhos. Ao fundo, pixação diz que "Aqui blindado entra na bala"
Maconha à vista e PM, só em tiroteios

No conjunto de prédios inaugurado em dezembro de 2009 - mas só entregue no fim de janeiro de 2010 - em Manguinhos, ainda é comum ver, como iG constatou, adolescentes fumando maconha tranquilamente, diante de crianças. A área é dominada por traficantes .

“Os ‘crackeiros’ também vêm e roubam roupa na corda, não tem segurança. O pessoal expulsa, mas às vezes eles estão aí.” A reportagem foi abordada na saída do conjunto por uma mulher aparentemente drogada pedindo dinheiro, na área, conhecida como uma cracolândia.

Os moradores apontam a ausência de policiamento rotineiro. “Os meninos ( traficantes ) não ficam tanto aqui. De vez em quando entra aí o Caveirão ( veículo blindado do Bope, da PM ). Eu sou a primeira a correr para dentro!”, conta Rosângela Alves, 46 anos, síndica do bloco 1 que vende “quentinhas” em casa para sustentar a “penca de sete filhos”. A PM não comentou.

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Josélia mostra buraco de bala no vaso, ao lado da varanda de casa, no prédio novo do PAC
Aqui é uma bomba-relógio. A gente não sabe quando vai acontecer . Mas também não vou dizer que não sou acostumada ( com tiroteios ), porque a gente se habituou a isso”, afirmou Simone.

“Quando tem tiro, minha filha corre e se esconde lá dentro, embaixo da cama. Aqui ( na varanda ) é tijolo encaixado, não tem segurança ( contra tiros de fuzil )”, disse Rose, como a síndica gosta de ser chamada.

Quando o repórter fotografava a fachada de um prédio com buracos de tiros, um rapaz o interpelou, ameaçador. "Está fazendo o quê?"

Atrasos, acidentes e mortes

A falta de segurança não diz respeito apenas ao tráfico. A linha do trem, que divide o conjunto habitacional e a favela, passa a 15 metros de alguns prédios. Crianças, adultos e idosos transitam pela via para passar ao outro lado da comunidade. Foi aberta uma passagem no muro de um lado e na cerca de arame, do outro. O projeto da elevação da linha do trem, previsto pelo PAC desde 2007 é incipiente e ainda está longe de acabar.

“Outro dia matou uma moça com o bebê de colo, de dois meses, ali na frente. O trem veio apagado e não buzina. Ela estava com mais três meninas, que se salvaram”, contou Josélia Pereira, 36. “Toda hora tem acidente; as pessoas têm medo. Já puseram um madeirite, mas aí foi caindo, empenado, e ficou aberto. Precisamos de um muro”, disse Josélia, que recebe Bolsa Família e o Família Carioca, da prefeitura.

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Muro quebrado perto dos prédios novos deixa exposta a linha do trem, que aguarda obra para elevação. Moradores relatam morte e acidentes
As composições passam a 15 metros de alguns prédios, fazendo muito barulho, seguidamente, o dia todo. “Parece que o trem está dentro de casa, treme tudo. Isso aí é o dia inteiro, desde antes das 5 horas”, lamenta Rose.

De acordo com a Secretaria de Obras do Estado, "os furos no gradil, que separa as edificações da via férrea, foram feitos pela própria população para encurtar os acessos".

Apartamentos inundados

Os 416 apartamentos de 46 metros quadrados nos prédios de quatro andares custaram R$ 53 milhões e foram "inaugurados" em dezembro de 2009, mas entregues só no fim de janeiro seguinte. Abrigam cerca de 2.000 pessoas e foram erguidos próximo ao canal da Cunha, assoreado por lixo e entulho.

Embora sejam novos, desde três meses após a entrega - quando houve a primeira inundação -, os apartamentos demonstram ter pouca resistência às chuvas. “Vaza tudo para dentro, pelos tijolos; tiramos água a noite toda. Tinha de ser emboçado, mas deixam a gente aqui largada. O esgoto enche e sobe na calçada. Um dia, vou parar o trânsito. Só ajudam se a reportagem vem”, protestou Rose.

A assessoria de imprensa da Secretaria de Obras do Estado afirmou que "não procede a informação de infiltração de água pelos tijolos" e que "todos os reparos solicitados pelos moradores estão sendo executados pelo consórcio, com acompanhamento dos engenheiros da EMOP e da equipe do PAC social do Governo".

“Aqui fica uma piscina, dá para ver pela lama hoje. Agradeço ao Lula, não vou dizer que não, mas eu achava que seria melhor”, disse Simone Pessanha, 42, auxiliar de serviços gerais.

“Deram ( o apartamento ), mas é largado. Minha neta caiu em um buraco de esgoto sem tampa e, por sorte, puxamos rápido. Ela ficou doente, com infecção intestinal. O esgoto está sempre entupido ou aberto, tem muito pernilongo. A iluminação a gente implora para vir mas não vem”, disse a síndica.

A Secretaria de Obras afirmou que "projeto de iluminação pública foi aprovado pela concessionária (Rioluz) e executado dentro das normas".

