Crupiê e eletricista usam cães farejadores no socorro de vítimas

Organização de resgate com cachorros envia especialistas para auxiliar bombeiros em Teresópolis

Raphael Gomide, enviado a Teresópolis (RJ) |

O crupiê de cassino Paulo Leites pediu folga, tomou o avião no Porto às pressas, fez conexão em Lisboa e desembarcou na manhã do domingo no Rio. O eletricista espanhol Jordi Huguet voou 12 horas até a capital fluminense. O gaúcho Gladimir Zuse aproveitou as férias na Aeronáutica e dirigiu 22 horas em seu carro até o Estado. Os três estão em Teresópolis, com seus cães, para atuar no resgate de vítimas das chuvas na Região Serrana.

Eles integram a ONG K-9 (em inglês, a pronúncia da sigla é a mesma de “canina”), entidade fundada na Espanha especializada em resgates em catástrofes com o auxílio de cães. Junto com os outros cachorros à disposição das equipes de socorro, os animais do K-9 já localizaram 27 corpos em Teresópolis. Nesta quarta-feira, mais três equipes estão em Nova Friburgo.

“Somos unidades de rápida intervenção. Tentamos chegar em 24 horas, no máximo em 48 horas após o evento, com o objetivo principal de localizar sobreviventes”, explica o português Paulo Leites. Ele já trabalha com cães há 12 anos – há oito com resgates. Atuou em alguns dos maiores desastres naturais recentes, como o tsunami na Indonésia e os terremotos no Chile e no Haiti, além de ter ido em missões no Paquistão, Afeganistão, Marrocos, Itália, China e Peru, entre outros lugares.

Cães especializados em vivos e mortos

Mas as estrelas em Teresópolis são a labrador Maia e o pastor belga Chuck, que participam das buscas. Há cães especializados em “vivos” e outros em “mortos”. Depois de alguns dias trabalhando, os animais já estão cansados e machucados, com ferimentos pelo corpo. Luna, cadela de Gladimir, está com uma lesão em uma pata dianteira, e passou o dia descansando.

Os cães chegam, marcam o lugar onde estão os sobreviventes ou mortos e saem para o trabalho de bombeiros, que passam a escavar os locais com uma precisão de cerca de 3 metros de raio. “São uma ferramenta sensacional. Eles acusam o local muito rapidamente”, disse o tenente-coronel bombeiro Outeiro, que está no Centro de Comando e Controle, no quartel de Teresópolis.

Ao chegar a uma área devastada no distrito de Vieiras, Chuck e Maia vibram ao sair da caixa de transporte e correm de um lado para o outro. Em alguns minutos, o pastor belga é levado para uma área onde moradores suspeitam que haja corpos trazidos pelas águas de casas 3 ou 4 km acima.

 Chuck é levado pelo português, é solto da coleira e começa a farejar. Entra na lama até a metade do corpo, sai, salta entre galhos de árvore e, poucos minutos depois, começa a latir sem parar em um local. “Muito bom, garoto!”, grita entusiasmado o capitão bombeiro Breno, que comandava a equipe, antes de marcar o local com um pedaço de pau. O pastor belga ganha um mordedor para brincar como recompensa e volta para descansar.

Em seguida, Maia é chamada e levada para a mesma área, de cerca de 200 metros quadrados. Ela é levada para um outro lado e fareja seu caminho até parar em um lugar a cerca de 5 metros da primeira. “

Afora o desgaste físico e psicológico, muitas vezes as equipes do K-9 enfrentam ainda a ameaça de roubos pelas populações afetadas pelas tragédias. “No tsunami, quando havia as réplicas [de tsunami] e as pessoas fugiam, os bandidos chegavam para roubar. No Haiti, também atacavam grupos de socorro em busca de comida, e precisamos ser escoltados por capacetes azuis, da ONU”, conta Pedro Leites. ”Isso aqui, para nós, é luxo.”

Depois de não ter podido ir a outras missões, o catalão Jordi conseguiu vir desta vez porque está desempregado. Ainda assim, só ganhou a passagem, da Universidade Solidária, da Espanha. Os demais gastos ficam por sua conta. “É importante poder tirar uma pessoa, seja como for”, disse Jordi.

“Se eu não viesse eu estaria preso em casa dentro da minha consciência, sabendo que tenho o conhecimento e a técnica e não ajudei. Não é por medo de não ir para o céu ou nada assim, mas pela possibilidade de ajudar”, disse Gladimir.

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