`É triste ver a família da gente morrer', diz grávida de 7 meses desalojada em Friburgo

Thaís Coimbra da Silva, 21 anos, está em abrigo com marido e filha de 3 anos e diz não saber onde irá morar após o desastre

BBC Brasil |

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Em um dos abrigos localizados no centro de Nova Friburgo, cidade da região serrana do Rio afetada pelas fortes chuvas, estão mais de 50 pessoas que foram obrigadas a deixar suas casas por causa dos riscos de desabamento.

Alguns dos moradores, entrevistados pela BBC Brasil, falam sobre a tristeza por deixar tudo para trás e a incerteza sobre o que fazer.

O prédio que serve de abrigo é bastante antigo - o local já foi sede da Biblioteca Municipal. O piso de madeira range bastante e o forro é repleto de goteiras. Com a chuva forte que caía em Nova Friburgo, os voluntários foram obrigados a desligar a luz por algum tempo, para evitar um curto-circuito.

Em uma sala ampla, foram colocados colchonetes e cobertores para as pessoas dormirem. Em outro lugar, atravessando um corredor, são depositadas as doações, em sua maioria roupas e alimentos. Na mesma dependência, uma televisão mostrava as últimas notícias sobre a tragédia na região serrana.

Grávida de sete meses, Thaís Coimbra da Silva, 21 anos, foi para o abrigo com seu marido e a filha de 3 anos. Ela deixou a sua moradia na localidade de Cardinó por causa do risco de desabamento, depois que a casa de um vizinho muito perto da sua desmoronou durante a madrugada da última quarta-feira.

Thaís afirma que só se deu conta do perigo no outro dia de manhã, quando acordou. "Nós moramos no morro, e ali é uma área de risco. Tem muitas pedras lá, pode acontecer de cair por cima da gente", diz, embora alegue que nunca tenha visto algo do tipo ocorrer no local.

Embora ela e a sua família estejam a salvo, Thaís perdeu a mãe, tios e sobrinhos, que moravam em Venda das Pedras. Seu pai sobreviveu à tragédia, mas a família também não tem notícias da sua irmã. "É triste deixar as coisas pra trás, ver a família da gente morrer", diz.

Além de seu marido e da filha, Thaís está no abrigo com outros familiares - cunhados, tios e primos que também tiveram de deixar as suas casas. A moradora do Cardinó recebeu a visita de uma tia e de uma prima que não foram afetadas pelas chuvas. "Tem de cuidar bem desse aqui", disse a tia, chorando e acariciando o ventre da sobrinha.

Thaís diz que não quer voltar para sua casa, por causa dos riscos, mas também não sabe o que fazer a partir de agora. "Se o governo ajudar, quem sabe a gente se muda para outro lugar. Agora eu não tenho como saber isso", afirma.

Bebê de um mês

A dona de casa Adriana Figueiredo, 25 anos, é moradora do bairro de Córrego Dantas, um dos mais afetados pelos deslizamentos em Nova Friburgo. Ela buscou socorro no abrigo com o marido e quatro filhos - um deles, um bebê de apenas um mês de idade, chamado de "mascote" pelas voluntárias que trabalham no local.

Embora diga que a sua casa continua de pé, Adriana afirma que as dificuldades de se deslocar obrigaram sua família a deixar o seu bairro, que foi tomado pela lama e pelo entulho. Segundo a dona de casa, eles só deixaram Córrego Dantas com a ajuda do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope), que os levou em uma viatura. "Fiquei preocupada pelos meus filhos. Tive medo que a gente fosse sumir no meio da terra", afirma Adriana.

Ela diz que saiu de casa sem quaisquer pertences: as roupas que ela e sua família usam são doações feitas pela comunidade. Adriana diz que não sabe se alguns de seus vizinhos tiveram as casas danificadas, mas ela afirma que um tio de seu marido acabou morrendo soterrado, em outro bairro de Nova Friburgo.

Ela tem vontade de ir para outra área do município, mas diz que só irá com o consentimento do marido. "Se ele quiser, a gente vai."

Morro de saibro

A aposentada Valdiva Lourenço da Silva, 73 anos, diz que a sua casa foi construída há 11 anos por seu marido, que é pedreiro, no distrito de Conselheiro Paulino, bastante devastado pelos deslizamentos de terra. "Esse morro é todo de saibro, tem umas árvores no topo, é um perigo", diz ela.

Valdiva diz que foi para o abrigo depois que a casa de sua filha, que fica muito perto da sua, foi destruída de uma pedra que caiu do morro, o que trouxe risco para todos.

Como a rua onde a família mora ficou bloqueada pelas rochas, a saída do local só ocorreu com a ajuda de vizinhos e com a chegada dos veículos da Defesa Civil. Além do marido, a aposentada foi para o abrigo com um filho, que é portador de necessidades especiais.

Ela diz ter vontade de se mudar para um lugar mais seguro, mas só se o governo ajudar com verbas. "A gente ganha uma aposentadoria que é muito pouquinha, não dá para nada", diz Valdiva. "E agora há pouco teve umas contas para pagar, umas prestações, então a gente ficou a zero."

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