Empresários de Friburgo criticam demora na liberação de recursos após enchentes

Achávamos óbvio que essa verba chegasse rápido, mas até agora não vimos a cor do dinheiro

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Empresas de Nova Friburgo arrasadas pelas enchentes de 12 de janeiro estão criticando a demora na liberação dos recursos prometidos pelo governo para ajudar a recuperar seus negócios. O presidente do Sindicato das Indústrias de Metal Mecânico (Sindimetal) de Nova Friburgo, Claudio Tangari, diz que a "burocracia" está impedindo que a linha de crédito de R$ 400 milhões anunciada na semana passada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) chegue às mãos de empresários que tiveram prejuízos de até R$ 300 milhões.

"Achávamos óbvio que essa verba chegasse rápido, mas até agora não vimos a cor do dinheiro", afirmou Tangari à BBC Brasil.

Ele alega que a demora na liberação do dinheiro, aliada às exigências impostas para o acesso ao crédito, vão atrasar os planos de recuperação das empresas.

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Fábrica Couthe, de artigos de couro, que emprega cerca de 140 funcionários em Nova Friburgo
Entre os documentos que devem ser apresentados aos agentes financeiros credenciados ao BNDES estão uma licença de operação, além de uma série de certidões.

"Algumas firmas perderam tudo com a enchente. Vai demorar uma eternidade para conseguir a segunda via desses documentos", critica Tangari.

"Friburgo está em estado de calamidade pública. Não está na hora de se operar pelas formas tradicionais de liberação de empréstimos. A lei tem que ser relaxada para que o dinheiro saia logo e as empresas possam honrar com seus compromissos", afirma o presidente do Sindimetal.

Dispensa

O BNDES informou que vai dispensar as empresas de fazer o registro do contrato de financiamento em cartório, o que significa uma despesa a menos.

Para que os R$ 400 milhões prometidos pelo Programa BNDES Emergencial de Reconstrução - Rio de Janeiro (BNDES PER Rio de Janeiro) sejam disponibilizados é necessária a publicação de uma circular do banco orientando os agentes financeiros credenciados sobre como proceder na concessão de financiamento.

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Fábrica Couthe após as enchentes; empresária considera que prejuízos chegam a R$ 1,7 milhão

Além disso, o Ministério da Fazenda tem de emitir uma portaria confirmando as condições de crédito. Por meio de sua assessoria de imprensa, o BNDES informou que a publicação da circular, marcada para quinta-feira, foi adiada para esta sexta-feira. Já o Ministério da Fazenda não informou quando a portaria será emitida.

De acordo com as regras, cada empresa terá direito a até R$ 100 mil para repor capital de giro e R$ 1 milhão para compra de máquinas e equipamentos. Os juros são fixos em 5,5% ao ano e o prazo de pagamento é de 120 meses, com dois anos de carência.

I ndústrias danificadas 

Segundo levantamento feito pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), 70% das indústrias de Friburgo foram fortemente danificadas por inundações ou deslizamentos.

Só os prejuízos do polo metal-mecânico da cidade, que responde por 25% da produção nacional, chega a R$ 100 milhões.

A dona da fábrica de artigos de couro Couthe, invadida pela enchente, esperava que o dinheiro fosse liberado no início desta semana.

Luciana Luccas conta que "saiu aliviada" da reunião, na sexta-feira passada, em que os empresários friburguenses souberam que o BNDES disponibilizaria linhas de financiamento para os municípios fluminenses atingidos pela enchente. "A mensagem das autoridades estaduais foi de que teríamos o dinheiro em poucos dias. Até agora, nada", diz Luccas.

Prejuízos 

Procurado pela BBC Brasil, o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Julio Bueno, não estava disponível para entrevista.

Na fábrica de Luciana, os prejuízos são enormes. Ela conta que perdeu toda a matéria-prima e o estoque de mais de 4 mil bolsas, das quais 3 mil tinham a Rússia como destino no final deste mês.

"Com o meu fluxo de caixa atual posso ou pagar os funcionários por dois meses ou pagar os fornecedores. Fazer os dois é impossível", diz a empresária. Ela pretende pedir empréstimo de R$ 1 milhão ao BNDES e critica o teto de R$ 100 mil estipulado para repor capital de giro.

"Com R$ 100 mil não consigo nem cobrir a minha folha de pagamento", diz a empresária, que emprega cerca de 140 funcionários.

Luciana diz que nas primeiras semanas que se seguiram à tragédia, clientes e fornecedores foram muito compreensivos, mas que agora começam a "colocar pressão". "Eles ouvem notícias dos financiamentos, mas não sabem que até agora não temos nada na mão", diz ela.

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