Filho de Jorginho Guinle: “Vivi época negra e ninguém me estendeu a mão”

O inspetor penitenciário Gabriel, caçula do playboy Jorge Guinle, diz que passou dificuldades e que os amigos do pai lhe deram as costas. Comente

Priscila Bessa, iG Rio de Janeiro |

Isabela Kassow
Gabriel Guinle: "Não sou muito de economizar. Puxei um pouquinho ao meu pai"
Mansão com oito empregados, mordomo e cozinheiro francês, hóspedes ilustres como George Harrison - guitarrista dos Beatles -, essa era a vida que se apresentava para Gabriel Guinle quando o rapaz nasceu há 28 anos. Seu futuro, no entanto, foi diferente porque o provedor de toda essa mordomia era o playboy Jorge Guinle (1916-2004), boêmio incorrigível e mestre na arte de gastar dinheiro. Mais conhecido como Jorginho, o carioca bon vivant leva a fama de ter detonado uma fortuna estimada em R$ 100 milhões o que o obrigou a viver numa condição bem mais modesta no fim da vida, muito longe dos tempos em que circulava pelo hotel Copacabana Palace, dirigido pela família Guinle desde sua construção, em 1923, até 1989.

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Sem dinheiro, Gabriel reuniu forças para seguir em frente por conta própria, como adiantou a colunista do iG , Lu Lacerda . O jovem prestou concurso para conseguir um emprego como inspetor penitenciário - primeiramente Gabriel trabalhou no município de Campos dos Goytacazes e, depois, foi transferido para o presídio Bangu 3 , na zona oeste do Rio – e pagou o curso de Direito na Universidade Cândido Mendes fazendo “de tudo”, como ele mesmo diz.

Por tudo, entenda-se: empréstimos, negociação de dívidas diretamente com o reitor da faculdade, trabalho como vendedor em shopping, e o que mais lhe ocorreu. Até hoje, ele concilia a função de inspetor com o trabalho em uma loja de antiguidades para aumentar a renda.

“O pessoal lá em casa fica preocupado, mas agora já aceita um pouco mais”, despista Gabriel, que trabalha em presídios há dois anos e meio e, atualmente, está na unidade onde estão os criminosos mais perigosos do Complexo Penitenciário de Gericinó. A noiva do rapaz, Pillar Lopes, de 24 anos, que o acompanhou nesta entrevista ao iG no Forte de Copacabana, zona sul do Rio, diz, entretanto, que não é bem assim: "O pessoal aceita, mas a sua avó já conversou comigo que pelo seu nome, pelo seu pai, não deveria ter escolhido isso porque fica feio para você”.

A tatuagem no antebraço esquerdo com o nome do pai evidencia que com relação a ele ou suas escolhas de vida, Gabriel não guarda ressentimentos. “Escolhi trabalhar”, diz ele. Nesta entrevista, Gabriel fala sobre a relação com o pai, com quem morou durante toda a vida, nega que Jorginho tenha vivido de favor e afirma que pediu ajuda para conseguir emprego, mas os amigos da família lhe deram as costas.

iG: Seu pai levou a fama de ter gasto toda sua fortuna. Nunca pensou que sua vida poderia ser mais fácil? Trabalhar por prazer ou ter coisas que você não tem?
Gabriel Guinle:
Pensar a gente pensa. De qualquer forma é a imprensa que divulga muito isso, do meu pai não ter deixado nada, mas não é verdade.

iG: E qual é a verdade?
Gabriel Guinle:
Ele gastou bastante do dinheiro dele, mas, apesar de tudo, tenho uma vida de certa forma confortável. Escolhi trabalhar, até porque na época (da morte de Jorginho) estava com esse negócio de inventário que ainda não tinha saído. Eu quis trabalhar na área do sistema carcerário, quero ficar um tempo lá, aprender os trâmites todos, futuramente prestar um concurso para a Polícia Federal para conhecer como funciona uma investigação e, a longo prazo, me tornar um advogado criminalista. Quero conhecer o sistema como um todo.

