Dois meses após tragédia, desabrigados tentam voltar para casas condenadas

Em Teresópolis, sem-teto optam por riscos em antigas residências afetadas pela chuva; alegam que não receberam aluguel social

Flávia Salme, enviada a Teresópolis |

Com 1,48 m de altura, a pensionista Maria da Conceição da Rosa, de 59 anos, juntou todas as forças que tinha para tirar o “ rio de terra ” que invadiu a casa onde ela morava, em Campo Grande, na cidade de Teresópolis. No dia 12 de janeiro, quando deslizamentos de terra e pedras provocaram a maior tragédia da história da Região Serrana do Rio , ela e os familiares foram obrigados a deixar imóvel sob o risco de serem soterrados. Agora, dois meses depois, Maria e o marido Jaci Rodrigues, de 56 anos, se preparam para voltar: “não tem outro jeito”, alegam.

Hélio Motta
Jaci e Maria tiram a terra que invadiu a casa onde moravam antes da tragédia; sem aluguel social, eles afirmam que vão voltar para o imóvel

O imóvel em que viviam tem dois quartos, sala, cozinha, lavanderia, banheiro e varanda. Foi comprado há três anos por R$ 45 mil e é o único bem que Maria possui. Além de seu companheiro Jaci, que a ajudou na limpeza, a irmã e o cunhado também moravam na casa que apesar de atingida pela enchente permaneceu em pé.

Maria e Jaci chegaram a ficar no abrigo improvisado pela Prefeitura no ginásio Pedro Jahara , o Pedrão, e logo depois foram para a casa da mãe dela, no bairro Perpétuo, também afetado pela tragédia. “Lá não tem lugar para acomodar a gente. Nossa cama fica no quintal, ao relento”, diz Maria.

Hélio Motta
Maria chora quando explica os motivos do retorno para a antiga residência: "não recebi aluguel social, fiquei sem opção"

Para fugir do frio e da chuva, ela voltou ao imóvel antigo – condenado pela Defesa Civil Municipal – para reparar os estragos e voltar a ter um lar. “O moço falou que minha casa estava interditada, mas eu não quis assinar o termo de interdição. A casa está boa, não vou abandonar isso aqui”, afirma a pensionista. Embora tenha se cadastrado, o casal ainda não recebeu nenhuma parcela do aluguel social prometido pelos governos federal, estadual e municipal.

Na localidade, Maria e Jaci não são os únicos a resistir. Dezenas de moradores começam a voltar para o que sobrou de suas casas, embora o bairro de Campo Grande mais se assemelhe a uma cidade fantasma. Não há luz, água nem gás.

Como a coleta de lixo não é viável, os dejetos produzidos por aqueles que insistem em permanecer no bairro é queimado. A fumaça se mistura ao cheiro de corpos putrefatos e alimentos estragados, o que provoca mal-estar a quem visita a região. “Não tenho para onde ir. Minha casa está boa. A gente vai ficar. A luz já chegou para a casa dos ricos, daqui a pouco chega para a dos pobres também”, diz a dona de casa Célia Regina da Cruz, outra moradora.

Cidade fantasma gera prejuízos a comerciantes locais

Mesmo com a permanência de algumas famílias, comerciantes do bairro amargam o prejuízo. “Eu abro as portas para me distrair, porque ninguém compra nada”, diz Edésio Alves Ramos, de 56 anos, proprietário de uma mercearia e uma padaria na Rua José da Rocha. “O prejuízo é grande, a padaria foi inaugurada há 4 meses. Mas o que dói mesmo foi ter perdido meu único filho de sangue. Minha nora e minha neta também morreram”, lamenta.

Hélio Motta
O comerciante Edésio: "Abro as portas para me distrair, porque ninguém compra nada"
“Não há lugar para abrigar todas as pessoas. É natural que os desabrigados queiram voltar. Mas acho que nesse momento ninguém deve ficar aqui”, avalia o coronel Souza Filho, assessor da subsecretaria de Defesa Civil estadual. “O que eles percebem é o seguinte: historicamente, isso nunca aconteceu na região. Por isso, acham que não vai acontecer novamente. Tem também o valor sentimental, muitos passaram a vida para construir suas casas. Por outro lado, esta área não está segura”, ele diz.

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