Desabrigados de Teresópolis temem pelo futuro

Moradores lotam ginásios. "Se ficasse mais dois minutos em casa, eu teria sido levada pela água", diz dona de casa

BBC Brasil |

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Centenas de pessoas estão abrigadas no Ginásio Poliespostivo Pedro Jahara, o Pedrão, localizado no centro de Teresópolis (região serrana do Rio), depois das enchentes que devastaram diversas áreas da cidade na madrugada da última quarta-feira. Muitos dos desabrigados não têm a menor ideia de como será o futuro, depois de perderem suas casas.

"Deus livrou a gente", diz à BBC Brasil a dona-de-casa Kátia Bertolotto Teixeira, 28 anos, que sobreviveu - junto de seu marido e dos dois filhos pequenos - ao desmoronamento de sua casa, na localidade do Pessegueiro. Ela conta que a enxurrada destruiu praticamente toda a sua moradia, deixando apenas a laje e alguns pedaços intactos.

O marido de Kátia, o encanador Vágner Teixeira Peixoto, 31 anos, estava na capital quando ocorreu o desmoronamento. Ele chegou em casa somente na quarta-feira pela manhã, quando viu toda a sua famíla - que morava em casas próximas - desalojada. Além de Vágner, a mulher e os filhos, ele tem os pais, tios e sobrinhos abrigados no Pedrão.

"O pessoal está assombrado", afirma Vágner. "Quando aconteceu a enxurrada, todo mundo desceu do morro e foi para o asfalto, onde a terra era firme." Segundo o encanador, alguns de seus familiares, além de vários vizinhos, acabaram morrendo na enchente.

Vágner diz que, por enquanto, não tem noção do que fazer daqui para a frente. "Sei que o prefeito esteve aqui ontem. Tem que ver o que ele tem para oferecer", diz. Enquanto a Defesa Civil mantém a sua vizinhança interditada, devido ao risco de desabamentos, o encanador não pode voltar para casa sequer para pegar os pertences que sobraram.

Escapando por pouco

A dona-de-casa Rosa da Silva, 55 anos, também afirma ter escapado por pouco de morrer na enchente de Teresópolis. Moradora de uma área plana no bairro do Caleme, ela diz que estava acordada em casa de madrugada, junto de um casal de netos, quando viu da sua janela a enxurrada passar, deixando um rastro de destruição.

Rosa conta que ela e os netos deixaram a casa na hora certa. "Se ficasse mais dois minutos, eu teria sido levada", diz. Apesar disto, a dona-de-casa afirma que foi atingida pela força da água mesmo dentro da sua casa, deixando-a apenas com uma blusa e um peça de roupa íntima. Segundo Rosa, a estante da TV caiu por cima dela.

Depois de ser retirada de casa, Rosa foi levada para ser vacinada em uma igreja próxima e, depois, encaminhada para o ginásio, junto de sua neta, Graziela, 14 anos. "As pessoas devem pensar que eu morri", afirma. A dona-de-casa diz ter saído de casa sem nenhum pertence. As roupas que ela usa no abrigo foram recebidas de doações feitas pela população.

Rosa diz que ainda não sabe como será o seu futuro. "Só sei que não quero morar com meus filhos. Eles têm muitas crianças e eu tenho problemas de saúde", afirma. Além disto, ela só tem certeza de uma coisa: não voltará a morar no Caleme. "Agora eu tive uma primeira chance, mas posso morrer antes de ter uma segunda", diz.

"Cachoeira de lama"

"Uma cachoeira de água, lama e detritos": é assim que a dona-de-casa Maria dos Santos, 58 anos, define a enxurrada que passou pelo seu bairro, a Granja Florestal, na última quarta-feira. Localizada ao pé da Pedra da Tartaruga, e abaixo de muitas casas situadas em cima de um morro, a localidade foi soterrada pelas construções que desabaram.

Quando ocorreu o desastre, o ex-marido de Maria, que mora um andar abaixo dela, disse que sairia do local, devido ao alto risco. Ela diz que até agora não tem notícias dele. Ela também não sabe como estão os seus patrões, que moram no Condomínio Santa Helena, outro local bastante atingido pela enxurrada.

Maria diz que a sua casa continua de pé, mas o local está interditado pela Defesa Civil. Assim, sem tem para onde ir, nem como pegar os seus pertences, ela acabou no Pedrão. "Vou ter que arrumar algum parente, tirar as minhas coisas de lá, achar algum lugar para morar", diz Maria.

A doméstica diz que soube de vizinhos que não quiseram deixar as suas casas, mesmo com a Defesa Civil declarando aquela uma área de risco. No entanto, ela descarta voltar para a Granja Florestal. "Estou vendo gente morrendo, casas sendo destruídas, como vou ficar lá?"

Abrigos e doações

O ginásio Pedrão funciona como uma espécie de centro de triagem de desabrigados e de doações em Teresópolis. Além dele, existem outros sete abrigos na cidade, com capacidade de alojar pouco menos de mil pessoas. No momento, mais de 750 destes leitos estão ocupados.

Segundo o grupo que organiza os trabalhos no Pedrão, a maioria das pessoas alojadas no local vem dos bairros de Feo, Caleme e Campo Grande. Entre as doações mais necessitadas, estão artigos de higiene pessoal, roupas íntimas, absorventes, água potável, luvas descartáveis, colchonetes e roupas de cama.

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