"Estamos nas mãos de Deus", lamenta ex-moradora do Bumba

Desabrigados de Niterói voltam para casas condenadas por falta de aluguel social

Sabrina Lorenzi, iG Rio de Janeiro |

Enquanto limpa o peixe pescado pelo pai, a menina P.M.S, 12 anos, conta por que a família voltou a morar na casa interditada pela Defesa Civil, no Morro do Bumba, em Niterói (RJ). É a segunda vez que ela, pai, mãe e dois irmãos têm de retornar ao lar localizado a apenas um metro de um barranco, por falta de opção de moradia. Em abril do ano passado, as chuvas fortes que levaram embora todo o quintal fizeram a família ir para um abrigo, em uma escola próxima.

Com o retorno das aulas, em maio, o abrigo foi fechado e eles, assim como outros moradores do Bumba, voltaram pela primeira vez para a casa condenada. Quando finalmente a mãe de P.M.S recebeu o aluguel social, a família se mudou para uma casa no município vizinho de São Gonçalo. Mas não durou nem sete meses. O aluguel social parou de ser pago, provocando o despejo da família da nova residência e o retorno ao lar perigoso pela segunda vez.

“Ninguém sabe nos responder se teremos aluguel social ou moradia. Estamos nas mãos de Deus”, lamenta a tia da menina, Márcia Regina de Oliveira, que também cogita voltar para sua casa condenada, no mesmo terreno acidentado. Ela conseguiu mudar para um imóvel em São Gonçalo, onde conta estar morando ainda. “Mas o dono já me deu prazo para sair, se eu não conseguir o dinheiro para pagar o aluguel”, conta. “A Prefeitura de Niterói ficou três meses sem pagar”, conta.

A reportagem do iG encontrou Márcia visitando sua casa antiga. O chão parece oco em um dos quatro cômodos . “Os técnicos que vieram interditar a casa disseram que não tem nada aí embaixo, a terra desceu toda”.

Desempregada, Márcia alterna bicos como faxineira com os cuidados de mãe. Todos os dias, ela sai de São Gonçalo para levar o filho Miguel à escola, em Niterói, num trajeto de 20 km. O menino tem passagem de ônibus garantida pelo governo estadual, mas a mãe não. “Deus me dá força para cuidar dele; é um filho só para cuidar. Mas imagine se fossem vários, o que eu faria?”, indaga.

Sem emprego nem marido, Kátia Cilene Barbosa e os três filhos já habitam a terceira casa condenada no Morro do Bumba desde a tragédia das chuvas. Ela conta que até hoje, um ano após o episódio, não recebeu nem uma parcela do aluguel social. Primeiro, ela tentou morar na própria casa, mas teria sido impedida pela Defesa Civil. Foi morar então na casa, igualmente interditada, cedida por uma amiga que se mudou para um local mais seguro, conforme relatou o iG em reportagem publicada em outubro.
Kátia acabou se mudando também da casa cedida pela amiga, porque, segundo conta, as telhas foram retiradas da casa por pessoas que queriam aproveitá-las em outro imóvel. O terceiro imóvel interditado para onde ela e os filhos se mudaram fica a poucos metros da casa onde estavam anteriormente.

Na noite do dia 7 de abril, o solo cedeu e uma cratera se abriu onde residiam pelo menos 50 famílias no Morro do Bumba, deixando 48 mortos e 7 desaparecidos. A área abrigou um lixão entre as décadas de 70 e 80 e as casas foram construídas em cima, em local totalmente vulnerável a desabamentos. Para evitar que a população volte a ocupar a região, o governo do Estado construiu uma praça sobre rampas irregulares. Além das casas que caíram, cerca de 40 foram demolidas.

De acordo com o governo do Estado do Rio, 180 imóveis estão em construção para abrigar os moradores que perderam suas casas em Niterói. A obra do Governo do Estado está localizada no bairro Viçoso Jardim, próximo ao Bumba, e tem prazo de conclusão previsto para junho. Não apenas no Bumba, mas em vários outros pontos da cidade ocorreram deslizamentos de terra que deixaram cerca de 11 mil famílias desabrigadas - a maioria não recebeu aluguel social .

Em abril de 2010, o governo entregou 93 apartamentos, localizados na Estrada Velha de Maricá, para desabrigados do Bumba. A preferência foi para moradores que perderam parentes. Foram investidos mais de R$ 4,6 milhões na compra das moradias, inseridas no programa Minha Casa, Minha Vida, segundo o governo estadual.

Os recursos do aluguel social têm partido dos cofres do governo estadual, embora a atribuição seja da Prefeitura de Niterói. O Estado tem disponibilizado os recursos para a prefeitura distribuir. Questionada sobre o atraso do pagamento, a Prefeitura de Niterói não soube até o fechamento desta edição informar sobre o caso específico de cada entrevistado do iG. Mas antecipa que alguns pagamentos foram cortados por falta de documentação adequada.

“2.386 pessoas estavam aptas a receber a nona e última parcela do Aluguel Social referente ao primeiro convênio assinado com o Governo do Estado, cujo pagamento foi efetuado na quadra da Viradouro entre quinta e sexta-feira. As 814 famílias que não receberem o Aluguel Social estavam com pendência na documentação (a maioria delas deve comprovante de residência). Elas serão chamadas na próxima semana para serem recadastradas pelo Município e pelo Governo do Estado, e regularizando suas situações estarão aptas a receberem no próximo pagamento a parcela pendente”, afirma a assessoria de imprensa da Prefeitura de Niterói.

    Leia tudo sobre: Morro do Bumbachuvastragédialixãoum anoabril

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG