¿Foi um milagre, somos vitoriosos¿; leia relatos do drama no Rio

Sobreviventes da tragédia na região serrana do Estado contam o seu drama

Flávia Salme e Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro |

A região serrana do Rio passou pela maior tragédia natural da história do País. São centenas de mortos em Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo. Relatos comoventes de quem sobreviveu às fortes chuvas que caem na região desde terça-feira à noite (11) ajudam a entender a dimensão do estrago.

Hélio Motta
Cartolino Ferreira
Cartolino Ferreira: “Foi um milagre, somos vitoriosos”
(Campo Grande, Teresópolis - 15/01)

Arrastado pela enchente, o pedreiro Cartolino Ferreira , de 46 anos, foi salvo ao ficar preso entre duas casas. “Estava completamente nu, preso num monte de lixo”, contou. “Havia três corpos ao meu redor. Todos nus. A morte não deixa ninguém de roupa”. Totonho, como é conhecido na região, perdeu a mulher na enxurrada e tem o filho caçula, Marcos, de 11 anos, internado após ser levado pela chuva. “Ele perguntou o tempo todo pela mãe. Achei melhor responder que ela está internada”. Da família, apenas o filho mais velho, Paulo Henrique, 24, foi salvo sem traumas. “Eu corri para o banheiro e consegui fugir pela cozinha”, explicou. Depois de perder tudo, Totonho e o filho foram abrigados pela ex-mulher. “Foi um milagre, somos vitoriosos”, disse ele, ainda solidário com as outras vítimas da tragédia. “Essa dor não é só minha.”

Hélio Motta
Luiz Carlos Almeida Rabelo
Luiz Carlos Rabelo: “Agimos por instinto. Subi na janela, quebrei o telhado e puxei meu pai para cima. Ele é paraplégico”
(Cascata do Imbuí, Teresópolis – 14/01)

Em um único terreno, a família de Luiz Carlos Almeida Rabelo , 46, havia construído cinco casas à margem de um córrego. Sobrou uma. “Não sei como sobrevivemos. Passava árvore, passava carro, passava corpo, passava tudo”, explicou o carpinteiro, que se salvou da enxurrada em cima do telhado. “Agimos por instinto. Subi na janela e puxei meu pai para cima. Ele é paraplégico”. Ele se refere a Deoclício da Ponto Rabelo, 67, a única pessoa a deixar o local após a enchente - o aposentado não tem uma perna e precisa de cuidados especiais. O resto da família se arrisca para recuperar o prejuízo. “Acabei de comprar uma televisão. Nem paguei a primeira prestação e já foi tudo para o lixo”, lamentou o pedreiro Joacir, tio de Luiz Carlos.

Hélio Motta
Nilcéa e Gabriel Oliveira
Gabriel Oliveira: “Tive de abandonar o meu cachorro, ele estava vivo. Precisei retirar o corpo do meu padrasto”
(Parque Imbuí, Teresópolis - 12/01)


Em frente ao IML (Instituto Médico Legal) e com lama até a cintura após um desabamento de terra, Gabriel Oliveira, de 28 anos , recebeu a boa notícia do dia. “Sua mãe está viva e passa bem”, contou sua tia Nilcéia Teixeira de Oliveira. Poucas horas antes, o servente passou por cenas na rua onde morava que nunca vai esquecer, segundo ele. “Tive de abandonar o meu cachorro lá, ele estava vivo e soterrado, coitado. Precisei retirar o corpo do meu padrasto, se não ninguém o faria. Nem sei se minha mãe sabe que o marido morreu”. De sua casa, conseguiu pegar apenas uma mochila de roupas e uma sacola de sapatos. “Nessas horas a gente faz o melhor que pode, usa toda a força que tem. Cai, levanta, anda de quatro na lama, mas tem que fazer alguma coisa para ajudar”.

Hélio Motta
Edmar Gregório
Edmar Gregório: “Eu preferia que tivesse sido eu. Não sou nada sem minha mulher”
(Santa Rosa, Teresópolis – 13/01)

Salvo por Deus e pela cabeceira da cama. Assim credita a sua vida o lavrador Edmar Gregório, de 44 anos, após sobreviver ao deslizamento de sua casa por cerca de 800 metros do alto de um morro. Segundo ele, a madeira caiu sobre o seu corpo e suportou o peso da terra. O agricultor perdeu a esposa, um filho de 13 anos e um neto de um mês. “Eu preferia que tivesse sido eu. Não sou nada sem minha mulher”. Assim que ouviu um estalo na casa, conta Edmar, a mulher correu para o quarto do único filho homem do casal e os dois foram atingidos. “Não pude fazer nada para socorrê-lo”, lamenta-se. Suas duas filhas sobreviveram. A mais velha, de 20 anos, está internada em estado grave e precisará ser operada.

Foto: Hélio Motta
Rosângela Pereira Tavares com uma das filhas
Rosângela Pereira Tavares: “Sabe o que é enfrentar correnteza com um bebê no colo?"
(Posse, Teresópolis – 13/01)

Quando a água começou a invadir a casa de Rosângela Pereira Tavares, de 40 anos , ela só teve tempo de salvar as filhas Gisele e Luciele. “A água estava acima da minha cintura. Sabe o que é enfrentar correnteza com um bebê no colo?", indaga a dona de casa, referindo-se, na verdade, a duas crianças gêmeas de 11 meses. O marido, Sandro Correia Pimentel, socorreu as outras três meninas do casal, de 8, 14 e 16 anos. A família está em um abrigo improvisado no Ginásio Pedrão, no centro de Teresópolis, com a ausência do pedreiro. “Ele foi tentar resgatar nossos parentes. Muita gente morreu. A tia, a sobrinha, o primo... Nem sei contar”. Sem casa e documentos, ela não vê perspectiva. “O que vai ser da gente?”

Hélio Motta
Maria de Jesus Correia
Maria de Jesus Correia: “O silêncio é bom. Vi muita gente sendo arrastada pela água e gritando por socorro”
(Campo Grande, Teresópolis – 15/01)

Sem luz, sem água e quase sem comida, a doméstica Maria de Jesus Correia, de 50 anos , continua em sua casa, uma das poucas que resistiu à avalanche na vizinhança. “O silêncio é bom. Vi muita gente sendo arrastada pela água e gritando por socorro”. A calmaria acaba quando bombeiros, técnicos da Defesa Civil e voluntários entram no terreno para avançar até a parte mais alta da região, onde ainda há muitos corpos soterrados. “Eles passam por aqui e sempre deixam uma garrafa d’água, um biscoito, emprestam uma vela”, diz. E não tem medo de continuar no local. “Se a casa não caiu naquele momento, não cai mais”.

Urbano Erbiste
Luiz Fernando Conceição
Luiz Fernando Conceição: "É um misto de sorte e tristeza"
(Conselheiro Paulino, Nova Friburgo - 13/01)

O pintor Luiz Fernando Conceição, de 35 anos , está feliz por ser um dos sobreviventes das chuvas que assolaram a Região Serrana do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, é tomado pela dor da morte do pai, que foi soterrado na casa da família, localizada no Loteamento Floresta, no Distrito de Conselheiro Paulino, em Nova Friburgo. Ele conta que estava em casa quando começou a chover forte ainda na madrugada de terça-feira (11). "Peguei meus pais e os levei para um lugar que considerava mais seguro. Foi quando o morro desabou e levou tudo", lamenta. Os três foram soterrados, lado a lado, e passaram cerca de seis horas sob os destroços. Cinco amigos os retiraram da terra, mas seu pai não sobreviveu."Minha mãe ainda se comunciava comigo, mas ele não falava mais", lembra.

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