Jornal do Brasil já estava morto, dizem ex-protagonistas do diário

Para jornalistas que desempenharam papel de destaque no JB, fim do papel é só uma espécie de `sepultamento¿ após a decadência

iG Rio de Janeiro |

A morte da edição de papel do Jornal do Brasil, nesta terça-feira, representa, para muitos ex-integrantes do jornal, mais um sepultamento simbólico de um diário que já representou o sonho de muitos jornalistas brasileiros.

“O JB já acabou de verdade faz tempo. Há anos que perdeu a sua alma, a alma de um jornal influente, plural, inquieto, de vanguarda, como o nome propunha, ser o jornal de todo o Brasil. E é com tristeza que falo isso. Hoje é um jornal sem a menor graça”, disse o colunista Ancelmo Gois, que atuou seis anos no JB. “No primeiro dia que entrei na redação, lembro que tive crise de choro, as pernas não me obedeciam. Sou de uma geração que aprendeu a gostar de jornalismo lendo o Jornal do Brasil. Conseguir aquele emprego era emoção parecida a de um jogador sendo escalado para jogar na Seleção brasileira”, disse.

Kiko Nascimento Brito, da família que comandou o jornal antes da venda, em 2001, afirmou que o Jornal do Brasil “morreu no dia em que foi para as mãos do Tanure”. “Está morto há dez anos. Era um zumbi, sendo talvez o enterro agora”, avaliou Nascimento Brito.

“Tanure vai só enterrar e pôr no epitáfio seu nome”, concorda Janio de Freitas, que comandou a reforma gráfica no jornal em 1959 e hoje é colunista da Folha de S.Paulo.

Para Etevaldo Dias, editor-executivo da sucursal de Brasília do jornal até ser secretário de imprensa do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 92, o fim da circulação do diário em papel é “um dia de luto”, mas faz parte de um processo, não é nada abrupto.

“O JB teve uma morte lenta. Éramos uma equipe de jovens, mesclada com gente experiente. Havia alma do JB dentro das redações. Só pelo fato de o estagiário pisar ali dentro, ele já assimilava o que vinha de texto diferenciado, apuração cuidadosa, edição inteligente de noticiário”, afirmou.

O fim de um sonho

Para Ricardo Kotscho, repórter e ex-secretário de imprensa do presidente Lula, o JB em seu auge “reunia a seleção brasileira da imprensa”, disse, em sua coluna no iG. “O grande sonho de todo jornalista era trabalhar lá um dia. Tinha vários craques em cada editoria. Ouso afirmar que nunca mais se montou uma redação daquela qualidade em jornal algum”, escreveu Kotscho.

O fotojornalista Evandro Teixeira, há quase 50 anos no diário, viveu as muitas fases de sucesso e crises do Jornal do Brasil ao longo desse período. A última edição de papel deve representar também o fim da relação entre Evandro e o JB. Sua declaração ao iG representa as incertezas que a mudança traz.

“Não queria dar declarações saudosistas, porque ainda estou lá. Até terça-feira sou funcionário do jornal, ainda faço parte do expediente, é a única certeza que tenho. Queria ficar afastado dessas despedidas. Acho que, com esta proposta de se tornar online, vai melhorar a imagem do JB, atendendo à tendência mundial que caminha para a internet. Ainda converso com os dirigentes para saber se ficarei por lá”, disse.

“Tanto por parte dos leitores quanto de quem trabalhou por lá, o sentimento é de luto, de tristeza. Ficaremos na orfandade”, afirmou Zuenir Ventura.

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