Denunciadas no caso Sophie deixaram casa por medo de linchamento

Tia e prima da menina austríaca morta há um ano, após ser espancada, são chamadas de `bruxas¿ onde moravam. Vizinhos pedem punição

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Geovana dos Santos e Lílian dos Santos, tia e prima de Sophie Zanger, 4, morta há um ano após ser vítima de espancamentos, abandonaram as casas onde moravam na zona oeste para se livrarem do risco de serem linchadas por vizinhos. As duas foram denunciadas pelo Ministério Público por tortura, mas, um ano depois, a Justiça ainda nem sequer definiu o juízo competente para julgar o caso.

AE
Lílian e Geovana, tia e prima de Sophie denunciadas pelo MP pela morte da menina, fugiram da casa de onde moravam por medo de linchamento
Vizinho das casas onde as duas viviam em Santa Cruz e Santíssimo contaram ao iG que moradores queriam linchar as duas após a morte de Sophie. Eles pedem punição para Geovana e Lílian, a quem alguns chamam de “bruxas”, e criticam a Justiça porque até hoje não houve julgamento.

A casa de quatro andares em Santa Cruz (zona oeste) onde Sophie viveu seus últimos dias – com o irmão R., os tios Geovana e Sizenando Viana, e a prima Lílian – está alugada para novos moradores. Nos dias seguintes à morte da menina, o portão foi pichado com as palavras “assassinas” e “covardia”.

O iG mostrou que, um ano depois da morte de Sophie , as denunciadas não foram presas – acusada de torturar uma criança de 2 anos sob sua guarda, a procuradora de Justiça aposentada Vera Lúcia Sant’Anna Gomes teve a prisão decretada em 20 dias. A mãe de Sophie, Maristela dos Santos, fugiu em fevereiro de 2008 com a menina e o filho R. 11, da Áustria, onde se casara com Sascha Zanger, de quem se separou em 2006.

Sílvia Cavalcanti era vizinha da família socorreu Sophie e a levou desacordada ao hospital em 12 de junho do ano passado, ao ouvir apelos do irmão, R.. Ela viu quando os inúmeros hematomas do corpo da menina no hospital. “Sophie estava toda machucada, toda magoada, cheia de hematomas. Nas costas tinha um roxo enorme. Tinha tantos roxos, parecia que tinham pegado um cigarro e a marcado”, afirmou.

Sílvia contou ao iG que um grupo de moradores montava guarda na rua de Santa Cruz para agredir Geovana e a filha se aparecessem. “Nem sei qual seria minha reação se eu as visse na rua. As pessoas aqui queriam avançar no carro um dia que Geovana veio buscar coisas. Ela saiu corrida daqui. Ia levar uma surra”, disse Sílvia.

Dias antes, a tia de Sophie foi despedir-se de Sílvia, que disse tê-la interpelado: “Depois que espancaram e mataram a menina, agora vocês vão embora?”

Depois de sair de Santa Cruz, a família foi passar alguns dias na casa dos irmãos de Geovana, que moram em Santíssimo, e onde Sophie e R. ficaram por sete meses, ao chegar ao Brasil. Mas logo decidiram ir embora, porque traficantes da região mandaram recado que pretendiam matá-las.

“As duas vieram para cá escondidas, depois da morte da Sophie e quase deu problema. Os bandidos da região disseram que iam matar as ‘bruxas’. Eles não as queriam por aqui por causa do que tinham feito”, disse Batista, que mora na rua dos tios de Sophie, para onde foi quando chegou ao Brasil, vinda da Áustria.

Para a comerciante Madalena Torres, que durante seis meses ajudou Maristela e as crianças com comida, roupas e conseguiu uma cesta básica para a família, “a lei brasileira fracassou”. “Quando soube da morte de Sophie, quase morri. Fiquei doente, não conseguia comer, dormir, não saía da minha cabeça. A rua ficou um funeral”, disse.

Sílvia disse ter comentado com os filhos que dia 19 completava um ano da morte de Sophie. Na época, conta ter ficado “à base de calmantes”. Ela espera uma punição da Justiça.

“Precisa ter justiça, tem de botar as duas na cadeia, porque elas mataram a Sophie. Passou um ano e aí, nada? Cadê a Justiça brasileira? Estão vendo que foi espancamento e está aí no ar? Ficou no ar. Está vendo essa mulher, Vera (Lúcia Sant’Anna Gomes, procuradora de Justiça aposentada) de Copacabana? Sophie estava muito pior que a menina de 2 anos. Toda vez que vejo a foto dessa neném, penso que não é nada perto de Sophie, que estava machucada dos pés à cabeça. Nas costas tinha um roxão. Era um tal de me pedirem martelo, grampeador. Sei lá se o martelo era para bater na criança?”, questionou.

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