JB criou nova concepção gráfica e editorial no jornalismo brasileiro

Diário funcionou para experimentação e reuniu a seleção brasileira da imprensa em seus anos de glória e prestígio

iG Rio de Janeiro |

Quando, em junho de 1959, Janio de Freitas tirou os fios das páginas e aumentou fotografias no Jornal do Brasil, usando-as com mais criatividade e conteúdo jornalístico, criou uma nova concepção de desenho gráfico para jornais no Brasil.

“(Manoel do) Nascimento Brito (dono do JB) me convidou para implantar em todo o jornal a reforma que eu vinha fazendo no Esporte. Eu falei quanto queria como salário, e ele ficou danado da vida! Meses depois, voltou a me convidar e implantamos o projeto. Apostei que dobraria a tiragem em um ano, e acho que multiplicamos por cinco”, conta Janio. Para ele, Nascimento Brito não era “ousado”, mas “um irresponsável” de deixar o diário nas mãos de um jovem de 27 anos, disse ao iG , rindo.

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A capa do AI-5, de dezembro de 1969, trazia a seguinte previsão: "Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos"
Com a modernização gráfica e editorial, o diário nascido em 1891 cresceu, aumentou suas vendas e o prestígio como veículo nacional, atraindo os melhores jornalistas do país, com independência editorial, salários altos e bom ambiente de trabalho. Foi a partir daí, somada à entrada de Alberto Dines, que o JB viveu seus dias de glória, como jornal de referência nacional, até os anos 1980, quando começou sua decadência, por causa de dívidas tributárias e trabalhistas.

“O JB foi não só um jornal, mas um laboratório de experimentação, ao introduzir o jornalismo moderno no Brasil. Foi para o jornalismo o que a Semana de Arte Moderna de 1922 foi para as artes plásticas e a literatura. Sua reforma gráfica foi um ganho tremendo, desde a renovação da linguagem, ao fim da retórica de adjetivos e clichês”, disse ao iG Zuenir Ventura.

O fim com Tanure

Após período de crise financeira, o diário ensaiou breve recuperação em 2001, com o arrendamento do jornal pelo empresário baiano Nelson Tanure, que anunciou o fim da edição em papel. A chegada de Tanure chegou a ser vista com esperança, com a expectativa de investimentos de R$ 100 milhões, mas em menos de um ano a equipe se desfez. Os anos 2000 assistiram ao ocaso definitivo do diário, sob o comando de Tanure, com sucessivas trocas de diretores de redação e demissões em massa. O jornal deixou a sede da Avenida Brasil – que ocupara entre 1973 e 2001 –, apontada como um dos motivos do endividamento.

Em 2006, o JB abandonou o formato standard tradicional pelo “europeu” ou “berlinense”, espécie de tablóide. Depois de 11 diretores em dez anos, Tanure tentou encontrar compradores para o Jornal do Brasil, sem sucesso.

O início com Joaquim Nabuco e Ruy Barbosa

Em seus 119 anos de vida, o Jornal do Brasil alternou momentos de prestígio, inovação jornalística e outros menos brilhantes. Nascido monarquista no Rio, o diário que chega às bancas nesta terça (31) pela última vez, teve Joaquim Nabuco e Rodolfo de Sousa Santas como fundadores e Ruy Barbosa como diretor.

Nos anos 30, era um “boletim de anúncios” desimportante, voltado para os classificados, que ocupavam suas primeiras páginas – recebeu o apelido pejorativo de “jornal das cozinheiras”. No Estado Novo, o Jornal do Brasil manteve relações cordiais com o governo e demonstrou simpatia com a legislação trabalhista de Vargas. A linha editorial do JB foi sempre a de um órgão católico, liberal-conservador, constitucional e defensor da iniciativa privada.

O jornal apoiou em editorial o golpe militar de 1964, mas preservou espaço para críticas nas colunas de Carlos Castelo Branco e Alceu do Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde. Em 1968, porém, ao registrar o Ato Institucional nº 5 – que suspendia direitos constitucionais –, o jornal viveu um dos grandes momentos da imprensa nacional, ao usar a primeira página para críticas cifradas à medida do governo militar.

A área destinada à previsão do tempo no alto da primeira página dizia: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos.” A foto principal mostrava Costa e Silva caindo, sob o título “tradição que se renova”; no alto, uma nota afirmava: “Ontem foi o dia dos cegos”.

No governo Ernesto Geisel, o jornal passou a manifestar divergências, já sob um clima de maior abertura política. O diário passou a sofrer boicote econômico e teve concessões de rádio e TV negadas. “O JB se equilibrou entre procurar explicar o governo e defender quem era contra o governo”, afirmou ao iG o jornalista Wilson Figueiredo, que foi vice-presidente do JB e atuou no diário entre 1957 e 2002.

Furos históricos

Dois dos principais momentos do jornal ocorreram nos anos 80. Em 1981, o JB denunciou a farsa da apuração do atentado terrorista do Riocentro, ação da linha-dura do regime militar para tentar interromper a abertura política. Nas eleições diretas para o governo do Rio, no ano seguinte, o jornal descobriu esquema fraudulento para beneficiar Wellington Moreira Franco, então no Partido Democrático Social (PDS), e evitar a vitória de Leonel Brizola (PDT).

Durante as Diretas Já, o diário teve postura moderada, mas apoiou o candidato Tancredo Neves como um consenso nacional. Em 22 de abril de 1985, o jornal publicou a manchete “Tancredo morreu”, com uma foto do presidente que não assumiu de alto a baixo da primeira página. O JB defendeu o parlamentarismo na Assembléia Nacional Constituinte, em 1987, e foi contra os cinco anos de mandato de Sarney, que depois teria feito pressão econômica e devassa fiscal contra o jornal, afetando suas finanças.

Na primeira eleição direta para presidente após a redemocratização, o JB apoiou Fernando Collor de Mello – que trabalhou lá como repórter –, para reformar e modernizar o Estado. O diário chegou a defender o polêmico Plano Collor e atacou a CPI de Paulo César Farias, mas por fim defendeu o impeachment. Fernando Henrique Cardoso foi visto também com grande entusiasmo por suas qualidades políticas e intelectuais e a postura de estadista moderno, embora em seu governo tenha piorado a situação financeira do JB.

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