Curso ensina jornalistas a sobreviver em coberturas de guerra

iG participou da quinta edição do curso ministrado pelo Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB)

Bruna Fantti, iG Rio de Janeiro |

Trinta e um jornalistas brasileiros participaram de 9 a 13 de abril do Curso de Preparação para Jornalistas em Áreas de Conflito do Exército, no Rio, com um único objetivo: não virar notícia. O grupo recebeu instruções sobre balística, combate a incêndios, terrorismo, sequestros, minas, primeiros-socorros além da prática de progressão em áreas de alto risco.

O iG foi convidado a participar da quinta edição do curso, ministrado pelo Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), localizado na Vila Militar, zona oeste do Rio, que congrega as três forças militares federais e prepara militares e civis para atuar em guerras.

O evento foi idealizado a partir da missão de paz da ONU no Haiti, chefiada pelo Exército Brasileiro. Além da simulação de diferentes situações em uma guerra, o curso também detalha a conduta que um repórter deve adotar ao seguir um policial militar em operações em favelas, com aulas diárias das 6h30 às 22h, e um pernoite obrigatório.

“Percebemos que os jornalistas ficavam um pouco perdidos quando tinham que seguir a tropa em situações que demandavam maior segurança. Além do treinamento para os profissionais da mídia, essa é uma oportunidade do Exército e das outras forças mostrarem o trabalho que desempenham”, afirmou o coronel do Exército Luis Fernando Baganha, comandante do CCOPAB.

Atualmente, o Brasil atua em 11 missões de paz da ONU distribuídas em países da América Latina, América Central, África e Oriente Médio. O CCOPAB é o responsável pela preparação de militares e civis que serão enviados para essas missões.

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A inclusão do trabalho em favelas aconteceu após a morte do cinegrafista da TV Bandeirantes Gelson Domingos, em novembro de 2010, durante uma incursão policial.

“O erro dele foi ficar em um abrigo onde só cabia o policial. Ele deveria ficar do outro lado da rua, esperando o agente de segurança chamá-lo para progredir”, afirmou o tenente da PM Sérgio Vianna, instrutor da progressão em favela plana.

Domingos morreu após ser atingido por um tiro de fuzil que atravessou o colete à prova de balas que usava. Ele estava atrás de um policial que se abrigava atrás de um poste. Segundo o Exército, o colete que o cinegrafista usava não era o adequado . Desde a sua morte, o Exército passou a facilitar a aquisição do uso do colete número 3 para os jornalistas, tipo que protege de tiros de fuzil calibre 7.62 mm. Antes, o colete autorizado era o 2A, próprio para disparos de revólveres e pistolas.

As informações foram repassadas durante a aula de balística, que ensinou a identificar os barulhos dos diferentes tipos de disparos de armas de fogo e como se proteger em um abrigo dependendo do projétil utilizado. Além da participação de correspondentes internacionais, foram ministradas palestras sobre terrorismo, artefatos explosivos, direitos humanitários e do jornalista em guerra, conduta de negociação em situações de crise e primeiros-socorros.

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As aulas práticas incluíram combate a incêndio e conduta nessa situação, socorro de feridos em conflito, reconhecimento de um terreno com minas, procedimentos para o caso de acidente aéreo e a utilização de gás lacrimogêneo – cujos efeitos fizeram escorrer lágrimas dos olhos dos repórteres.

Abaixo, algumas dicas repassadas durante o curso:

* Em caso de sequestro falar sempre a verdade para o raptor, manter a calma e tentar criar empatia.

* Levar para as coberturas um kit com comida extra que caiba no bolso e água.

* Não mexer em envelopes que contenham palavras chamativas, como ultra-secreto: pode ser uma bomba.

* Atentar para sinais feitos com pedras, como setas e círculos: podem indicar que há uma mina no local.  

* Em caso de queda de helicóptero, não se desvincular do cinto de segurança: a sobrevida é maior.

* Se encontrar um ferido desmaiado, enquanto aguarda socorro, limpar a sua boca e colocá-lo deitado de lado para desobstruir as vias aéreas.

* Em caso do ferimento ser no crânio, não estancar o sangue que sai pelo ouvido. Isso evita o aumento da pressão sanguínea no cérebro.

* Em incêndios em locais fechados, sempre se arrastar pelo chão e tocar a parede com a parte externa da mão. A fumaça não fica concentrada perto do solo e é preciso evitar queimaduras na palma da mão para poder ser puxado por ela em caso de resgate.

* Durante uma progressão em área de risco, ficar sempre atrás do policial, agachado, na altura da cintura do mesmo.

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