É um absurdo. Perdi meu padrasto pelo descaso

Filha de sexta vítima do bonde de Santa Teresa fala com exclusividade ao iG e reclama de demora para fazer diagnóstico de traumatismo craniano

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Filha da sexta vítima do acidente do bonde de Santa Teresa, que morreu na noite deste domingo (4), Helena Ferreira falou ao iG com exclusividade. Com a voz embargada, a nutricionista contou como foram as últimas horas de peregrinação do padrasto em dois hospitais do Rio de Janeiro.

Alcides Gonçalves, aposentado, 73 anos, deixa três filhos e quatro netos. Foi a Santa Teresa no dia 27 de agosto, para almoçar com a família após visitar os Arcos da Lapa. Esta foto que ilustra a matéria (ele é o de verde, ao fundo) foi o último registro feito com todos reunidos, antes de pegarem o bonde. O veículo cheio de passageiros tombou deixando, até o momento, seis mortos, sendo quatro homens e duas mulheres. Além disso, 57 pessoas ficaram feridas.

O sepultamento será nesta terça-feira, às 13h, no cemitério São Francisco Xavier.

Arquivo pessoal
Alcides Gonçalves, de verde, ao fundo

“Ele faleceu às 21h45 de ontem, no hospital Dr. Badim, na Tijuca. Eles queriam transferi-lo para outro lugar, mas deixaram ele até às 2h da manhã na recepção. Ele estava desorientado, falando que queria tomar café e fazer imposto de renda. Não falava coisa com coisa... Pedi um calmante para o médico, mas falaram que ele não podia ser sedado porque estava com problema na cabeça. Sabiam que ele não estava bem... mas não havia o que fazer! Isso já era 7h da noite, sendo que chegamos lá às 4h da tarde. Foi um acidente, gente, todo mundo falando disso... Tinha que ter prioridade. É um absurdo”, afirma Helena.

“Perdi meu padrasto pelo descaso. Ele ficou deitado numa maca gelada, sem colchão, sem lençol. Tirei um suporte de uma outra maca para ele poder apoiar a cabeça. Ele estava muito incomodado porque não conseguia nem apoiar as pernas. Os médicos sumiram depois de uma certa hora. Ele saiu do hospital Souza Aguiar (no Centro), no dia 28, só com o laudo de fratura do braço. Não tinha tomografia lá, o que foi um erro, deveria ter sido feita logo que deu entrada no hospital. Depois que fizeram (já na Tijuca) perceberam que ele estava com traumatismo craniano. O quadro foi piorando, começou a ter problema com pulmão, entubaram ele. Até chegar ao falecimento. No IML, com a autopsia, foi detectado traumatismo raquimedular”, conta.

“Ele morava na Tijuca, foi todo feliz passear lá em Santa Teresa, no almoço de família. Estão todos em casa, tiveram apenas escoriações leves. Mas meu padrasto, quando caiu, já ficou desacordado. Não deram tratamento para a cabeça dele. Engessaram o braço dele e só. Não tinha como tratar nada da cabeça no hospital que mandaram ele, isso não está certo”, lamenta.

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