"Eu me sinto sozinho", diz pescador que perdeu nove parentes em tragédia

Um ano depois, deslizamentos ainda deixam marcas em Ilha Grande

Anderson Dezan, enviado especial a Angra dos Reis |

George Magaraia
"Não tem como descansar", diz Ademir Pereira em seu barco, ao lado do cenário da tragédia
Sempre que nuvens negras anunciando uma tempestade tomam conta do céu da praia do Bananal, em Ilha Grande, no sul fluminense, o pescador Ademir Pereira, de 39 anos, pega o barco junto com a mulher e a filha de dez anos e parte para sua outra casa, em Angra dos Reis. A atitude que pode ser considerada por muitos como precipitada guarda consigo marcas de um trauma profundo. Na virada de 2009 para 2010, enquanto milhares de pessoas comemoravam a chegada de mais um ano, Ademir resgatava parentes em meio a escombros após o deslizamento de terra que destruiu sete casas e a pousada Sankay na praia do Bananal.

“Quando o tempo piora, vou embora. Estou aqui porque ainda possuo algumas coisas, como meu barco, mas quero me mudar de vez. Eu me sinto sozinho. O que precisava, no caso minha família, não tenho mais”, lamenta o pescador, que perdeu nove familiares na tragédia, entre eles, o pai, Osmendio Arlindo Pereira. “Não tem como descansar. Fico sempre preocupado com a chuva e pensando se vai acontecer tudo novamente”.

Quase um ano depois, a tragédia que deixou 33 mortos na praia do Bananal ainda deixa fortes marcas no local – assim como em Ademir. Nas ruínas da pousada Sankay ainda é possível encontrar vestígios da festa de réveillon que acontecia na outrora hospedagem de luxo no dia incidente. Taças quebradas, colares havaianos e garrafas de bebidas em meio à montanha de terra que desceu da encosta localizada atrás dão um tom mórbido ao ambiente. Cruzes fincadas no morro, acima da pousada, lembram as três mortes ocorridas no local, entre elas a da estudante Yumi Faraci, de 18 anos, filha dos donos da hospedagem.

George Magaraia
Ruínas da pousada Sankay ainda estão lá. Demolição depende de impasse jurídico
A uma distância de cerca de 50 metros das ruínas, outras marcas do deslizamento ainda fazem parte do dia-a-dia da praia do Bananal. No local onde ficavam as setes casas soterradas, há uma imensa montanha de terra, já coberta com vegetação. Enormes pedras que desceram com a queda da encosta foram colocadas para separar o mar dos entulhos. A faixa de areia que em outros tempos atraía centenas de turistas desapareceu e permanece apenas na lembrança dos moradores.

“Essa área era muito bonita e agora está totalmente abandonada, largada. A única que trabalha aqui é a natureza. Os agentes das obras tinham que voltar e terminar o que foi deixado pela metade. Eles prometeram aplainar o terreno, colocar grama, mas tudo ficou parado, deixaram para trás”, relata o zelador Jorge Luiz Conceição, de 45 anos.

De acordo com o prefeito de Angra dos Reis, Tuca Jordão, os trabalhos na praia do Bananal, incluindo a demolição das ruínas da Sankay, tiveram que ser paralisados por força judicial. O dono de uma casa de veraneio – localizada entre a montanha de terra e a antiga Sankay – não aceitou a indenização oferecida e entrou com uma ação na Justiça para barrar a demolição do imóvel.

“É um problema crônico. O morador acha que o morro não pode cair mais. Chegamos a demolir algumas casas e começamos a colocar as pedras. A obra está parada não porque o prefeito quer e, sim, porque o proprietário entrou com uma ação judicial”, justifica Jordão.

Dono de uma pousada no local, Kioshi Nakamashi, de 51 anos, afirma que o impasse jurídico afeta ainda mais o já abalado movimento na região. Segundo ele, não é rara a ida de turistas à praia não para conferir as belezas naturais do local, e sim onde houve o deslizamento. “Do jeito que está serve de turismo mórbido. Nos finais de semana e feriados, param diversas lanchas e as pessoas ficam tirando fotos. Isso não precisa ser mostrado. Ao invés de estarem tirando fotos de cenários bonitos, da água limpa, eles estão retratando a tragédia”, finaliza o empresário.

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