Filho de playboy conta como é a rotina de trabalho em Bangu 3

Gabriel, caçula de Jorge Guinle, revela detalhes do dia a dia como inspetor penitenciário no presídio de segurança máxima. Comente

Priscila Bessa, iG Rio de Janeiro |

Isabela Kassow
Inspetor penitenciário há dois anos e meio, Gabriel Guinle define o clima em Bangu 3 como "tenso"
Filho mais novo do famoso playboy Jorginho Guinle , conhecido por ter gasto toda a fortuna estimada em R$ 100 milhões que herdou, Gabriel Guinle , de 28 anos, poderia ser mais um jovem bem nascido que passa os dias cercado por mulheres bonitas entre festas e restaurantes requintados. Mas a disposição do pai para aproveitar a vida detonou a fortuna herdada da família.

Ao invés de se revoltar com as escolhas de Jorginho, após a morte do pai, em 2004, Gabriel procurou todo tipo de trabalho para bancar a faculdade de Direito. Formado, ele estudou e passou na primeira tentativa para o concurso de inspetor penitenciário, profissão que exerce há dois anos e meio. Após trabalhar em um presídio do município de Campos dos Goytacazes, o rapaz foi transferido para Bangu 3 , unidade que reúne os bandidos mais perigosos do Complexo Penitenciário de Gericinó.

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Nesta entrevista, concedida no Forte de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, Gabriel conta como é a rotina no presídio de segurança máxima, fala sobre a relação com os presos e, apesar de afirmar que nunca enfrentou uma situação de risco, já sentiu o clima – que define frequentemente como “tenso” - esquentar diversas vezes: “Teve um dia que faltou luz e tive que ficar parado na mesma posição com a arma apontada enquanto o outro inspetor ficou segurando a lanterna por cinco horas seguidas. Não sabíamos o motivo da falta de luz”.

iG: Na prática como é o seu dia-a-dia?
Gabriel Guinle:
Faço a contagem, acompanho o banho de sol, etc. Porque onde eu estou já são presos condenados. Hoje em dia é muito forte a questão de ressocializar. O Afroreggae faz um trabalho lá, temos escolas, cultos religiosos, uma série de atividades que possibilitam, se a pessoa realmente quiser, que ela possa se reintegrar a sociedade. Então a gente os acompanha nisso. E, claro, tem a parte também da segurança.

iG: Você trabalha na unidade que tem os presos mais perigosos. Não pensa no risco?
Gabriel Guinle:
Penso porque hoje em dia, mesmo quando saímos de casa, corremos o risco de alguma coisa nos acontecer, mas nem fico muito com isso na cabeça. Até porque o pessoal está lá recluso. Eles sabem que, se fizerem alguma coisa, isso não vai trazer nenhum benefício para eles ou a família deles, que pode ter a visita suspensa.

Isabela Kassow
Detalhe da tatuagem que o rapaz fez em homenagem ao pai, Jorginho Guinle
iG: Nunca passou por uma situação de risco?
Gabriel Guinle:
Já tiveram coisas que são contornáveis. Por exemplo, acabou a água. Aí fica tenso. Muitas horas sem voltar, o calor muito grande, e já teve situações de haver, vamos dizer assim, uma tensão maior. Numa iminência de acontecer alguma coisa. Rebelião nunca porque não existem rebeliões no sistema há uns cinco ou seis anos.

iG: Mas já foi ameaçado?
Gabriel Guinle:
Ameaça sempre há. Onde estou são mais de 500 homens e nem todos pensam da mesma forma. De repente um age de forma mais inconsequente, não acordou num bom dia, de repente joga uma letra mais pesada para você e a gente absorve. Temos um treinamento para saber lidar com esse tipo de situação.

iG: Nessas situações o que você já viu?
Gabriel Guinle:
Briga entre eles. Às vezes é tenso. Onde estou agora não houve muito, mas em Campos já aconteceram situações de... (faz uma longa pausa e não completa a frase). Aqui, por incrível que pareça, por serem os bandidos mais perigosos, eles sabem muito do direito deles, do que pode acontecer. Sabem que qualquer coisa rende uma punição, quais são as consequências que podem ser geradas por um ato impensado.

iG: Lá dentro vocês andam armados para fazer a segurança?
Gabriel Guinle:
Dentro das galerias não, mas nas cancelas, nas passadiças ou se acontecer alguma coisa lá dentro, a gente até pode entrar (armado). É o que chamamos de uso progressivo da força. Primeiro vem a verbalização, depois vamos tomando atitudes mais enérgicas conforme a situação vai se agravando. Há armamentos não letais também. Trabalho com a escopeta com munições que chamam de impacto controlado, a bala de borracha, além da granada de luz e som, agente químico, o chamado spray de pimenta, e gás lacrimogênio.

iG: Cassetete também?
Gabriel Guinle:
Não. Isso aí causa lesão, e não é nem por causar lesões. A questão é pôr fim naquela situação de perigo. Acabar com aquilo e trazer a situação de tranquilidade de volta para a unidade. Não é agredir o preso nem fazer mal a ele. O objetivo é pôr fim a essas situações extremas.

iG: E você já precisou fazer uso dessas armas?
Gabriel Guinle:
Graças a Deus, não. Conseguimos resolver tudo na base do diálogo sem ter que partir para uma situação mais enérgica.

