Família de morto por PMs apura crime e corre risco

Anistia Internacional pede ação do país após táxi de um irmão levar tiro e irmã ser intimidada. Casa de testemunha foi alvejada

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Em 3 de abril de 2009, Josenildo Santos, 42, foi morto por policiais militares com um tiro de fuzil na nuca, em um beco do Morro da Coroa, centro do Rio. Os irmãos fizeram uma investigação informal por conta própria, que apontou execução, e ajudou o Ministério Público a denunciar quatro PMs por homicídio qualificado. Pouco mais de um ano depois, é a família de Josenildo que teme pela vida.

Em comunicado oficial, a organização de direitos humanos Anistia Internacional pede atenção da Secretaria Nacional de Direitos Humanos e do governo estadual para o caso.

De acordo com a família, Josenildo e mais cinco pessoas foram executadas pelos PMs Carlos Eduardo Virgínio dos Santos, Jubson Alencar Cruz Souza, Leonardo José de Jesus Nunes e Vágner Barbosa Santana. Os policiais alegam que as seis mortes ocorreram em tiroteio, integrando os 1048 “autos de resistência” (mortes em suposto confronto com a polícia) do ano passado.

Com as investigações da família, que fotografou o local e ouviu testemunhas, começaram as intimidações. “Tirei fotos do local. O juiz disse que é visível no processo que não teve tiroteio. O beco onde tudo aconteceu não tinha mais de 1,5m de largura. Simplesmente não dava para ter tiroteio lá. Executaram Josenildo com um tiro na nuca e falaram que foi auto de resistência”, disse Maristela.

Divulgação
Laudo mostra a causa da morte de Josenildo Santos, morto por um tiro de fuzil da PM na nuca, em operação no Morro da Coroa
No último dia 7, o táxi de Josilmar Santos, irmão de Josenildo e assistente de acusação na Justiça, teve o parabrisa atingido por um tiro, disparado de um carro, no Catumbi. “Estava mexendo no rádio, quando ouvi um estrondo alto e parei. Vi o vidro rachado e o buraco da bala. Foi um atentado. São 35.000 táxis no Rio: por que só o meu foi baleado? E justamente na semana em que fizemos manifestação para esclarecer o crime de meu irmão”, disse Josilmar. Ele demorou seis horas para fazer o registro – os policiais civis resistiam e disseram que podia ser uma pedra.

Antes disso, Maristela já tinha sido sofrido intimidações. Pouco depois da morte de Josenildo, um PM jogou o carro em sua direção, em alta velocidade, sem atingi-la. Em outra incursão da PM ao morro, foi ameaçada por um policial do mesmo batalhão, que lhe apontou a pistola. Em mais um episódio, foi seguida até a universidade que cursava. Com medo, ela trancou a faculdade e parou de trabalhar. Josilmar também devolveu o táxi para o dono. “Pagava diária, e o cara pediu o carro de volta.”

Os dois já não dormem mais duas noites seguidas no mesmo lugar nem saem de casa à noite. Maristela trancou a faculdade e chegou a perder quase 30 quilos. Seu manequim, antes 44, chegou a 34. “As pessoas achavam que eu tinha uma doença. Se fosse um crime cometido por bandidos, eu estava mais tranqüila, porque eles ficavam lá na favela deles. Com PMs é a pior situação. Mas não vamos desistir”, afirmou, ao iG.

Eles continuam sem proteção. “É uma vida de esconderijo. Medo a gente tem, mas não está apavorado. Nenhum deles está preso”, disse Maristela.

Uma testemunha do caso, não foi depor no dia 9 de março após sua casa ser alvejada por tiros na véspera do depoimento.

Divulgação
O táxi de Josilmar Santos foi atingido por tiro no alto do parabrisa. Ele crê em atentado
Integrantes da Secretaria Nacional de Direitos Humanos (SNDH) se reuniram quinta-feira, no Rio, com Josilmar, Maristela e Luciano, outro irmão. A família só deve ter uma resposta sobre a possível inclusão no programa de proteção de testemunhas quinta-feira. Até lá, a recomendação foi que receberam mais sucinta que tranquilizadora: “Mantenham-se vivos”.

Josenildo fazia lanternagem de automóveis e cuidava de uma horta comunitária no Morro da Coroa. Era doador de sangue frequente. Morreu sem saber que passara concurso público para um curso profissionalizante de caldeireiro, pelo Plano Nacional de Qualificação Profissional do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural – Prominp.

No dia em que foi morto, já tinha cruzara algumas vezes com os PMs da operação, uma delas levando uma geladeira para uma vizinha idosa. Quando foi detido, antes de morrer, ia comprar cigarros para uma amiga. “Hoje estamos levando trabalhador também”, teria respondido um PM, ao ouvir o argumento de Josenildo para não ser preso.

Segundo a família, foi morto de joelhos, com as mãos erguidas. O tiro de fuzil que o matou veio de trás e arrancou boa parte da cabeça. O irmão Luciano viu o cadáver. “Ele estava praticamente sem cabeça”, disse.

“Todos os ossos do crânio estão fraturados; o encéfalo está destruído, tendo apenas restos de massa encefálica na cavidade craniana; a base do crânio está fraturada em todos os andares”, diz o laudo de necropsia, feita no Instituto Médico Legal do Rio.

Um laudo encomendado ao perito aposentado da Polícia Civil e tenente-coronel médico da reserva do Exército Levi Inimá, apontou que o tiro foi disparado a curta distância.

No dia seguinte à morte, a família foi ao local e tirou fotos das marcas de projéteis, marcadas com círculos de giz. A maioria dos buracos de tiros é no chão e na parte baixa do muro. Os disparos são de cima para baixo, incomuns em um tiroteio sem helicóptero. Essa foi a única “perícia” de local. A polícia não fez uma. “Estamos esperando até hoje”, afirmou Luciano Santos. “É a impunidade: os PMs fazem isso porque não vai dar nada, que ninguém vai investigar. Acham que não vai dar nada, que ninguém investiga”, disse.

No dia da morte dos seis, o comandante do 1º Batalhão da PM, tenente-coronel Menezes, afirmou que “nenhum cidadão de bem foi ferido, nenhum PM, somente marginais da lei, que se opuseram à ação policial e que tiveram esse fim”.

Duas famílias de outros mortos não quiseram investigar as mortes, por medo, disse Maristela. “Uma moça, que perdeu o marido, até se mudou. Ela falou que um PM quase bateu nela e que tinha medo de morrer.”

O iG ligou para o assessor da Polícia Militar, mas não conseguiu contato.

    Leia tudo sobre: JosenildoexecuçãoPMmortelaudotirofuzilCoroa

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG