Escola de samba de policiais, Renascer estreia em reduto da contravenção

Presidente Antonio Carlos Salomão é comissário da Civil. Agentes e PMs frequentam ensaios da agremiação, que chega à elite em 2012

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

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Salomão recebe livro do artista Romero Britto, que será tema do enredo da Renascer este ano
Escola de samba de policiais, a Renascer de Jacarepaguá estreia este ano no Grupo Especial do carnaval do Rio, controlado pela Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), reduto da contravenção fluminense .

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Romero Britto com a rainha de bateria Patrícia Nery; ao fundo, o presidente Salomão
Enquanto muitas integrantes da Liesa têm presidentes e patronos ligados ao jogo do bicho e às máquinas de caça-níqueis, o dirigente máximo da Renascer é o comissário de Polícia Civil Antonio Carlos Salomão, 65 anos, lotado na Divisão de Homicídios.

Seu braço-direito na agremiação durante muito tempo foi o também policial civil Fernando Cezar Jorge Barbosa, do Conselho Fiscal da escola até três anos atrás.

PM vê ambiente "familiar", sem contravenção

Esse ambiente de samba considerado mais “familiar”, na definição de um PM ouvido pelo iG , atraiu policiais civis e militares, que se tornaram frequentadores assíduos de ensaios na quadra no Largo do Tanque (sub-bairro de Jacarepaguá) e dos desfiles na Avenida Marquês de Sapucaí. Hoje a Renascer é uma escola identificada com a polícia.

“Todo mundo gosta de samba e queria um lugar com pessoas de boa índole, onde não se ficasse exposto ao lado de contraventores ou traficantes”, afirmou um oficial superior da PM. A frequência na quadra vai de inspetores, cabos e soldados a delegados de polícia e oficiais da PM do Rio.

O bairro na zona oeste do Rio onde fica a Renascer - fundada em 1992, oriunda do bloco Bafo do Bode -,  tem forte presença de PMs e de milícias.  Em 2007, o cabo PM Jorsan Machado, miliciano, foi assassinado na saída da escola de samba. Não há registro, porém, de influência de milicianos na agremiação na CPI das Milícias da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio).

Carreira de Salomão tem prêmios e investigação por enriquecimento ilícito

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Salomão em evento da Renascer
A carreira de Salomão, matrícula nº 177.422-3 de 1978 na Polícia Civil, teve momentos de prestígio. Em 1996, ele recebeu gratificação por ter "participado de operação que culminou com a prisão de perigosos marginais da lei".

No ano seguinte, ganhou do então governador Marcello Alencar "uma gratificação de encargos especiais, por mérito especial", de 100%, "por ter localizado cativeiro, libertado as vítimas e prendido os seqüestradores, demonstrando seriedade e competência nas ações desenvolvidas para alcançar o êxito da missão".

Em 2001, Salomão recebeu uma moção de louvor na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, oferecida justamente por um deputado ex-policial, Sivuca, um "homem de ouro" da Polícia Civil, conhecido pela frase "bandido bom é bandido morto".

Em 2006, porém, a Corregedoria da Polícia Civil instaurou sindicância para apurar a participação de Salomão, Fernando Cezar e de outros policiais em escolas de samba. O então corregedor, delegado Paulo Passos, começou a investigar a participação ativa de agentes e delegados em agremiações, por conta da forte influência de bicheiros e da Liesa, em meio considerado inadequado para policiais.

A apuração continua em curso, segundo a assessoria de imprensa da Polícia Civil, ainda sem conclusão.

Salomão e Fernando Cezar também foram investigados – junto com o ex-chefe de Polícia Rafik Louzada – por suspeita de improbidade administrativa e enriquecimento ilícito. O caso foi arquivado.

Esse arquivamento, porém, virou objeto de uma ação civil pública. O ex-subprocurador-geral de Justiça do Estado do Rio Élio Fischberg é acusado de ter falsificado assinaturas de membros do Ministério Público para acabar com a investigação, que atingia Rafik Louzada, além de Salomão. Em junho de 2011, o Órgão Especial do Colégio de Procuradores de Justiça do Rio autorizou, por unanimidade, a abertura da ação, que pode resultar na perda do cargo de Fischberg.

Procurado pelo iG , Salomão preferiu não dar entrevista para a reportagem.

Escolas de Samba têm histórico de influência do jogo do bicho

Agência O Globo
Aníz Abrahão David e Capitão Guimarães, em 1993, em julgamento que os condenaria
A história das escolas de samba do Rio vem desde os anos 1980 atrelada ao jogo do bicho. A Liesa tem longa tradição de domínio do jogo do bicho, desde sua fundação, em 1984. De acordo com sua página oficial na internet, a criação da liga surgiu “de uma conversa entre o então presidente da Unidos de Vila Isabel, Ailton Guimarães Jorge, com o amigo Castor de Andrade, presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel”.

O patrono da Mocidade e bicheiro “dono” de boa parte da zona oeste do Rio, Castor de Andrade, morto em 1997, foi o primeiro presidente da Liesa; Capitão Guimarães, presidente da Liesa por 12 anos – seis mandatos – e ainda hoje influente na agremiação, domina a contravenção na área da Leopoldina.

Guimarães é atualmente administrador da Cidade do Samba e um dos três integrantes do Conselho Superior da Liesa, ao lado de Luiz Pacheco Drummond, o Luizinho Drummond (presidente da Imperatriz Leopoldinense), e de Aniz Abrahão David, o Anísio , integrantes da cúpula do jogo do bicho no Rio.

Operação da Polícia Civil tira Anísio, Luizinho e Helinho do Carnaval 2012

Presidente de honra e patrono da Beija-Flor de Nilópolis – atual campeã e líder disparada do ranking da Liesa (com seis títulos dos últimos dez) –, Anísio foi preso em janeiro pela Polícia Civil na Operação Dedo de Deus , indiciado sob suspeita de atuar na contravenção, e está internado no hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo.

Thiago Lontra/Agência O Globo
Anísio foi preso em Copacabana pela operação Dedo de Deus
Luizinho Drummond também tem prisão decretada pela Justiça desde dezembro e está foragido, assim como Hélio Ribeiro (presidente da Acadêmicos do Grande Rio) . Yuri Reis Soares, filho do presidente de honra da Grande Rio, Jaider Soares, também foi preso.

Wilson Vieira Alves, o Moisés, ex-presidente da Vila Isabel, foi condenado a 23 anos de prisão, em dezembro, por contrabando, formação de quadrilha e corrupção ativa – ele foi preso em abril de 2010, pela Operação Alvará, da Polícia Federal. Mas manteve o poder na Vila Isabel mesmo estando no cárcere: seu filho Wilson Alves hoje dirige a escola.

A Portela tem influência do bicheiro José Caruzzo Escafura, o Piruinha , denunciado por contrabando, lavagem de dinheiro, e teve os bens sequestrados pela Justiça, na operação da PF que desarticulou quadrilha com participação da máfia israelense . Ele pagou fiança de R$ 100 mil para não ser preso, e seu filho Haylton Escafura está foragido desde outubro.

É nesse ambiente teoricamente “adverso” que os policiais da Renascer chegam agora, em 2012.

Ascensão rápida

Agência O Globo
Dinheiro apreendido na casa do tio de Helinho da Grande Rio, teve que ser levado em carrinho para a delegacia

A Renascer teve ascensão rápida, passando do Grupo B ao Especial - três divisões - em apenas oito anos. Em 2004, foi vice-campeã do Grupo B (terceira divisão) e chegou no ano seguinte ao Grupo A. Em 2009, estreou no Grupo de Acesso já como vice-campeã, com o festejado carnavalesco Paulo Barros; em 2010, ficou em oitavo, escapando por pouco do rebaixamento.

Em 2011, com o enredo “Águas de Março” e o carnavalesco Edson Pereira foi a campeã, em um desfile com pontuação quase perfeita: 299,9 pontos de 300. Superou favoritas tradicionais como Viradouro, Estácio de Sá, Império Serrano e Caprichosos de Pilares, e subiu à elite do samba.

Neste carnaval, Paulo Barros deixa a escola, e o carnavalesco Édson Pereira será o responsável pelo enredo "Romero Britto: O Artista da Alegria dá o Tom na Folia".

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Salomão, com Romero Britto, homenageado na estreia da Renascer no Grupo Especial, em 2012

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