Isabela Kassow
Armamentos não letais como escopeta com munições de bala de borracha e granada de luz e som são alguns dos recursos do inspetor em Bangu 3
iG: Você disse que presenciou brigas entre presos, mas sabemos que existe também muita corrupção. O que costuma ver?
Gabriel Guinle:
Com essa parte não tive muito contato. Falam muito desse mundo, mas o pessoal que vê de fora não tem muita ideia de como é o sistema lá dentro. Com esse lance de corrupção, propina e tudo, nunca tive nenhum problema, até porque trabalhei com pessoas formadas. A maioria dos meus colegas tem nível superior ou está se formando, então nunca presenciei nada anormal. Até têm casos de advogados, a própria visita que tenta entrar com algum tipo de entorpecente lá dentro, mas é a minoria. A grande maioria não quer arrumar problema.

iG: Mas sabemos que existe um comércio entre os presos com o que eles conseguem colocar para dentro da penitenciária.
Gabriel Guinle:
Isso acontece porque o efetivo é pequeno e há a necessidade de mais pessoas trabalhando lá dentro. São normalmente oito ou dez inspetores para 500 presos, então às vezes não há esse controle. As pessoas pensam que há droga dentro das unidades penitenciárias e falam “ah porque os inspetores”. Mas não é por culpa ou conivência dos próprios servidores e, sim, pela falta de efetivo. Até como há falta de efetivo na Polícia Militar, por exemplo.

iG: Os presos de Campos são muito diferentes dos de Bangu?
Gabriel Guinle:
Em Campos são presos mais pobres. E lá, ao contrário daqui, das facções, eles não têm muita organização, então é meio cada um por si. Tinha de tudo em Campos. Ladrão, desde o cara que furtava um iogurte em um supermercado, até um pessoal de grupo de extermínio, separados mais ou menos pelo grau do crime.

iG: Que tipo de conflito presenciou lá? Havia muita violência?
Gabriel Guinle:
Praticamente conflitos entre eles. Havia muita desavença tipo um furtar o outro dentro da cela. Violência acontecia, mas o episódio era cessado rápido porque quando a gente chegava lá eles não queriam problema. Senão perde direito de visita, o tipo de coisa que para eles não é interessante. Ficar depois duas ou três semanas sem receber visita, por exemplo. Encontrávamos o que restou da história. Tinha que retirar aqueles que haviam se machucado, às vezes não podiam ficar na mesma cela, havia divergência entre um e outro, enfim.

iG: Teve caso de homicídio?
Gabriel Guinle:
Não. Teve caso de overdose. Aconteceu com um cara que estava no isolamento sozinho.

iG: Como ele conseguiu ter uma overdose no isolamento?
Gabriel Guinle:
É porque fica um muito próximo ao outro. No que eles chamam de marimba, tipo uma corda que eles fazem, passam, ou então os presos que eles chamam de faxina, que são os presos que têm acesso e que... Quer dizer, isso a gente não pode comprovar. Falamos hipoteticamente.

iG: Você diz o tempo todo que o presídio não é como as pessoas de fora pensam, mas sabe-se que tem superlotação, por exemplo.
Gabriel Guinle:
Lá dentro, por incrível que pareça, é bem limpo. Os presos mesmos têm uma preocupação com a higiene. Não há mais isso de superlotação. Não tem mais esse problema no Rio de Janeiro. Não digo nas delegacias tipo Polinter, Neves, Pavuna... É horrível aquilo ali. Papo de maluco. Isso você não vê acontecer nem em Bangu e nem em Campos.

