'Inaugurado', teleférico do Alemão só funcionará plenamente em novembro

Moradores reclamam que funcionamento entre 7h e 12h não os atende. SuperVia diz que início é de 'operação assistida' e treinamento

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Raphael Gomide
Gôndolas do teleférico do Alemão, paradas, às 16h

Quando a presidenta Dilma Rousseff (PT), o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e o prefeito Eduardo Paes (PMDB) inauguraram com festa e passeio exclusivo o teleférico do Alemão, em um frio 7 de julho no alto do Morro do Adeus, os moradores presentes ao evento não imaginavam que teriam de esperar quatro meses para usufruir plenamente da novidade anunciada.

Até o próximo 5 de setembro, as seis estações e 152 gôndolas do teleférico – que custou R$ 210 milhões e é símbolo do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) - funcionarão apenas de 7h às 12h, de segunda a sexta-feira.

No mês que vem, o teleférico passa a operar 10h por dia e em fins de semana, ainda sem previsão de horário, já cobrando tarifa. Só em novembro, porém – quatro meses após a “inauguração” –, os habitantes do complexo poderão subir os morros locais sem usar a “Viação Canela” entre 6h e 21h, nos dias úteis. Aos sábados, o teleférico funcionará de 8h às 20h, e aos domingos e feriados, de 9h às 15h.

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Ione Santos inicia subida de 40 minutos até em casa. Para ela, a espera pelo teleférico até agora virou decepção
Moradores ouvidos pelo iG reclamaram do horário e disseram que o teleférico atualmente não atende à maior parte da comunidade.

A funcionária de limpeza Ione Silva dos Santos leva 40 minutos para subir da Rua Uranos até sua casa, no alto do Morro do Adeus. “Eu ando devagarzinho, não ando correndo. E se tivesse ele (teleférico), seria melhor, né?”, diz.

Ione sai de casa para o trabalho, no Centro, antes das 6h, e volta para casa por volta das 16h30. Um mês após a festividade política, ainda não andou no teleférico, embora esteja “ansiosa, cheia de vontade”.

'A gente esperando há tanto tempo por isso para chegar agora, e essa decepção, né?'

“(O horário) Está errado, né? Volto do trabalho à tarde. Meio-dia estamos trabalhando. Não tem condições. Quando a gente vem do serviço e não tem meio de transporte é chato. Tem que subir escada. A gente esperando há tanto tempo por isso para chegar agora e essa decepção, né?”, reclamou Ione. “Mas vamos esperar, vai chegar a hora.”

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Para Marcos Moreira, horário do teleférico (parado, ao fundo) de 7h às 12h é ruim
Marcos Moreira, 34, que trabalha em uma farmácia, também não andou nas gôndolas. “O horário não dá para mim. É ruim não funcionar à tarde para quem vem do pique do trabalho. O tempo para subir depende de disposição: é muita escada, e o teleférico seria um adianto”, disse Marcos. “Fica uma fila danada, a meninada da escola sobe e desce o tempo todo.”

‘Viação Canela’

Sandra Silva, da área administrativa de um plano de saúde, disse que o teleférico a ajudaria, mas não faz tanta falta, pelo hábito. “Já estou acostumada à ‘Viação Canela’ (andar a pé). Mas se tivesse teleférico seria melhor, né?”, disse.

Para o técnico em elétrica e iluminação Leonardo Santos, 29, o teleférico deveria funcionar “em tempo integral” desde a inauguração. Ele leva dez minutos para descer de casa até o “asfalto” e mais que o dobro para subir, na volta. “Descer é melhor que subir, ainda mais sem teleférico”, disse.

“Ainda não andei. Falta tempo, e a fila é grande. É novidade e todo mundo quer andar., disse o especialista em elétrica e iluminação Leonardo Santos, 29 anos.

