Família escapa da morte em cima de telhado

No grupo havia um paraplégico e três pessoas com mais de 60 anos

Flávia Salme, enviada especial a Teresópolis |

“Quando vimos a água entrar, agimos por instinto. Subi na janela, quebrei o telhado e puxei meu pai para cima. Ele é paraplégico”, relembra o carpinteiro Luiz Carlos Almeida Rabelo, 46. Dois dias depois da enchente que arrasou o bairro onde a família Rabelo mora, em Cascata do Imbuí, somente o pai de Luiz Carlos, o aposentado Deoclício da Ponto Rabelo, 67, havia saído de casa. Ele não tem uma perna e precisa de cuidados especiais, como o uso de fralda geriátrica. Está sob o cuidado de parentes. O restante da família ficou e até hoje se arrisca para recuperar o prejuízo.

A família morava em cinco casas construídas num mesmo terreno, à margem de um córrego. “Sei que não pode morar na beira de Rio. Mas além de o nosso imóvel ser legalizado, isso aqui era um córrego. Tinha uns dois metros de largura e a água não passava da canela. Jamais poderia imaginar uma tragédia assim”, disse o aposentado Joacir da Ponte Rabelo, 65, irmão de Deoclício, o dono da casa. “A minha casa foi toda na água, só sobrou a do meu irmão”.

Os parentes lembram que a tragédia começou por volta das duas horas da madrugada, quando todos ainda estavam acordados. “A gente viu a água entrar e só teve tempo de reagir. Ainda bem que deu tudo certo”, diz Luiz Carlos. "Moro aqui há quase 50 anos, nunca vi isso".

Também estavam na casa a mulher de Luiz Carlos, a doméstica Nilza Moraes da Silva, de 52, e um senhor desconhecido que passava pela rua na hora da tragédia e também buscou abrigo com a família Rabelo.

“Era muito corpo flutuando no meio da rua”

A dona de casa Denir de Souza Almeida, 66, chora ao lembrar do momento. “A gente sob chuva no telhado, de madrugada, tudo escuro... Quando amanheceu, a gente só viu corpo boiando na nossa frente. Foi um horror”, ela relata.

A família conta que quando a água começou a baixar, um grupo de moradores parou do outro lado da rua e lançou uma corda para que todos pudessem atravessar a correnteza. “Não sei como sobrevivemos. Passava árvore, passava carro, passava corpo, passava tudo, e a gente tentando atravessar a rua. Eu ainda tive de carregar meu pai, que não anda”, contou Luiz Carlos.

Do que restou da casa, tudo ficou embaixo de lama. “Acabei de comprar uma televisão. Me aposentei há um mês e deixei o Rio de Janeiro para morar aqui. Comprei uma TV boa para curtir a aposentadoria. Nem paguei a primeira prestação e já foi tudo para o lixo”, lamentou Joacir, que era pedreiro. “E agora, onde é que a gente vai morar?”, indagou.

A casa da família fica localizada na Estrada José Gomes da Costa Junior. O bairro da Cascata do Imbuí é o primeiro (localizado na parte mais baixa) do conjunto de três bairros brutalmente atingidos pelas chuvas na região, localizada a cerca de 20 minutos do centro de Teresópolis. É no local que ficam os bairros da Posse e de Bonsucesso – este último, totalmente destruído por água e enormes pedras que devastaram as casas dos moradores.

Por enquanto, a família Rabelo está na casa de parentes.

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