Isabela Kassow
Gabriel diz se orgulhar por ter pago a faculdade sozinho: "Escolhi trabalhar".
iG: Quando fez a tatuagem em homenagem ao seu pai?
Gabriel Guinle:
Fiz em 2003. Meu pai havia tido um aneurisma na aorta e foi internado no Hospital Samaritano. Passou um mau bocado e fiz uma promessa que, se ele saísse com vida, faria essa homenagem. Ele gostou e ficou muito emocionado, encantado, quando mostrei.

iG: É verdade que ele morou de favor na casa de amigos no fim da vida?
Gabriel Guinle:
Mentira. Ele fez coisas para esses amigos que pagavam dívidas antigas com ele. Eu não queria falar, mas está na hora... Até o pessoal Monteiro de Carvalho fala que o ajudou muito e não é verdade. Meu pai havia vendido um terreno para eles em Teresópolis, então não é bem assim. Falam que ele viveu muito de favor, mas pelo contrário, ele ajudou bastante as pessoas. Gente que sempre se aproveitou muito dele. E quando ele veio a falecer procurei essas pessoas para pedir trabalho. Não foi para pedir dinheiro. Ninguém me estendeu a mão. O pessoal virou as costas mesmo. Foi negado. Mas tudo bem. Bola para a frente. A vida nos ensina a reagir.

iG: Mas então como ele se sustentava?
Gabriel Guinle:
Ele ficou um tempo bem debilitado e, no caso, houve um acordo com o próprio Baby (1913-2008, patriarca da família Monteiro de Carvalho) quando houve a venda do terreno. O Baby daria uma ajuda por mês, como eles eram muito amigos. Mas isso tudo foi debitado do valor do terreno de Teresópolis. Foi um negócio e é até bom falar isso hoje em dia. Ficou uma coisa mal entendida como se ele tivesse pedido ajuda, o que nunca aconteceu. O Baby era, sim, muito amigo. Não tenho o que falar dele, mas não foi um favor.

iG: Onde ele morava afinal?
Gabriel Guinle:
Primeiro morávamos eu, ele e minha mãe, na casa do Flamengo. Num dado momento minha mãe havia se separado e estava morando em São Conrado. Então eu fui morar com o meu pai no apartamento da Gávea. Depois minha mãe separou de novo, voltou a morar junto com ele, mas como amigos porque tinham uma relação boa. Aí ele ficou um tempo na casa da Ruth Almeida Prado porque quis. Era uma amiga de muitos anos.

iG: Era amiga ou namorada?
Gabriel Guinle:
Acho que amiga, porque era uma senhora, né? Enfim, não sei (risos). Então eu e minha mãe fomos lá buscá-lo para voltar para casa. Isso foi logo depois da internação no Samaritano. Foi a única ocasião em que ele morou fora de casa.

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Gabriel e Pillar estão noivos. O casal está junto há sete meses
iG: Até que ele passou a última noite da vida dele no Copacabana Palace...
Gabriel Guinle:
Depois que meu pai teve essa recaída ficou um tempo internado e, nos últimos dias, o médico me informou que ele não tinha mais chance. Não sabia se ia durar um mês ou mais uma semana. Liguei para a Cláudia Fialho (relações-públicas do hotel) e o levei até o Copacabana Palace onde ele ficou basicamente a última noite.

iG: Ele pediu isso para você?
Gabriel Guinle:
Pediu. Jantamos um estrogonofe e escutamos um CD de jazz. Na manhã seguinte já me ligaram informando que ele havia falecido e aí foi aquele rolo todo. Ele não queria velório. É até um fato engraçado. Ele falou para mim: “Pelo amor de Deus, eu não quero nenhum urubu em cima de mim. Pede à Santa Casa ou a quem for para me levar logo para o mausoléu da família no (cemitério) São João Batista”. Ele dizia que era a (avenida) Vieira Souto do São João Batista. Inclusive é bonito mesmo, todo de mármore (risos). Ele foi bem-humorado até o último dia.

iG: Seu pai morreu quando você tinha 21 anos.
Gabriel Guinle:
Ele ficou comigo até a fase adulta. Foi uma experiência formidável e única. Tinha dia que saía um para um lado e outro para o outro e eu voltava antes. Falava: “Cadê meu pai?”. Ele chegava 3h meio de pileque. Eu reclamava: “Pô, pai, até essa hora na rua?”. Ele falava comigo e ia dormir (risos). Meu pai sempre foi muito franco, meio que me moldando com essa questão de morte, preparando. Lógico que a gente leva um choque, era uma pessoa muito querida.

