Venda de drogas discreta e sem armamento ostensivo pode representar alternativa de sobrevivência para traficantes nas favelas

A consolidação do projeto de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio tende a transformar o tráfico de drogas nas favelas, aproximando-o do modelo desarmado usado pelos jovens de classe média. É também o padrão da venda de drogas na maioria dos países – a violência do Rio é exceção, muito relacionada à necessidade do controle territorial para garantir o mercado consumidor.

A Secretaria de Segurança do Rio e a Polícia Militar já admitiram que, apesar de não haver mais a presença ostensiva de homens armados, persiste a atuação de traficantes nos locais onde há UPPs.

Segundo o secretário, José Mariano Beltrame, a principal razão das unidades é a retirada das armas de circulação e a opressão dos moradores pelos traficantes. Ele reconhece que ainda existe a venda de drogas nessas comunidades com UPP, mas alega que “o tráfico vai existir enquanto houver gente consumindo”.

Fabrizia Granatieri
Venda de drogas não acaba, mas armas somem das favelas com as UPPs
Para a socióloga Silvia Ramos, do Cesec, “a tendência é que a venda se aproxime paulatinamente do modelo de venda do asfalto, da classe média, que é o mesmo da maioria das cidades do mundo, como Nova York, Paris, Milão, Barcelona”, afirmou Silvia Ramos.

A pesquisadora Carolina Grillo concorda e acredita na “pulverização” do tráfico, assemelhando-se ao estilo da pista de vender drogas. “O padrão mundial é semelhante ao de classe média. Não digo que vá ser igual, porque não exclui a possibilidade de homicídio, armas de pequeno porte, mas parecido”, disse Carolina Grillo.

Desde as ocupações de favelas com as novas unidades comunitárias, a Polícia Militar já prendeu moradores que vendiam drogas nessas localidades de maneira discreta e sem o emprego ostensivo de armas, como antes.

Para Silvia Ramos, entretanto, os traficantes do Rio ainda estão com dificuldade de se adaptar à nova realidade, de tão habituados a esse ciclo de violência, vigente desde a década de 1980. “Os traficantes do Rio ‘quebraram’, mas não se adaptaram à realidade. A boca de fumo que dava dinheiro quebrou e dá lugar a uma atividade marginal, que tem de ser dissolvida para dar certo. Foram 20 anos trocando tiros com a polícia, perdendo arma e comprando fuzil e não foram capazes de se adaptar. O ‘ethos’ foi mais forte do que o capital, que a lógica de mercado.”

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