Desabrigados de Niterói voltam a morar nas áreas condenadas

Encontrar imóveis que se encaixem no aluguel social de R$ 400 pago pelos governos estadual e municipal é a dificuldade

Agência Brasil |

Três meses após as chuvas de abril, que mataram mais de 60 pessoas no Estado do Rio, muitos desabrigados do município de Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, pensam em voltar a morar nas mesmas áreas de risco que tiveram de abandonar. Algumas já retornaram às antigas residências. O principal motivo, apontado pela maioria das pessoas que a Agência Brasil entrevistou, é a dificuldade para encontrar imóveis para locação que se encaixem no aluguel social de R$ 400 pago pelos governos estadual e municipal.

Uma das pessoas que pensam em voltar para a casa condenada pela Defesa Civil é a merendeira Cristina Silva, de 33 anos. Ela está abrigada com o marido e os três filhos no quartel da 3ª Brigada de Infantaria do Exército, em São Gonçalo (município vizinho de Niterói). Ela disse que já recebeu duas parcelas do aluguel social, mas não consegue encontrar um imóvel para alugar. Uma dificuldade que aumenta com a exigência dos proprietários que, para fechar contrato, costumam exigir pagamento antecipado de um valor equivalente a três meses de aluguel.

“A gente vai ter de sair [do abrigo] dentro de um mês. Se eu não arrumei casa para alugar nesses três meses, como é que eu vou arrumar uma casa em um mês? Vou acabar tendo que voltar para minha casa”, disse resignada.

Veridiana Fonseca, de 39 anos, está abrigada com três filhos e dois netos no mesmo quartel. Ela reclama que não consegue encontrar proprietários de imóveis que aceitem o aluguel social como pagamento. “Se eles [locadores] sabem que é aluguel social, não alugam. Porque, assim como a gente, eles não sabem se esse aluguel vai continuar sendo pago por muito tempo”, disse Veridiana, que depende do abrigo público por não ter parentes no Estado do Rio.

A dificuldade em encontrar imóveis para alugar está sendo um fator decisivo para que Laudicéa Andrade de Oliveira, de 23 anos, e a filha dela, de seis, voltem a morar na antiga casa no Morro do Céu, condenada pela Defesa Civil depois dos temporais de abril. A comunidade onde Laudicéa morava, em Viçoso Jardim, foi atingida por um grande deslizamento de terra que soterrou dezenas de casas. “Não me importam as chuvas. O que me importa é que eu vou estar na minha casa”.

A reportagem da Agência Brasil visitou o Morro do Céu e constatou que algumas famílias já voltaram para suas casas, mesmo interditadas pela Defesa Civil. Outras sequer deixaram o local, apesar dos riscos de desabamento de casas e deslizamento de encostas.

A pensionista Ivanir Figueira Neves, de 64 anos, mora na beira de um precipício que se formou após os deslizamentos de de abril. Ela foi orientada pela Defesa Civil para deixar a residência interditada. Mas ela disse que, apesar dos riscos que corre, não sairá da casa que comprou “com sacrifício” por R$ 2 mil, há dois anos. “Eu não tenho para onde ir. Não tenho condições. Estou no maior perigo aqui. Quando chove, não durmo. Saio de casa e fico no quintal, rodando igual a uma doida”.

Segundo a Prefeitura de Niterói, três mil famílias estão recebendo, desde maio, o aluguel social. Ainda de acordo com a prefeitura, todas as famílias cadastradas no aluguel social receberão o benefício até que possam se mudar para casas novas. Cerca de três mil novas unidades habitacionais do programa "Minha Casa, Minha Vida", do governo federal, deverão ser construídas no município e atenderão, prioritariamente, quem vive em áreas de risco.

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