Juíza assassinada julgava mulher PM acusada de homicídio

Reportagem do iG fez uma pesquisa no site do TJ-RJ e descobriu que magistrada abriu processos contra 115 PMs entre 2006 e 2011

iG Rio de Janeiro |

Reprodução Facebook
Patrícia Acioli tinha 47 anos e foi morta quando chegava em sua casa, em Niterói
Entre 2006 e 2011, a juíza Patrícia Acioli, que foi assassinada no último dia 11, em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, abriu processos por homicídio contra ao menos 115 policiais militares, segundo um levantamento feito pelo iG no site do Tribunal de Justiça (TJ-RJ).

Dois dos acusados já estão mortos. Um dos réus, que já até foi expulso da corporação, se entregou na última quarta-feira (24). A magistrada era titular da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, também na região metropolitana fluminense.

Entre os casos levantados pelo iG , está o de uma policial militar supostamente envolvida com uma milícia e que, além de um homicídio, responde também por formação de quadrilha. Segundo os autos, ela participou de um assassinato cometido em frente da boate Tulipão, em São Gonçalo, em 2007.

Nesta semana, o comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte, recebeu do TJ-RJ uma lista com os nomes de 91 PMs que eram réus de Acioli.

Questionada pelo iG sobre o número ser diferente do levantado na reportagem, a corporação informou que a lista é reservada e que os PMs incluídos respondem por homicídios resultantes de autos de resistência (mortes em confronto).

A assessoria de imprensa da PM não confirmou se policiais acusados de assassinatos em razão de envolvimento com milícias, máfia das vans ou grupos de extermínio foram relacionados na lista entregue pelo TJ-RJ mas fontes da corporação revelaram que a relação encaminhada pela Justiça não inclui PMs suspeitos de homicídios cometidos por motivos pessoais, como é o caso do tenente-coronel Luiz Carlos Gomes. O oficial é acusado de ser mandante do assassinato de um rapaz que discutiu com ele no dia em que Gomes foi baleado. Ele chegou a ter sua prisão decretada por Acioli mas ela foi revogada.

O TJ-RJ informou ao iG que não comentaria sobre a lista de PMs sob alegação de que o assunto é sigiloso.

O comandante Mário Sérgio admitiu a possibilildade de PMs estarem envolvidos na morte da juíza após receber informações de que balas que atingiram a magistrada saíram de um lote de 10 mil munições que foi vendido à corporação.

A Divisão de Homicídios da Polícia Civil está analisando os processos em que PMs eram réus da juíza para tentar descobrir alguma pista que levem a suspeitos do crime.

PM acusado de 15 homicídios

Dos 115 PMs que eram julgados pela juíza, o iG conseguiu levantar informações de cerca de 40 deles. Entre eles, o de dois policiais do 7º BPM (São Gonçalo) que respondem a 15 e 13 homicídios.

Os crimes em que a dupla é acusada ocorreram durante supostos confrontos em favelas da cidade e que foram registrados em delegacias como autos de resistência. Segundo a Justiça, eles respondem juntos a nove processos.

Em um dos autos, há relatos de que uma vítima supostamente ligada ao tráfico de drogas foi morta com tiros no rosto em 2008, no bairro do Gradim. Segundo o despacho da juíza do dia 21 de setembro do ano passado, houve uma execução neste caso.

O PM que responde a 13 homicídios teve a prisão decretada pela magistrada horas antes dela ser assassinada. A mesma ação incluiu outros sete PMs. Eles são acusados de forjarem um auto de resistência.

Outros dois PMs do 7º Batalhão que eram réus da juíza respondem a oito e sete assassinatos, todos também registrados como mortes em confronto.

Grupos de extermínio

Patrícia Acioli também julgava cinco PMs, sendo três do batalhão de Niterói (12º BPM), um de São Gonçalo (7º BPM) e um do BPTur (Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas) suspeitos de integrar um grupo de extermínio que sequestrava traficantes e pedia resgate aos familiares.

O grupo era chefiado por Wanderson Silva Tavares, o Gordinho, com quem foi apreendida no início do ano um manuscrito com os nomes de 12 pessoas marcadas para morrer, entre elas a própria juíza que foi assassinada. Gordinho, que não é PM, está preso, e recebeu a delação premiada porque aceitou colaborar com a Justiça.

Pedro Kirilos / Agência O Globo
Carro da juíza Patrícia Acioli foi atingido por disparos efetuados por homens encapuzados. Balas usadas no crime saíram de lote vendido à PM
Os PMs do bando de Gordinho respondem pelos crimes de homicídio qualificado, extorsão mediantes sequestro e formação de quadrilha ou bando.

Outros seis PMs - dos batalhões de São Gonçalo, Olaria (16º BPM) e Tijuca (6º BPM) - também eram réus da juíza assassinada. Eles respondem a dois processos na Justiça acusados de formar um grupo de extermínio que era chefiado pelo criminoso conhecido como Rodrigo Soares Rangel, o Rodriguinho, que não é PM, e também está preso.

Consta também entre os processados por Patrícia Acioli um PM do 7º BPM acusado de integrar uma milícia no bairro Engenho Pequeno, em São Gonçalo, que responde por um homicídio, e de pelo menos três outros que tinham envolvimento com a máfia das vans.

Dois PMs, que estão atualmente lotados no 19º BPM (Copacabana, na zona sul) e 22º BPM (Complexo da Maré), estavam entre os mais de cem réus de Acioli. Eles respondem a um processo de homicídio na 4ª Vara Criminal de São Gonçalo.

Queima de arquivo

Eram réus da juíza Patrícia Acioli dois PMs do 7º BPM que foram acusados de tentar matar um informante de um deles como "queima de arquivo". O crime ocorreu em 2006.

Acioli julgava ainda outros cinco PMs do 7º Batalhão que foram acusados de forjar um duplo auto de resistência ocorrido em abril de 2008. Segundo os autos, dois jovens roubaram uma joalheria, mataram o proprietário a pauladas e se esconderam no morro Menino de Deus.

A juíza também era responsável pelo processo contra um sargento do 35º BPM (Itaboraí) acusado de homicídio e que, recentemente, ocupou um cargo em uma prefeitura na região metropolitana do Rio.

A magistrada julgava também por assassinato um capitão da PM. Esse oficial é o mesmo que, no ano passado, foi afastado durante uma confusão no morro do Bumba, em Niterói, quando um morador foi atingido no olho por spray de pimenta.

Um major que foi chefe do Serviço Reservado do batalhão de São Gonçalo, também era réu de Acioli em um processo de homicídio juntamente com outros cinco PMs. Segundo os autos, houve um auto de resistência e a vítima não foi socorrida ao hospital e os policiais também desfizeram o local do fato.

Também está entre os réus de Patrícia Acioli um soldado da PM acusado de matar um rapaz de 21 anos que supostamente tentou lhe assaltar em 2007.


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