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Gôndolas do teleférico do Alemão paradas, em Bonsucesso

Na recém-reformada estação “intermodal” de Bonsucesso, que integra o meio ferroviário com o teleférico, o funcionário não soube dizer quando o horário de 7h às 12h seria mudado. Os moradores ouvidos também desconheciam quando e se ocorreriam eventuais mudanças. Um painel avisa o horário vigente.

Projeto consumiu R$ 210 milhões dos R$ 939 mi do PAC do Alemão

No discurso de inauguração, a presidenta Dilma – apelidada por Lula de “mãe do PAC” quando
ministra-chefe da Casa Civil no último governo –, citou a moradora Rosinete Augusta Nascimento Silva, que desistiu de deixar a comunidade após o início das obras do PAC e com o processo de pacificação do local. Segundo a presidenta, Rosinete levava 20 minutos para subir até sua casa e com o teleférico, passaria a levar cinco minutos.

O PAC do Alemão recebeu R$ 939 milhões em recursos dos governos federal e estadual, para obras de urbanização, pavimentação, habitação e para construção de escolas e de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

“O teleférico do Alemão é um símbolo do PAC, no que tem de mais importante. Não voltamos só a investir em infraestrutura. O que o governo vem fazendo, desde o presidente Lula, é investir em pessoas. Não fazemos obras por causa dos materiais, mas para beneficiar a vida diária de cada um”, disse Dilma.

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Escada da estação de trem e teleférico de Bonsucesso mostra o horário atual de funcionamento, dois meses após inauguração

SuperVia: Dois meses de 'Operação Assistida'

De acordo com a SuperVia, operadora do teleférico por 12 meses, o horário de 7h às 12h acontece por 60 dias "em período de capacitação e treinamento contínuo" de 70 funcionários de operação e manutenção. Na primeira fase, o uso “é gratuito e aberto à comunidade” e o funcionamento “está sujeito a mudanças, para teste de novos horários, fluxo de passageiros, demandas e pontos de melhorias”.

A empresa alega que isso é necessário porque é a primeira operação do gênero no País. “Possibilita uma forma de atender melhor a população que vai trabalhar e aprimorar a eficiência dos funcionários e manutenção do sistema. Nestes primeiros dois meses, tempo da operação assistida, podemos fazer essa rotatividade de horário para que estejamos preparados para a operação plena. A comunidade será a primeira a ser avisada em caso de possíveis mudanças neste período.”

Nos próximos dois meses, a tarifa passará a ser cobrada e o funcionamento será de dez horas diárias nos dias úteis. Nesta fase, já haverá operação nos finais de semana, ainda sem previsão de horário. 

Roberto Stuckert Filho/PR
Presidenta Dilma Rousseff embarca em gôndola do teleférico com Sérgio Cabral e Eduardo Paes, na 'inauguração', há um mês

Os moradores cadastrados terão direito a duas passagens gratuitas diárias (de ida e volta), não cumulativas. Segundo a SuperVia, o cadastramento começou em 25 de julho, por pré-agendamento telefônico – (21) 3265-9997 – e em um posto na estação de Bonsucesso. Deve-se apresentar CPF e comprovante de residência.

As demais passagens custarão R$ 1 cada, cobradas a partir de setembro. A tarifa de integração trem/teleférico custará R$ 2,80. Um bilhete “turístico” dará direito a embarcar e desembarcar em todas as estações, com validade apenas para um dia custará R$ 10.

Segundo o governo, o teleférico será usado por cerca de 70% da população do complexo de favelas, com 85 mil habitantes. São seis estações e 3,5 km de extensão. As 152 gôndolas - com dez passageiros em cada - poderão transportar 30 mil passageiros por dia, quando completamente operacionais, em novembro. A viagem da primeira estação (Bonsucesso) à última (Palmeiras) leva 16 minutos. De acordo com a SuperVia, o sistema transportou aproximadamente 220 mil pessoas nas primeiras quatro semanas de operação.

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