'Juan era muito brigão, mas era legal', diz amigo do menino

Garoto de 11 anos vivia com intensidade e era conhecido por ser bagunceiro e cheio de energia

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Juan Moraes viveu 11 anos com muita intensidade. Não era um menino que passasse despercebido. Era agitado, brigão, bagunceiro, intenso e gostava de se exibir na sala de aula, na descrição de colegas, professores e vizinhos de Nova Iguaçu.

Raphael Gomide
Alunos da escola onde Juan estudava leem cartaz e matérias sobre a morte do colega
Não parava quieto. Soltava pipa, jogava bola, andava a cavalo, era fera em bola de gude, xingava os vizinhos, brigava na escola, fazia bagunça, era por vezes agressivo, andava de bicicleta "como um maluquinho", brincava de pique-esconde e pique-pega jogava capoeira e dava saltos mortais. Tudo o que um menino de sua idade faz, mas com uma energia incessante.

Depois de desaparecer no dia 20 de junho, após ser baleado em um tiroteio entre policiais militares e, supostamente, traficantes, o corpo de Juan foi encontrado desfigurado, dia 30 . A Polícia Civil primeiro identificou o cadáver como sendo de uma menina; na quarta-feira, confirmou que era mesmo Juan . O enterro aconteceu na noite desta quinta , sob escolta policial - a família está sob proteção. Nesta sexta-feira (8), alunos liam recortes de jornal e um cartaz no corredor da Escola Municipal Leopoldina M.B. de Barros: "Só uma palavra traduz o que estamos sentindo: indignação." Na entrada, outro cartaz apontava que o colégio está de luto.

Juan morava com a mãe, uma irmã e um irmão em uma casa humilde no bairro Danon, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. O pai já não morava lá desde 2009. Na vizinhança, todos o conheciam pela agitação e o temperamento explosivo, apesar da pouca idade.

Adorava andar de bicicleta. Quando não tomava o ônibus, esse era o seu meio de transporte de casa para o colégio. Pedalava sempre às carreiras, "como um maluco". "Ele fingia que ia atropelar as pessoas, mas não atropelava", contou Fabrício Jarbas, 10 anos, colega de sua turma, a 401.

"Na rua, xingava a mãe de todo mundo, era maluco! Quando cortavam a linha da pipa dele com cerol, reclamava até de Deus, porque deixou a pipa voar", contou um vizinho, um ano mais velho. Como era bravinho, tornou-se alvo de meninos mais velhos. Era divertido vê-lo praguejar quando perdia a pipa. Na escola, era famoso por gostar de "aparecer" em sala e pelas brigas no recreio.

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A quadra na escola municipal, onde Juan gostava de jogar futebol
No Danon, estava sempre na rua principal correndo atrás de pipa e jogando bola de gude ou futebol, muitas vezes com a camisa do Fluminense. Juan adorava brincar com os meninos da vizinhança, mas queria mais aventuras. "Há um mês, emprestei meu cavalo a ele. Ele caiu do penhasco no riacho, quebrou as costas da potra, que não conseguia mais andar. O animal morreu e a mãe dele me deu R$ 200", contou Leonardo Santos, 16 anos. "Ele brincava muito, era levadão. Mas qual criança não é levada?", perguntou Carla Santos, vizinha de 12 anos.

Adriana Nogueira, 13, morava na casa ao lado da de Juan e brincava com ele no campinho no alto do bairro, próximo às casas. "Era chatinho, implicante, mas gente boa, muito legal. Agitado, amigo de todo mundo, mas respeitava", disse, lembrando que Juan tinha pouca paciência. "Se não conseguia pegar a bola da gente no futebol, chutava a canela da gente, ficava com raiva", ri.

Embora querido na vizinhança, sua popularidade na escola não era incondicional. Havia meninos e meninas que não gostavam do que consideravam excesso de brincadeiras e de vontade de "aparecer". "Ele achava que era o rei, que mandava em tudo. Ele era o que mais fazia graça. Subia na cadeira para falar, dava (salto) mortal. A Alice (menina da escola) deu um fora nele e ele ficou com raiva", contou Fabrício.

