Exilados de uma guerra urbana

Em meio a tiroteio entre policiais e traficantes, casal abandona casa na Vila Cruzeiro com medo da violência

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

Ao primeiro sinal de que a troca de tiros entre policiais e traficantes na Vila Cruzeiro tinha dado uma trégua, a dona de casa Lilian Rosa de Barros, 25 anos, pegou o filho de um ano nos braços e deixou a favela. De vez. Ela esperou o marido chegar do trabalho e o convenceu a alugar um apartamento fora da favela. “Estou me mudando por causa do tiroteio”, dizia ela a passos apressados pela rua Paranapanema, onde está localizado o 16º BPM (Olaria).

O marido de Lilian, o ajudante de cozinha Lucas Leite Medeiros, 27 anos, contava que a decisão sairia caro à família, mas concordava que não havia opção. “Pagava R$ 180 pela casa na favela. O aluguel do apartamento no asfalto custa R$ 300, mas é a melhor decisão”.

Lilian, que ouvia o marido, acrescentou: “Aqui embaixo eu não corro o risco de ser pega como refém dos traficantes, nem de tiro atingir o meu filho”, disse a dona de casa, que não sabia como faria para pegar seus móveis no antigo endereço.

Minutos antes de o casal deixar a favela, o vendedor Carlos Oliveira tentava acalmar e proteger a família que caminhava pela rua Paranapanema bem no momento em que policiais e traficantes trocavam tiros. A mulher dele carregava no colo o filho de dois meses do casal, enquanto Carlos levava a filha mais velha, de 4 anos. “Eu só quero chegar em casa com segurança”, ele dizia a policiais que, em meio ao tiroteio, corriam para escoltar a família.

‘Estou tentando achar alguém para me tirar daqui’

No ponto de ônibus da rua Paranapanema, a depiladora Camilla Gomes, 22 anos, usava o celular freneticamente. “Estou tentando achar alguém para me tirar daqui”, dizia ela, que fora atender uma cliente na rua Jorge Martins, um dos acessos à Vila Cruzeiro. “Cheguei 10 horas e fiz o meu trabalho. Agora são cinco e meia e não consigo sair daqui. No ponto de táxi nenhum motorista quis me levar, liguei para um mototáxi e eles também não quiseram vir. Ônibus não passa. Não tem mais o que fazer”.

Em uma padaria próxima ao batalhão de polícia, o técnico de manutenção Geraldo Moraes, 46 anos, interrompeu a volta para casa com medo de bala perdida. Diante do movimento de policiais e militares da Marinha ele se resignava: “Moro no Rio há 16 anos e nunca imaginei ver a cidade assim. É uma guerra”, disse ele, que é mineiro.

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