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Um passeio pelo conjunto revela que não há nas ruas as lixeiras cor de abóbora do resto da cidade. “Falta coleta de lixo e não tem nem gari comunitário. A Comlurb (Companhia de Limpeza Urbana do Rio) deixou aqui uns contêineres quebrados, mas tive de implorar para tirá-los e puseram no canto de lá. Pedi novo ou uma caçamba, mas não vem.”

A Comlurb disse ao iG , em nota, que “realiza coleta diariamente nessa área, inclusive nos fins de semana”. “A varrição é feita de três a quatro vezes por dia, de segunda a sábado, por quatro garis. A empresa diz que há “depredação dos equipamentos” e “despejo irregular por alguns moradores”.

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Josélia e Rose reclamam do abandono do serviço público por Manguinhos
“Havia 24 contêineres espalhados pela área. Atualmente, restam apenas oito; 16 deles foram roubados, mesmo os que tinham trava antifurto. As papeleiras também foram sendo destruídas e roubadas. Das 20 que existiam, restaram quatro. Recentemente, a Comlurb colocou uma caixa de ferro multiuso, com capacidade de cinco metros cúbicos, para o despejo de lixo. A companhia está providenciando a reposição dos equipamentos, mas pede a colaboração dos moradores para que joguem o lixo no local adequado e que evitem o vandalismo”, afirmou a empresa.

“Os Correios não entregam ( correspondência ) aqui. Já que agora é bairro e pagamos água e luz, têm de entregar, né? Conta de luz, parei de pagar, como muita gente. Passou a vir R$ 100 e não tenho nem ar-condicionado, não uso chuveiro quente, é só ventilador e TV. Tem gente aqui que catava papelão, latinha. Tem condição de pagar isso?”, questionou Alice Santos, 37. Procurados sobre o tema, os Correios não se manifestaram.

Apesar da obra recente, não há cabos de rede de telefonia. “Queria ter telefone, mas a empresa telefônica me disse que aqui não tem cabo para instalar. Então todo mundo só pode ter celular”, reclamou a auxiliar de serviços gerais Simone Pessanha, 42.

Segundo a Secretaria de Obras do Estado, "o cabeamento de telefonia fixa será executado no contrato da complementação das obras, que será licitado em breve".

Falta creche na Praça da Cidadania

Mãe de dois meninos – Vítor, de 4 anos, e Caio, 3 –, demorou a encontrar lugar para deixar o caçula enquanto ela e o marido trabalham. Por falta de creche em Manguinhos, só conseguiu vaga em uma escola na Quinta da Boa Vista, a 7 quilômetros de distância. Precisa pagar R$ 200 para uma van levar e buscar o menino, que fica lá das 7 horas às 16 horas.

“E olha quanto espaço livre! O colégio que construíram aqui é só para os grandes. A prioridade do PAC deveria ser os pequenos! Os grandes conseguem ir para mais longe”, reclamou Simone.

O Estado informou que será construída creche na área da antiga fábrica da CCPL, implodida este mês .

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Sem creche em Manguinhos, Simone paga uma Kombi para levar Caio (E) à escolinha, a 7km

Ela se referia à urbanizada Praça da Cidadania, um centro de equipamentos públicos, com o Colégio Estadual Compositor Luiz Carlos da Vila, a bela Biblioteca Parque (estrela do conjunto), uma UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) 24h, a Casa da Mulher, o Centro Vocacional-Tecnológico e o Centro de Referência da Juventude, entre outros.

A escola funciona nas instalações da sede do antigo quartel do Depósito de Suprimentos (Desup) do Exército, cujo terreno foi cedido para as intervenções em Manguinhos. São 14 salas de aula, além de salão de dança, sala de cinema com 43 poltronas e largos corredores.

Segundo a diretora Cláudia Bittencourt – na escola “desde a obra ( de construção )” – o trabalho é feito de “sangue, suor e lágrimas”. “Não é só pedagogia, é trabalho social também. Todos querem melhorar suas condições de vida. Nossos alunos passaram em concursos públicos e disputam vaga no Colégio Pedro II e nas Forças Armadas”, disse ela, segundo quem 40% dos 100 estudantes que fizeram vestibular em 2011 foram aprovados.

A unidade tem complexo esportivo e parque aquático - com aulas de natação para moradores e alunos -, atende a 1.200 estudantes do Ensino Médio, curso noturno de jovens e adultos e funciona como “escola aberta”, aos sábados, parceria do governos do Estado e federal.

Oferece à comunidade aulas de capoeira, música, informática (são 40 computadores), oficina de corte/costura e artesanato. “Queremos manter a juventude ocupada e dar opção de ganharem dinheiro extra”, afirmou Cláudia.

Ex-aluno e hoje instrutor de capoeira, Douglas Avelino, o "Monrá" (referência ao vilão Mumm-Ra, do desenho Thundercats) ganhou um apartamento do PAC no conjunto Embratel e vive sozinho no imóvel de dois quartos, mas tem o sonho de sair da comunidade. “Quero viver melhor”, diz ele, que trabalha também como jardineiro.

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Douglas Avelino, o Monra, salta na capoeira, que ensina na escola em Manguinhos

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