Exército simula sequestro de jornalistas durante treinamento

Repórter relata último dia do curso de preparação para jornalistas em áreas de conflito

Bruna Fantti, iG Rio de Janeiro |

Marcelo Casal/EBC
Jornalistas jantam a ração para operações pouco antes do "sequestro"
Após uma série de atividades intensas, o último dia do Curso de Preparação de Jornalistas em Áreas de Conflito foi dedicado somente à prática e teve algumas surpresas.

Logo pela manhã, a chamada alvorada começou cedo, às 6h30, com um aula no Campos dos Afonsos, na zona oeste, onde a repórter aprendeu a embarcar e desembarcar em aeronaves sem o risco de perder a cabeça ou ser puxada pela hélice do helicóptero.

Depois, após acompanhar os bastidores da organização de uma operação de paraquedistas, almoçamos e tivemos uma aula bem puxada: na chamada cidadela da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ), que é uma favela cenográfica.

Nela, com o colete à prova de balas tipo 3, que suporta tiros de fuzil e pesa cerca de 4 quilos, os 31 jornalistas presentes correram pelos becos de edificações construídas em terreno plano. Aprendi a passar por janelas, a me esconder em postes e o que fazer quando o caminho se bifurcar.

Logo depois, fomos para o campo de Gericinó, área de treinamento militar, onde, com o colete, corri morro acima. Por cima, havia um colete com sensor eletrônico, que fala ao usuário quando ele é atingido por um tiro, a gravidade do ferimento e, se for o caso, a sua morte.

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Com o barulho de muitos tiros de festim, progredi o morro com dois fotógrafos – Marcelo Casal, da EBC, e Ernesto Caniço, do O Dia. Após correr metade com sucesso, nossa equipe foi metralhada por um soldado que“ressuscitou” - voltou ao treinamento, após ser morto, sem avisar. Não tivesse sido isso, teríamos cumprido a missão de chegar ao cume “com vida”. O equipamento, com uma voz mórbida, repetiu incessantemente o recado que o curso pretende nos ajudar a evitar na vida real: “você está morto”.

Eram 19h, quando a comida, chamada “ração para operações”, foi servida. Um saco compacto de plástico traz a refeição do dia: arroz, feijão, salsicha e suco ficam guardados em envelopes que, ao serem imersos em um pó com água, é criada uma reação química que os aquece.

Aquele era um “banquete” e um descanso merecido para a repórter que já havia emagrecido cerca de dois quilos nos treinamentos nas favelas plana e inclinada, carregando o colete pesado, sob um sol de 35°C, por cinco horas.

O cansaço fez com que a minha ingenuidade prevalecesse e acreditei no instrutor do curso, major Amilton Moleta, que convidou o grupo a caminhar por uma trilha no meio do mato para embarcar em viaturas que nos levariam para entrar à noite em uma favela real.

Sequestro: teste psicológico

Na trilha, conversando relaxados e espantando os mosquitos, não percebemos quando um grupo de “traficantes” se aproximou e atirou para o alto. Sob gritos e xingamentos, todos os jornalistas foram rendidos e tiveram seus equipamentos e celulares roubados.

Algemados com os braços para trás e com uma touca de lã que não permitia enxergar nada, fomos colocados em fila e direcionados para um local onde ocorria um baile funk.

Lá, a jornalista teve o seu emocional testado em uma casa. Além de escutar os chamados proibidões do funk no último volume, mesmo sabendo que se tratava de uma simulação, não foi fácil suportar os xingamentos e a ameaça constante de uma dopação com drogas que seria seguida de estupro.

Tudo isso, suportando o peso do colete, em pé, com o rosto colado na parede. Meus colegas de “cativeiro” eram os jornalistas Tasso Marcelo e Antônio Pita, do Estado de S.Paulo, que além de também manterem a calma, me confortaram. Em nenhum momento da suposta tortura, a dignidade dos presentes foi violada e toda a simulação foi acompanhada do comandante do CCOPAB, coronel Baganha, que, de tempos em tempos, nos perguntava se estava tudo bem.

Confesso que pedi o chamado “arrego” e que a touca fosse retirada da boca para poder respirar melhor. Não fui a única.

Após duas horas em pé, fui levada individualmente ao encontro do “chefe da favela”. Lá fui interrogada sentada em uma cadeira, olhando para o chão, e tive a ameaça da minha orelha ser cortada com um facão. Fiz  o que os instrutores ensinaram em uma situação como essa: dizer a verdade e tentar criar empatia. Consegui convencer o traficante a ligar para o chefe da redação onde trabalho para falar sobre a minha situação. Enquanto eles se decidiam, fui levada de volta para o quarto onde estava.

O fotógrafo Tasso Marcelo, que já foi paraquedista, conseguiu se soltar das algemas e protagonizou a cena hilária do sequestro: pulou pela janela, de barriga, e saiu se arrastando no meio do mato. Ao mesmo tempo, a polícia chegou e nos salvou.

“Infelizmente, a maioria mentiu para o chefe da favela no interrogatório, não criou empatia, e seria morta. Mas, todos se comportaram nos primeiros 45 minutos do seqüestro e mantiveram a calma. Isso é importante, pois é nesse tempo que o seqüestrador está mais tenso e decidindo o que fazer”, afirmou Moleta.

Enfim, já era quase meia-noite quando nos foi servido um cachorro-quente e fomos dormir, com a esperança de que aquela era a última surpresa do dia.

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