Isabela Kassow
Gabriel está estudando para entrar para a Polícia Federal, mas quer se tornar advogado criminalista
iG: Nunca se comoveu com a história de nenhum preso?
Gabriel Guinle:
Com certeza. Em Campos o pessoal era mais aberto, aqui mais fechado. Então tinham situações em que eu ficava comovido. Tipo a história do cara que furtou um iogurte e, como lá é interior, o pessoal prende mesmo. São pessoas que demonstravam serem boas e que mereciam um voto de confiança, então tratávamos normal. Tínhamos uma boa relação. Perguntavam sobre futebol, me chamavam de “Seu Guinle” (risos). Era até uma forma de descontrair porque é claro que o ambiente não é dos melhores.

iG: Já tentaram te aliciar?
Gabriel Guinle:
Já, já. Perguntavam se eu podia trazer alguma coisa para eles e eu cortei logo. “A minha não é essa entendeu? Isso vai morrer por aqui mesmo”. É como eles dizem lá e, às vezes, falamos igual: “Pode passar essa visão para o coletivo para não haver esse tipo de abordagem comigo”.

iG: Mas eles não têm medo?
Gabriel Guinle:
Eles testam, né? Porque no início você é novo e eles não sabem. Vão jogando uma letra até ver se cola ou não.

iG: Você tem porte de arma e pode efetuar uma prisão?
Gabriel Guinle:
Sim. Uma vez a Pillar me avisou que tinha um cara vendendo droga na porta do meu prédio...
(A noiva interrompe) Pillar Lopes: Gabriel chegou no dia seguinte do presídio e deu um tapão na cara dele. Disse que se o pegasse vendendo droga de novo o prendia.

iG: Como é a rotina na penitenciaria? Quando está lá você não dorme?
Gabriel Guinle:
Trabalho 24 horas e folgo três dias. Quando chego contamos os presos para ver se ninguém foi embora (risos), depois tem as coisas normais como levar o pessoal que vai para a escola, tem dia de visita, banho de sol e coisas corriqueiras de qualquer unidade. À noite tem a vigia, mas a gente reveza no que chamamos de quarto de hora. Alguns vão para o alojamento dormir e outros ficam acordados. Durmo umas quatro ou cinco horas em média e olhe lá. Há um revezamento entre o pessoal. Quando chega 8 horas da manhã, se está tudo certo, aí vamos embora.

iG: É muito cansativo?
Gabriel Guinle:
Depende. Teve um dia em que faltou luz e tive que ficar parado na mesma posição com a arma apontada enquanto o outro inspetor ficou segurando a lanterna por cinco horas seguidas. Porque estava um breu, né? E não sabíamos o motivo da falta de luz. Poderia ser alguma coisa ou uma casualidade.

iG: Como faz para ser respeitado lá?
Gabriel Guinle:
Ajo com respeito e tenho postura profissional. Até porque o cara que é corrupto eles não têm respeito. Tem um negócio que eles falam para os envolvidos nisso que é: “Pô, o senhor não está podendo”. Porque, se o cara faz transação com eles, de certa forma é visto como um deles. É só assim que você consegue o respeito, não tem outro jeito.

Isabela Kassow
Ele trocou o luxo do Copacabana Palace, que frequenta desde pequeno, pelos muros de Bangu 3
iG: Nunca foi xingado?
Gabriel Guinle:
Já aconteceu, mas isso aí eles jogam, não falam especificamente. Falam da forma antiga. “Pô, esses DESIPs FDP (DESIP é a sigla do antigo Departamento do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro)”. E ameaçam: “ A coisa vai ficar feia”. A gente retruca: “Entra na fila que tem um montão”. Mas é mais no momento do calor da emoção, quando a comida chegou atrasada e o cara está meio nervoso, nada que não possa ser contornado.

iG: Você acredita de verdade na recuperação dessas pessoas?
Gabriel Guinle:
Sim. Acho que tem que dar uma segunda chance. O que me irrita mais não é o cara que comete um delito e vai para lá. É o cara que tem uma condição boa, comete um crime e vai parar numa situação dessas. Porque quem vem de uma comunidade, não teve outra oportunidade - às vezes a própria família trafica, o pai, a mãe - não que justifique, mas dá para entender porque chegou naquele ponto. Às vezes passou fome. Tem pessoas que não querem, mas há pessoas que mudam realmente.

iG: O que seu pai pensaria da profissão que escolheu?
Gabriel Guinle:
Acho que ele teria orgulho de mim por ser uma pessoa honesta, íntegra, chego lá às 7h e volto 6h do outro dia. Sou trabalhador, o pessoal gosta muito de mim lá dentro. Meu pai não ficaria horrorizado. Ele era muito apegado a mim. Iria achar até interessante porque é um mundo muito diferente.

iG: Pretende continuar quanto tempo ainda como inspetor?
Gabriel Guinle:
Vou me reciclar nos estudos e mais adiante ser advogado criminal. Hoje não tenho mais interesse em ser delegado. Tem muito criminalista influente por causa do nome, da família, mas eu quero ter esse conhecimento técnico para poder ajudar o cliente da melhor forma sem precisar recorrer a amizades ou coisa parecida. Quero meu mérito pelo conhecimento técnico. Fazer a coisa por mim mesmo. Ter meu próprio caminho.

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