iG: O apartamento onde você mora era dele?
Gabriel Guinle:
Não, é da minha avó, que até tem uma boa situação. Ele deixou para nós o apartamento onde morávamos na Gávea, que preferimos vender, alguns terrenos, algumas ações indenizatórias contra o Jornal do Commércio, por exemplo, que ainda estão em trâmite na Justiça. Deixou até para a minha mãe um apartamento em São Conrado.

iG: Qual a melhor história dele?
Gabriel Guinle:
Ah, são tantas... Festa do Oscar , por exemplo. Ele contava que foi a mais de dez e que em uma delas estava sentado na terceira fileira e, quando olhou para trás, quem estava era a Elizabeth Taylor . São histórias surreais...

iG: Esse universo de viagens pelo mundo, festas ininterruptas, estrelas de Hollywood, isso nunca te fascinou?
Gabriel Guinle:
Realmente fascina porque é aquém da nossa realidade e quase ninguém tem acesso. São coisas que, hoje em dia, mesmo com dinheiro as pessoas não conseguem. Foi uma coisa de época mesmo. Mas nunca quis viver isso. Era a vida dele. Cheguei a conhecer algumas pessoas como o Frank Sinatra quando tinha uns 12 anos em Nova York. O Sinatra passou e foi falar com ele. Daí falou comigo também. Ele me contava que o George Harrison dos Beatles se hospedou conosco. Eu estava em casa, mas nem me lembro.

Isabela Kassow
Gabriel Guinle: "Falam que ele viveu de favor, mas pelo contrário, ele ajudou bastante as pessoas"
iG: Seu pai se orgulhava de ter gasto a fortuna de R$ 100 milhões e nunca ter trabalhado. Acha isso certo? Faria igual?
Gabriel Guinle:
Acho que cada um tem a sua concepção de vida. Mas eu não faria igual. Guardaria um pouquinho. Até comentávamos a respeito. Teve uma época em que ele falou que realmente não deveria ter gasto aquilo tudo.

iG: Como é a sua relação com dinheiro? Passou alguma dificuldade?
Gabriel Guinle:
Com certeza. Fiz poucos empréstimos no banco e por coisas do dia a dia. O trâmite do inventário foi o mais difícil. Uma época bem tensa com certeza. Meio negra até. Papo de não saber como ia pagar a faculdade no mês seguinte. Ia até o financeiro me virar, ficava três meses devendo. Falei com o próprio professor Cândido Mendes, fiz uma petição a ele, que foi muito gentil porque da minha dívida abateu 50%. Mas me orgulho de falar isso, que paguei minha faculdade desde o início sozinho. Minha mãe nessa parte nunca me ajudou. Tinha casa, mas a vida acadêmica eu não sabia que meios ia usar para conseguir. Esse era o meu maior medo. A pessoa fica meio desnorteada. Seu pai faleceu, era tudo para você e aí você tem que se virar, correr atrás. Fui trabalhar em shopping, fiz de tudo e não tenho vergonha de falar.

iG: Mas quando ele era vivo tinha condições de te ajudar? Ele declarou que só contava com uma pensão de R$ 1.500.
Gabriel Guinle:
Não é verdade. Como sempre contribuiu para a previdência como autônomo, no final da vida recebeu uma aposentadoria, mas vivia com o dinheiro da venda do terreno que deve ter sido uns três ou quatro milhões de reais. O que na época era ainda mais dinheiro. Foi no início do plano Real. Ele me ajudou até o segundo grau, o final dos estudos.

iG: Mas você é de gastar?
Gabriel Guinle:
Tem dias que a gente precisa segurar um pouco mais, mas não sou muito de economizar. Puxei um pouquinho ao meu pai. Gosto de ir a bons restaurantes, comer bem. Não sou muito ligado à noitada. Nesse ponto sou diferente dele. Gasto com roupas, gosto de estar sempre bem apresentável.

iG: Seu pai era um homem de muitas mulheres e você está noivo. Antes disso era mulherengo?
Gabriel Guinle:
Era sim, mas agora já sosseguei. Acho que a gente quer construir coisas mais sólidas, temos um plano de vida. Estamos juntos desde março.

iG: Jorginho nunca ficou amargurado por não poder gastar como antes?
Gabriel Guinle:
No final ele aceitou bem porque sabia que já tinha gasto tudo mesmo. Vivia um pouco naquela nostalgia de achar que nada era como antigamente, então até por isso ele não pensava muito. Achava que a época dele, do que ele gostava, já tinha passado.

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