Na escola, muitos colegas o temiam, apesar de ter alguns amigos e certa liderança. Como era mais velho que a maioria da turma 401, era também mais forte. No recreio, não ficava fora do futebol. Não que fosse bom de bola - jogava mais ou menos -, mas porque se não fosse escolhido para o time criava confusão. Na quadra de cimento que ocupa boa parte do pátio da escola, ficou famoso pelo estilo "guerreiro".

"Ele dava banda (rasteira) em todo mundo no futebol", contou o colega Breno Cunha. "O pessoal tinha medo dele porque era forte, maior que a gente e porque ele batia, batia para machucar", contou Fabrício Jarbas, 10, de sua turma. "Teve um dia que pegou duas madeiras e saiu batendo com elas no Jonathan, que estava implicando com ele. Ele era muito brigão", completou. Craque mesmo, Juan era na bolinha de gude. "Jogava para caraca!", conta Carlos Eduardo Amorim, 12 anos, vizinho. "Ele ganhou um pote cheio de bolas meu", lembrou Jonathan Volpasso, 13.

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Cartaz na porta indica que a escola está de luto pela morte do menino
Um menino que foi da sua turma na segunda série na outra escola em que estudou em Nova Iguaçu, E.M. Professor Newton G. de Barros, contou ao iG que a agressividade não era reservada apenas aos meninos. "Ele brigava muito. Um dia ele tacou a borracha no quadro com raiva do professor, que tinha falado que ele não podia fazer bagunça. Lá, até xingou um professor e quase foi para o Conselho Tutelar. Mas para mim ele era querido", disse o menino, que pediu para não ser identificado.

Segundo a coordenadora pedagógica do colégio, Bárbara Azevedo, Juan tinha liderança e era querido entre os alunos. Apesar de "agitado" e "bagunceiro", respeitava a autoridade dos professores. Mas Juan não se destacava nos estudos. Repetiu duas vezes e, aos 11, estava no 4º ano, onde havia crianças de até 9 anos de idade. Em abril de 2010, trocou de colégio, passando para a E.M. Professora Leopoldina M.B. de Barros, em Jardim Nova Era, Nova Iguaçu.

Após a transferência, começou o ano passado de forma razoável na sala 402, com todas as sete notas "Regular" (igual ou superior a 50%) no primeiro bimestre, como mostra o boletim. A partir de então, todas suas notas tiveram o conceito "insuficiente", com exceção de Arte e Ensino Religioso. Deve ter desanimado, prevendo ser reprovado como em 2008, e passou a faltar. Foram três ausências no terceiro bimestre e 16 no último. Não foi "promovido", como consta no documento. Estava agora na turma 401.

Na noite do dia 20, estava brincando na rua, perto de casa, com o irmão Wesley, também baleado. Embora o bairro Danon não tivesse tráfico ativo, um pequeno grupo vinha tentando implantar bocas de fumo. Foi em um tiroteio da polícia com traficantes, em 20 de junho, que Juan teria sido baleado, de acordo com testemunhas. "Foi a primeira vez que escutei tiros", disse Cristiane Martins, moradora há três anos. Há quem diga que foram quatro disparos; outros ouviram mais de uma rajada e estimaram os espocos em 20. Em seguida, três carros da Polícia Militar desceram a ladeira em alta velocidade e saíram do bairro.

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Relatório da escola de Juan, com a foto do menino
Dia 21, não voltou à escola. Os alunos perguntavam por ele no período em que ficou desaparecido, e a direção tentava acalmar os meninos, com sugestões de orações e pensamento positivo. "Achei que ele pudesse estar em algum lugar, perdido. Quando soube, me deu calafrio, eu me arrepiei todo", disse Breno.

Para as outras 34 crianças da sala 401, do quarto ano, a manhã de quinta-feira foi de tristeza. Os alunos foram informados sobre a morte de Juan e rezaram, juntos, um Pai-Nosso no pátio da escola. Muitos choraram porque ainda tinham esperanças de que o menino estivesse vivo.

"Juan era brigão, mas era muito legal", disse Breno.

A amiga e vizinha Adriana estava triste. "Ele adorava fazer graça. Ia lá em casa e dizia para o meu pai: 'Eu vou casar com a sua filha, ela é gente boa'. Eu me sinto muito mal porque ele era um belo amigo, um amigão'", contou Adriana.

Morto aos 11 anos, Juan não vai mais fazer graça nem bagunça nem casar com Adriana.

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