'Esse episódio me fez outra pessoa', diz mulher de juiz baleado

Sunny aguarda a recuperação da filha de 8 anos, atingida por policiais, e diz que 'é preciso aproveitar ao lado de quem se ama'

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

null"As lembranças voltam a todo momento, são cenas terríveis. Ouço até o barulho dos tiros." Vítima de uma ação policial que deixou seu marido, filha e enteado baleados no último dia 2, a farmacêutica Sunny Lucas Mariano, 28, diz que se esforça para extrair "coisas boas” da tragédia e aguentar a espera do dia em que Nathália Lucas Cukier, 8, receberá alta do hospital. "Ficou uma lição: é preciso aproveitar cada momento ao lado de quem a gente ama. Esse episódio me fez outra pessoa", ela diz.

O conforto das "coisas boas" vem do marido, o juiz federal Marcelo Alexandrino da Costa Santos, 39, em casa desde o último dia 11, e do enteado Diego Lopez da Costa Santos, 11, que recebeu alta hospitalar dia 14. "A Sunny foi uma rocha. Ao mesmo tempo em que via todos baleados, ela conseguiu manter a calma e passar segurança para nós" diz Marcelo. "A coragem dele foi o diferencial. Era tanto tiro, tanto tiro, que se ele parasse ali ninguém estaria vivo", devolve Sunny, que só conversa sobre o episódio de mãos dadas com o marido.

Aos poucos, a família tenta retomar a rotina. Marcelo, que teve o pulmão atingido por tiros de fuzil, caminha com dificuldade e sente dores quando se deita. Diego mistura momentos de choro com a empolgação característica dos pré-adolescentes. Às vezes esquece das perfurações que sofreu nos dois pulmões, no fígado, e no peritônio ( membrana que reveste a cavidade abdominal ), e tenta jogar ping-pong com o irmão mais velho, Marcos Vinícius, 23. Sunny não sai do Centro Pediátrico da Lagoa, na zona sul do Rio, onde acompanha a recuperação da filha. “Eu praticamento moro no hospital. Só passo em casa para ver como o Marcelo e o Diego estão, e pegar algumas roupas”, ela diz.

No dia do crime, a família havia saído da Tijuca, bairro onde mora na zona norte do Rio, para uma festa em Jacarepaguá, na zona oeste, quando foi atingida pelos disparos feitos por policiais civis que faziam, à paisana, uma blitz na Auto-estrada Grajaú-Jacarepaguá.

Léo Ramos
Em casa, Sunny comemora a recuperação do marido, Marcelo, e do enteado Diego. O filho mais velho do juiz, Marcos, não sai do lado do pai e do irmão
"A gente estava brincando de falar alemão, porque o Diego estuda alemão. De repente, eu vi três homens de preto, armados, e um carro de passeio no meio da pista. Pensei imediatamente que era um assalto", ela relembra. "Eu pedi para o meu marido voltar, as crianças entraram em desespero. Até que teve um momento em que foi possível dar a ré e o rapaz que estava mais próximo veio em nossa direção. Falei ‘Marcelo, ele está vindo; está apontando para a gente; ele vai atirar’, e vieram tiros sucessivos". 

"Veio aquele pavor. Só escutei meu marido falar ‘fui baleado'"

Sunny descreve que após os disparos Marcelo conseguiu seguir na contramão. "Veio aquele pavor. Só escutei meu marido falar ‘fui baleado’, e minha mãe, que estava no carro, ‘minha neta também’. Nem sei o que senti."

Apesar de ferido, o juiz --esotérico cristão da ordem Rosa Cruz-- lembra: "programei minha mente para chegar até o hospital. Quando vi o muro da unidade, perdi as forças e bati. A sensação de ser atingido é a de levar um soco seco. Não se sente a pele rasgar ou queimar, é como um soco bem dado. Te derruba”.

Sunny lembra que esse foi um dos momentos mais difíceis que precisou enfrentar. “Saí do carro e peguei minha filha nos braços. Ela usava um vestido todo branquinho, ficou coberto de sangue. Eu pegava a mãozinha dela e perguntava ‘filha, está doendo?’, e ela ‘um pouco, mamãe’. Olhava a boquinha dela roxa, a mão branca. Tive medo de perdê-la”, relata.

Depois de deitar Nathália na maca, Sunny voltou ao carro para retirar Diego, que estava desmaiado, e o marido. “O Marcelo estava consciente e levou mais tempo para ser retirado do veículo porque ficou preso com o airbag. O Diego foi logo levado para o centro cirúrgico, minha filha levou mais tempo para ser operada, desmaiei várias vezes de desespero”.

Léo Ramos
No quarto das crianças, Sunny ajeita um dos brinquedos preferidos de Nathália; a menina deve receber alta nos próximos dias

De acordo com Sunny, Nathália, que foi atingida no pulmão, no estômago, no pâncreas e no peritônio, sofreu duas paradas respiratórias. “Os minutos passavam e ela precisava ficar ali para tirar raios-X e ver o trajeto da bala. Aqueles minutos foram angustiantes”, lembra. “Eu tremia muito. A ponto de ter que colocar um protetor na boca para eu não me morder”.

Duas semanas depois da ação, as palavras de Sunny são de eperança. “A Nathália está bem, aparentemente coradinha, brinca, sorri, caminha”. Mas ainda serão necessários alguns dias para que a família fique toda reunida. “Há um problema no pulmão, a última ultrassonografia mostrou um edema, extravasamento de líquido, ela tem que ficar mais no hospital. Espero que até a segunda-feira (18) isso se resolva e ela esteja aqui com a gente”. 

'Falo para o Diego que nossos amigos policiais estão nos protegendo'

Desde que chegou em casa, há três dias, Diego tenta levar uma rotina normal. O menino, lutador de jiu-jitsu, toca violão e, por mais difícil que possa parecer, joga vídeo game de... perseguição policial. “Eu tento chamar a atenção dele para outra coisa, outra brincadeira”, diz Marcelo.  

“Ele está traumatizado, não quer sair de casa. Quando precisamos ir à rua eu digo que um amigo nosso, policial civil que faz trabalho aéreo, está num helicóptero silencioso fazendo nossa escolta. Ligo para meu amigo, e peço para ele confirmar a história com o Diego”, conta o juiz, ressaltando que a família terá acompanhamento psicológico e irá processar o Estado. 

Segundo Marcelo, o filho caçula só consegue dormir entre ele e o irmão mais velho. “Ontem à noite ele chorou. Virou para mim e disse ‘papai, se você tivesse morrido eu teria me matado’. No hospital, Nathália também tenta enfrentar seus medos. “Ela diz que quando deixar o hospital só sairá de casa para ir à escola”, diz Sunny.

Para contornar todos os temores e celebrar “o milagre” da família, Sunny já faz planos para levantar o astral das crianças e deixar o incidente no passado. “Quando os três estiverem melhores a gente vai fazer uma festa. Com bastante doce, bastante criança, muita música, muita brincadeira. Eu faço questão”, ela afirma. “Tem que comemorar, festejar, porque foi um milagre. A gente nunca sabe o que vai acontecer no próximo segundo, por isso não se pode desperdiçar nada.”

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