Favela com UPP recebe turistas para brindar chegada de 2011

Reportagem do iG acompanha festa de réveillon no alto de uma laje, no morro Pavão-Pavãozinho/Cantagalo, na zona sul do Rio

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Isabela Kassow
Festa na laje de favela em Ipanema custou 250 reais por pessoa, com direito à visão dos fogos de Copacabana
Enquanto cerca de dois milhões de pessoas caminharam em direção ao mar de Copacabana para ver a chegada de 2011, algumas dezenas de turistas fizeram o caminho oposto, preferindo subir o morro.

Não há como negar. Este réveillon não vai ser como os que já passaram. Ao menos para quem mora na favela Pavão-Pavãozinho/Cantagalo, localizada entre Ipanema e Copacabana, dois dos bairros mais famosos do Rio de Janeiro. Em dezembro de 2009, a comunidade foi a quinta da cidade a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), que vêm desmatelando o controle armado de criminosos nas favelas cariocas.

Acostumados à dominação do tráfico de drogas – e a consequente submissão ao poderio da violência urbana, moradores da favela puderam assistir a uma festa pacífica na virada deste ano. A reportagem do iG acompanhou os preparativos deste evento, nas últimas horas de 2010, e a chegada de 2011, marcada pelo show pirotécnico na praia de Copacabana – que pode ser visto ao fundo, no alto do morro. Cerca de 30 turistas, entre eles argentinos e chilenos, subiram a favela por volta das 22 horas, acompanhados por ritmistas da localidade. Tamborins foram vendidos a R$ 50 para quem quisesse se aventurar na batucada.

Cada um dos presentes pagou R$ 250 para assistir à “virada” de um ponto privilegiado e, até pouco tempo atrás, irreal para os padrões de violência da cidade. O valor é o mesmo que vários restaurantes cobram pela ceia nos principais pontos da cidade. Levados por organizadores do próprio morro, os turistas brindaram o ano-novo no alto de uma laje localizada no Pavão-Pavãozinho. “Isso aqui vai além do que eu imaginava. É lindo”, dizia a turista argentina Maria Suarez, caminhando pelas vielas sujas e de esgoto a céu aberto. Todos foram devidamente uniformizados, com camisetas onde se lia a inscrição “festa na laje 2011”.

Isabela Kassow
Várias lajes da favela pacificada receberam festas na hora da virada, na zona sul do Rio
“Um lugar diferente”

A pouco mais de 800 metros de distância de todo o luxo dos apartamentos e hotéis – lotados – de Copacabana, a posição da laje da aposentada Azelina Viana dos Santos é estratégica. Com vista para Niterói ao fundo e visibilidade para os fogos de Copacabana, todos que se aventuraram na favela tiveram uma experiência atípica. “Este dia vai ficar como um registro único em nossas vidas. Queríamos um lugar diferente para ver os fogos”, contou Ana Paula Soeiro, especialista em Turismo, acompanhada do marido, o militar Hugo Maas.

Dona Azelina, de 77 anos, moradora local há 62, diz que a realidade agora é outra. “Se eu disser que nunca ouvi tiros estarei mentindo, então é bom falar que não temos mais os problemas de antes. Agora podemos receber visitas”, afirmou a anfitriã.

Isabela Kassow
Daniel Plá, idealizador da festa na laje
A ideia de fazer uma festa sobre uma laje de uma residência foi de Daniel Plá, professor de empreendedorismo da Fundação Getúlio Vargas (FGV). É a segunda vez que ele leva turistas ao morro. Todo o dinheiro arrecadado com a festa será destinado a melhorias na própria comunidade, conforme ele próprio faz questão de frisar.

Ao som da – apropriada – batida do funk “Eu só quero é ser feliz na favela onde eu nasci”, os convidados puderam se servir de salgadinhos e rabanada, bebendo Veuve Clicquot Brut (cada garrafa custa cerca de R$ 200). “Isso é para disputar com os melhores hotéis”, disse Daniel Plá. “Ainda bem que vim agora, porque daqui a alguns anos vai ser uma fortuna uma festa como esta aqui do alto”, prevê a colombiana Heidi Jalkh.

Apesar do aparente clima tranqüilo, na saída da festa, foi preciso ajuda de dois policiais militares até o pé do morro, para ensinar ao grupo de turistas o caminho certo no meio de um labirinto de vielas escuras. “É bom ter cuidado por aqui. Semana passada prendemos um sujeito que tinha vindo do Complexo do Alemão. Não podemos dar mole”, disse ele.

Atração turística

Inaugurado em junho passado, o elevador do Complexo Rubem Braga - que leva este nome em homenagem ao escritor que viveu no prédio vizinho à construção Morro do Cantagalo – melhorou a mobilidade dos moradores, beneficiados com acesso direto ao metrô. A construção é composta por duas torres, com elevadores de vista panorâmica, com capacidade para transportar até 100 pessoas ao mesmo tempo. No topo da torre mais alta, está localizado o “Mirante da Paz”.Em julho, o iG noticiou como a favela de Ipanema entrou na rota turística da cidade .

Confira mais fotos exclusivas da "festa na laje":

    Leia tudo sobre: reveillonuppfavela Pavão-PavãozinhoCantagalo

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG