Especialista estranha metodologia e posição do Rio em índice de saúde

Mestre em Saúde Coletiva critica adoção de proporção de partos normais, e não mortalidade materna, como critério de qualidade de serviço

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Vivian Fernandez
Fachada do Hospital Geral de Bonsucesso, no Rio, capital mais mal avaliada pelo índice
A metodologia adotada pelo Ministério da Saúde e a última colocação do Rio de Janeiro entre as capitais da pesquisa do SUS chamaram a atenção do mestre em Saúde Coletiva pela Uerj Raphael Câmara Parente, doutor em Medicina pela Unifesp. A posição do Rio também surpreendeu o médico Luiz Sérgio Verbicaro, ex-diretor do Hospital Estadual Getúlio Vargas, para quem “é estranha uma avaliação tão negativa no contexto nacional”.

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Ginecologista do Hospital Moncorvo Filho, da UFRJ, e do Ministério da Saúde, Câmara atua há dez anos em hospitais públicos e reconhece os muitos problemas da rede na capital fluminense, mas estranha que o Rio tenha ficado em último na lista, atrás até de municípios notórios por carências na Saúde, como Maceió (AL) e Belém (PA).

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Na opinião de Câmara, a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco) e o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), têm posição consolidada contrária aos partos feitos por cesariana, à tecnologia na saúde e à medicalização em excesso. De acordo com ele, essa posição parece se refletir em critérios adotados – como a quantidade de partos normais – e podem prejudicar a avaliação com precisão do sistema de saúde.

Proporção de partos normais é indicador de efetividade

Vivian Fernandez
Atendimento em 2h30 no Hospital Municipal Salgado Filho: tempo curto para os padrões da saúde pública
A proporção de partos normais é o primeiro dos três “indicadores de efetividade” em “atenção Hospitalar de Média e Alta Complexidade e Urgência e Emergência”, ao lado de proporção de óbitos de menores de 15 anos, nas internações de UTI, e a proporção de óbitos nas internações por infarto agudo do miocárdio.

“Chama a atenção terem colocado a proporção de partos normais como um critério de peso. Sabe-se que cidades com melhores condições financeiras têm maiores taxas de cesarianas. A mortalidade materna me pareceria (critério) mais apropriado, mas, curiosamente o resultado dos partos não é avaliado e sim o procedimento. Por essa lógica, a Coreia do Sul, com taxas de cesarianas iguais às do Brasil e a menor mortalidade materna do mundo, teria avaliação negativa”, afirmou, ponderando que é necessária uma avaliação mais minuciosa dos critérios.

Segundo o ginecologista, o Rio é notório por ser um lugar com maiores proporções de partos cesariana. A cesariana é um procedimento que necessita de anestesista, equipe cirúrgica, o que demanda hospitais com infraestrutura adequada para isso. Hospitais menores, em outros centros, podem ter 100% de partos normais, o que não seria indicador de qualidade, diz.

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Câmara lembrou que a violência do Rio e o alto número de baleados podem afetar outro item analisado, a proporção de óbitos de menores de 15 anos, nas internações de UTI. O médico disse ainda que os hospitais do Rio – que concentra a maior rede federal no País, herança dos tempos de capital – recebem alta demanda de municípios vizinhos da Baixada Fluminense, com serviço deficiente, e que há alta incidência de casos de tuberculose e hanseníase.

“Vários fatores podem ter contribuído, como a ainda baixa cobertura de saúde da família – embora esteja melhorando na atual gestão municipal –, a precarização dos vínculos dos médicos do Estado e da prefeitura, a falta de capacitação periódica dos profissionais de saúde, chefias por vezes escolhidas por critérios políticos. Ainda assim, chama atenção a cidade do Rio ser a pior do país”, afirma.

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