Marcelo Mattoso de Almeida estava com a habilitação vencida, segundo site da Anac, e teria usado licença de outro piloto

O trajeto de helicóptero entre Porto Seguro e o Jacumã Ocean Resort, no litoral sul da Bahia na última sexta-feira (17), não foi o primeiro do empresário Marcelo Mattoso de Almeida , de 48 anos, naquele dia. Mais cedo, ele já havia pilotado a aeronave e feito uma viagem maior. De acordo com funcionários do heliponto da Lagoa, localizada na zona sul do Rio, ele levantou voo no local no início da tarde de sexta-feira tendo como destino Porto Seguro.

Os funcionários não souberam informar se o empresário viajou acompanhado.Tecnicamente, o trajeto entre essas duas cidades é considerado sem riscos. Mas, segundo pilotos experientes de helicóptero ouvidos pelo iG , a viagem é longa, cansativa e geralmente obriga a realização de paradas para reabastecimento.

Segundo os especialistas, a distância entre Rio e Porto Seguro é de aproximadamente 400 milhas náuticas, o que representaria uma viagem de cerca de quatro horas para a aeronave utilizada - um helicóptero Esquilo AS 350 B2.

A empresa Helibrás, que fabrica modelos como o envolvido no acidente, informa que a aeronave em questão tem autonomia de até quatro horas no ar sem reabastecimento. Os pilotos, entretanto, contestam a informação e afirmam que, na prática, o helicóptero percorre até 300 milhas náuticas sem paradas.

A distância, no entanto, não foi um problema para Marcelo. De acordo com dados que constam no site da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o empresário tinha habilitação para pilotar o helicóptero modelo Esquilo AS 350 B2, mas ela estava vencida há seis anos. A informação foi antecipada no domingo pelo jornal carioca “O Dia”.

Em consulta no site da Anac, é possível checar que habilitação de Marcelo estava vencida
Reprodução
Em consulta no site da Anac, é possível checar que habilitação de Marcelo estava vencida
Helicóptero novo

A aeronave do empresário ficava guardada em um hangar no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste do Rio. Um piloto freelancer contratado pelo empresário levou o helicóptero até a Lagoa, onde a entregou a Marcelo. A aeronave, segundo a direção do hangar, ficava guardada no local desde 2009 e era considerada nova, com aproximadamente 200 horas de voo.

Para decolar e pousar no heliponto da Lagoa é feito um cadastro prévio de aeronaves e pilotos. Nesse momento, são apresentados todos os documentos da Anac. Se tudo estiver dentro da normalidade, eles são autorizados a usar o local. Funcionários da Secretaria Municipal de Transportes do Rio fazem apenas um controle de chegada e saída das aeronaves.

Dados que constam no site da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostram que o helicóptero de Marcelo – fabricado pela empresa Eurocopter France – estava com as validades do Certificado de Aeronavegabilidade (CA) e da Inspeção Anual em Manutenção (IAM) em dia.

Plano de voo

Na regra geral, antes de decolar, os pilotos têm que preencher um formulário traçando o plano de voo e fornecer seu código de cadastro na Anac aos agentes do Departamento de Controle Aéreo (Decea) situados na sala de tráfego da localidade. 

No formulário de plano de voo, o piloto fornece dados como o local de decolagem e de destino, alternativas de pouso em caso de imprevistos e tempo estimado de rota. Com o código de cadastro na Anac, ligado ao banco de dados da agência reguladora, os agentes checam as validades de habilitações e exames médicos.

Se o piloto não apresentar irregularidades no sistema conhecido como “Decolagem Certa”, ele pode levantar voo. Caso contrário, o piloto deve ser impedido até mesmo com o apoio de forças policiais, se for necessário. No heliponto da Lagoa, não há agentes do Decea e o plano de voo e as autorizações são feitas por rádio.

Equipes do Segundo Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (SERIPA 2), com sede em Recife (PE), investigam se Marcelo informou o código da Anac de outro piloto por rádio para ter seu voo autorizado na decolagem do Rio para Porto Seguro e da cidade baiana para o resort no qual era sócio, quando aconteceu o acidente.

Até o momento, a Aeronáutica não confirmou a informação. Em nota, a Força informou que o inquérito deve ocorrer de forma reservada até a conclusão final. Como o código de Marcelo estava vencido, há suspeita de que ele tenha informado o documento do piloto Felipe Calvino Gomes, que estava com sua habilitação em dia e costumava levar o empresário e sua família na aeronave para Angra dos Reis, no litoral sul do Estado do Rio.

Irregularidades

A área de consulta do site da Anac mostra que Marcelo teve sua licença de piloto privado de helicóptero expedida em julho de 2000. Ele era habilitado a pilotar quatro tipos de helicópteros de pequeno porte. Todas as autorizações, no entanto, estavam vencidas .

O certificado de capacidade física, emitido pelo Centro de Medicina Aeroespacial (Cemal) – órgão ligado à Aeronáutica – também havia expirado em agosto de 2006. O documento é exigido para qualquer tripulante de aeronave e emitido após uma série de exames médicos. De acordo com a Anac, para pilotos privados com idades entre 40 e 60 anos – situação de Marcelo – a validade do certificado é de 12 meses.

Peça do helicóptero que caiu no mar no sul da Bahia foi encontrado boiando no mar
Futurapress
Peça do helicóptero que caiu no mar no sul da Bahia foi encontrado boiando no mar
Seis pessoas morreram na queda do helicóptero ocorrida na noite da última sexta-feira próximo à praia de Ponta de Itapororoca, no distrito de Trancoso, em Porto Seguro, no sul da Bahia. Entre as vítimas, além de Mariana, estão a jornalista Fernanda Kfuri, de 34 anos, o filho dela, Gabriel Kfuri Gouveia, de 3 anos, o primo do menino, Luca Kfuri de Magalhães Lins, também de 3 anos, e a babá das crianças, Norma Batista de Assunção, de 49 anos.

No final da tarde desta segunda-feira (20), um corpo que seria do empresário Marcelo Mattoso de Almeida, de 48 anos, foi achado próximo do local do acidente. Jordana Kfuri Cavendish , que também estava na aeronave, permanece desaparecida.

Procurada pela reportagem do iG , a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) comunicou que vai se pronunciar somente após o término das investigações da Aeronáutica. O órgão regulador alegou não ter sido notificado sobre o episódio.

Assista ao vídeo sobre o acidente:

Caso não consiga ver este vídeo, clique no link abaixo para assistir na TV iG:

Localizado 5º corpo de vítima de queda de helicóptero

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