Incêndio em circo que matou 500 pessoas em Niterói completa 50 anos

Tragédia foi provocada por funcionário que havia sido demitido dias antes do incêndio. Ivo Pitanguy ajudou no socorro às vítimas

iG Rio de Janeiro |

Divulgação/Universidade Federal Fluminense
O Gran Circus Norte-Americano era o maior da América Latina na época
Há exatos 50 anos, no dia 17 de dezembro de 1961, ocorria uma das maiores tragédias já registradas no Brasil: o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, que matou cerca de 500 pessoas, das quais 70% seriam crianças.

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A tragédia do Gran Circus Norte-Americano virou livro, lançado recentemente pelo jornalista Mauro Ventura com o título de 'O Espetáculo Mais Triste da Terra'.

Para produzir a obra, o jornalista entrevistou cerca de 150 pessoas, entre elas Santiago Grotto, um dos três trapezistas que tinham acabado de se exibir quando o fogo começou, e o único ainda vivo, e o médico argentino Fortunato Benaim, que veio de seu país para socorrer as vítimas.

Ventura lembra em seu livro que, na época da tragédia, o principal hospital da cidade, o Antônio Pedro, estava fechado por falta de condições.

No dia do fato, o circo estava com cerca de 3 mil pessoas na plateia. Faltando 20 minutos para o espetáculo acabar, uma trapezista percebeu o incêndio. Em pouco mais de cinco minutos, o circo foi completamente devorado pelas chamas.

Centenas de pessoas foram carbonizadas, outras foram sufocadas pela fumaça e algumas foram pisoteadas, em meio ao pânico dos que tentavam sair. A tragédia só não foi maior porque um elefante conseguiu romper a lona do circo, abrindo uma rota de fuga alternativa.

Divulgação
Livro do jornalista Mauro Ventura que descreve a tragédia do Gran Circus Norte-Americano
De acordo com informações da polícia na época, 372 pessoas morreram no local. Outras faleceram nos dias seguintes, em decorrência de ferimentos e complicações advindas do incêndio, chegando a 500 o número de mortos. Mais de 1.000 pessoas ficaram feridas.

Um dos moradores da cidade, o empresário José Datrino, ficou abalado com o incêndio e viu nele um sinal de necessidade de mudança. Abandonou os negócios, no ramo de transporte, e passou a difundir a necessidade de uma postura mais humana e gentil. Pregou durante 35 anos, sendo conhecido como profeta Gentileza.

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O mais famoso cirurgião plástico do país, Ivo Pitanguy, teve atuação destacada na ajuda às vítimas. Durante meses, ele e uma equipe de voluntários se dedicaram ao tratamento dos feridos através da cirurgia reparadora mas também da cirurgia estética.

Ex-funcionário teria provocado o incêndio

As investigações da época indicaram que a tragédia teria sido provocada por um funcionário que teria sido demitido dias antes da estreia do circo: Adílson Marcelino Alves, o Dequinha, que já respondia por furto e apresentava problemas mentais.

Inconformado com a demissão, Dequinha passou a ficar rondando as imediações do circo. No dia do incêndio, ele começou a provocar o funcionário Maciel Felizardo, que foi apontado como o culpado por sua demissão. Seguiu-se uma discussão e Felizardo agrediu o ex-funcionário, que reagiu e jurou vingança.

Na tarde de 17 de dezembro de 1961, Dequinha convidou José dos Santos, o Pardal, e Walter Rosa dos Santos, o Bigode, para atear fogo no circo. Eles se encontraram em um local denominado Ponto de Cem Réis, no bairro Fonseca, e decidiram pôr em prática o plano de vingança.

Um dos comparsas de Dequinha, responsável pela compra da gasolina, advertiu ele da lotação esgotada do circo e iminente risco de mortes. Porém, Dequinha estava irredutível: queria vingança e dizia que o dono do circo, Danilo Stevanovich, tinha uma grande dívida com ele.

Divulgação/Universidade Federal Fluminense
Fogo começou logo após apresentação dos trapezistas

Frigorífico

Na época da tragédia, não havia espaço no IML (Instituto Médico Legal) de Niterói. Com isso, vários corpos foram recolhidos às câmaras de estocagem de carne bovina da indústrias frigoríficas Maveroy.

Os cadáveres depois eram encaminhados ao estádio municipal da cidade, cobertos com lençóis brancos doados pela população. Reconhecidos, iam diretamente para os caixões.

Como tinham que atender a diferentes tamanhos, os caixões eram feitos na hora, por marceneiros e carpinteiros da cidade, convocados em regime de urgência para atender à demanda.

O governo fluminense mandou equipes de médicos e remédios para ajudar os feridos. O governador Celso Peçanha passou a noite no local, acompanhando os trabalhos de socorros às vítimas. A tragédia teve repercussão internacional. O papa João 23 rezou uma missa no Vaticano em memória às vítimas do incêndio. Os Estados Unidos mandaram medicamentos, a Argentina enviou médicos para ajudar.

Durante dias, Niterói viveu sepultamentos seguidos. As pessoas vestiam preto. Os carros circulavam com fitas pretas penduradas.

Dequinha foi preso em 22 de dezembro de 1961. Seus parceiros também foram capturados. Em outubro de 1962, o mentor do crime foi condenado a 16 anos de prisão e mais seis anos anos de internação em manicômio judiciário. Em 1973, porém, fugiu da prisão e um mês depois foi assassinado. Bigode recebeu pena de 17 anos de reclusão. Pardal foi condenado a 16 anos.

O Gran Circus Norte-Americano era apontado como o maior da América Latina, com 60 artistas, 20 empregados e 120 animais. Sua montagem na Praça Expedicionário (centro de Niterói) demorou cerca de uma semana, em dezembro de 1961, e envolveu 50 empregados temporários, contratados para essa função. Só a colocação da cobertura envolvia uma complexa operação, pois o tecido pesava mais de seis toneladas.

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