Mãe de aluno que passou 10 minutos agonizando reclama de auxílio público

Família diz passar por dificuldades e que o jovem evita falar sobre a tragédia de Realengo

Flavia Salme, iG Rio de Janeiro |

As imagens captadas pelo circuito interno de TV instalado na escola Tasso da Silveira, em Realengo, revelaram uma das cenas mais chocantes do massacre em que 12 estudantes morreram e outros 11 ficaram feridos. Atingido por três disparos, Edson Clayton Alves, de 14 anos, caiu no chão no corredor entre as duas salas que foram alvo do assassino Wellington Menezes de Oliveira e agonizou por mais de 10 minutos até receber socorro.

Reprodução
Foto da família mostra Edson Clayton recebendo a visita de Ronaldinho Gaúcho no hospital onde se recuperava dos disparos
“Ele não gosta de lembrar daquele dia, não quer falar”, diz a dona de casa Gisele Alves Francisco, de 29 anos, mãe do adolescente. “Eu já o ouvi comentando alguma coisa com outras pessoas, mas comigo ele não fala. Acho que é para não me deixar nervosa. Foi muito triste o que aconteceu com ele, eu fiquei desesperada”.

Por conta dos ferimentos, Edson passou 18 dias internado, 16 deles no CTI. “Foram feitas duas cirurgias. Ele estava muito ferido”, conta Gisele. Uma das balas atingiu-lhe o rosto, próximo à orelha, e atravessou a bochecha. A outra pegou uma das mãos que Edson usou para proteger o rosto dos disparos. O terceiro projétil atingiu o abdômen do menino.

Durante o tempo em que Edson agonizou no chão, dezenas de pessoas passaram por ele. Eram professores, funcionários, estudantes e outras pessoas que tentavam resgatar feridos ou que constatavam a morte de algumas crianças. Enquanto corriam de um lado para o outro, Edson permanecia no chão. Ele chegou a acenar com uma das mãos para mostrar que estava vivo e precisava de ajuda.

Na segunda-feira (25), o estudante recebeu alta do Hospital Albert Schweitzer, também em Realengo, onde foi visitado pelo atacante Ronaldinho. Alto e muito magro, ele agora se recupera de uma infecção urinária. “Foi provocada pela sonda”, diz a mãe.

Segundo ela, Edson não quer mais voltar para a escola Tasso da Silveira. “Esse ano não tem mais condições dele voltar a estudar”, avalia. “E quando voltar não vai ser para a Tasso, ele não quer. O sonho dele é ir para escola particular”.

“Ele tem insônia”, diz Gisele

No quarto onde passa a maior tempo descansando e jogando videogame com os amigos, Edson – que em casa é chamado de Clayton –, vez por outra levanta para caminhar. “Ainda dói um pouco”, diz ele, tímido.

Quando uma vizinha bate à porta da casa da família para ter notícias de sua recuperação, ele não vacila. Levanta a camisa e, sem cerimônia, mostra a cicatriz que lhe corta verticalmente a barriga, numa extensão que vai do púbis até a altura do peito.

Quando abaixa a blusa, o adolescente abre um sorriso tímido e explica que sorri para dizer que está tudo bem. “Ele está tentando ser forte, mas não é bem assim. Tem tido insônia, dorme pouco à noite”, conta a dona de casa. “O ânimo dele quem está garantindo são os amigos. Eles não saem daqui”, diz Gisele.

Mãe lamenta falta de ajuda

Gisele reclama que não recebeu apoio das autoridades do Rio de Janeiro e diz que por conta da tragédia está com o pagamento das contas de casa atrasado. “Tenho um menino de 5 anos e nesse período precisei me desdobrar para dar atenção aos dois. Tinha dia de eu ir e voltar do hospital algumas vezes...Gastamos muito dinheiro com passagens”, relata. “Sou dona de casa, quem trabalha é meu marido. Como a gente não recebeu carro para fazer nosso transporte, como aconteceu com as outras famílias, ficou tudo na nossa conta. Não pagamos telefone, INSS e um monte de outras contas...”, lamenta Gisele.

Moradora de uma área humilde em Realengo, ela diz que aguarda a promessa de auxílio da Prefeitura. “Ele vai precisar fazer fisioterapia. Por conta do tiro, o maxilar dele não abre completamente. E também de auxílio psicológico”, explica. “Vieram uns representantes da Prefeitura dizendo que ele vai poder ser atendido na Clínica da Família Olímpia Esteves. Mas nada foi marcado, ficou para a próxima semana”, relata a dona de casa. “Vou esperar”.

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