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A partir de investigação da polícia e denúncia do MP, iG revela como eram divididas as funções no bando que comandava a favela

O traficante Nem foi preso em novembro, no porta-malas de um carro
Reproduçao TV Globo
O traficante Nem foi preso em novembro, no porta-malas de um carro
A operação das forças de Segurança do Estado do Rio para a ocupação da Rocinha desmontou a quadrilha do traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem . Além do próprio Nem, ex-”dono” do morro, muitos de seus principais colaboradores foram presos pela polícia, durante o cerco e a tomada, em novembro.

O iG teve acesso a denúncia do Ministério Público anterior à ocupação, que revela como funcionava o bando do traficante e quais eram as atribuições de seus principais integrantes. O organograma da quadrilha foi montado a partir de investigação da Polícia Civil, que contou com interceptações telefônicas, quebra de sigilos bancário e prova testemunhal.

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Segundo o MP, os integrantes da facção ADA (“Amigos dos Amigos”) praticavam atividades criminosas que iam do tráfico de drogas, de armamento, explosivos e munições de uso proibido e restrito, lavagem de dinheiro, favorecimento pessoal e crime de bando, agindo “conscientes e voluntariamente, de forma dolosa” para “fins criminosos diversos”.

Panfleto distribuído pelo Bope com foto de criminosos da Rocinha, durante a ocupação. Os três principais foram presos
Divulgação
Panfleto distribuído pelo Bope com foto de criminosos da Rocinha, durante a ocupação. Os três principais foram presos
“As provas colhidas, testemunhais, documentais e de interceptação telefônica, deixam mais do que evidente a atuação criminosa dos denunciados. Tratam-se de pessoas violentas e que, sendo que algumas tem até mandados de prisão já pendentes, e/ou, registros policiais por outras investigações”, afirmou a denúncia do MP.

A quadrilha

Nem é o líder da quadrilha e principal denunciado pelo MP, por tráfico de drogas e associação para o tráfico. De acordo com o MP, Nem “comanda como líder maior da facção ADA, em especial e mais diretamente todo o tráfico de entorpecentes na favela da Rocinha ”.

Segundo o MP, Nem “prepara, adquire, vende, expõe à venda, tem em depósito drogas sem autorização legal” e esconde o dinheiro fruto da prática criminosa, através de diversas ações de lavagem de dinheiro, em associação com outros - entre os quais o líder comunitário Vanderlan Barros de Oliveira, o Feijão. Nem foi preso em 10 de novembro, pelo Batalhão de Choque da PM e por policiais federais, na Lagoa (zona sul).

Vanderlan , o Feijão , é considerado “braço-direito” de Nem e “laranja do tráfico” , e foi denunciado por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Segundo a denúncia, ele “atuava no sentido de facilitar a atuação financeira da facção ADA”. Atuando como “tesoureiro do tráfico”, Feijão mantinha em seu nome duas empresas – o lava-jato V Barros de Oliveira Comércio de Acessórios para Veículos Ltda. e a distribuidora WC Comércio de Gelo Ltda. – e usava contas correntes das firmas para quitar débitos da facção criminosa e despesas pessoais e da família de Nem. Foi ele quem comprou o enxoval para o filho do traficante com a mulher, Danúbia.

Feijão, apontado pelo MP e pela polícia como
Reprodução da internet
Feijão, apontado pelo MP e pela polícia como "laranja" de Nem

Feijão também emprestava oito linhas de telefone em seu nome para integrantes da quadrilha, entre os quais seu irmão, Fábio Barros Oliveira . Cabia a Feijão receber o dinheiro do tráfico, “fraudulentamente o declarando como capital oriundo de atividade empresarial”.

De acordo com o MP, o lava-jato recebeu depósitos de altas quantias em dinheiro, sendo “cristalinamente incompatíveis com a atividade empresarial exercida em localidade extremamente pobre”. Feijão pagou por festas, aluguel de brinquedos, shows, cervejadas e outros eventos promovidos pelo tráfico local . Ele responde ao processo em liberdade.

Feijão era ajudado na lavagem de dinheiro do tráfico por Antônio Alessandro da Silva , o Magrinho , seu filho de consideração e funcionário do lava-jato. Magrinho confessou em depoimento ser “laranja” do tráfico e é considerado “figura importante na hierarquia da facção ADA na favela da Rocinha”.

Na denúncia, Magrinho é descrito como o responsável por receber valores da venda de drogas pelos “gerentes” das “bocas-de-fumo” e por fazer pagamentos determinados por Feijão. Ele também emprestava folhas de cheque de sua conta para traficantes – canhotos de cheques com nomes de criminosos foram apreendidos com ele.

Coelho, Carré, Peixe (ou Foca) e Nem, presos tentando fugir do cerco à Rocinha
Divulgação/Taiane Hunder/Seap
Coelho, Carré, Peixe (ou Foca) e Nem, presos tentando fugir do cerco à Rocinha
“Nas informações bancárias está evidente o total descompasso entre o dinheiro circulante em sua conta-corrente e os valores que declara receber de salário. Assim, dissimulava a natureza, origem e movimentação de valores provenientes diretamente do tráfico ilícito de substâncias entorpecentes”, afirma o MP.

Irmão de Feijão, Fábio Barros de Oliveira é apontado como “contador” e gerente de “bocas-de-fumo” de Nem na Rocinha, como ficou demonstrado em interceptações telefônicas feitas pela polícia.

Leandro Nunes Botelho , o Scooby , é acusado de atuar “no preparo, embalo e venda de material entorpecente”, como ficou claro por conversas flagradas em interceptações telefônicas, inclusive entre ele e o Thiago, o “Pateta”. De acordo com o MP, Scooby atua ainda “na venda de armamento pesado”. Ele recebia e mantinha arma de fogo, acessórios, explosivos e munições de uso proibido e restrito, sem autorização legal.

Thiago Cáceres , o Pateta , também atuava no tráfico e foi flagrado ao telefone falando sobre a venda de drogas com Scooby e outros criminosos da Rocinha. Ele também foi denunciado como responsável por “solicitar a vinda de armamento de outra comunidade para a Rocinha, fazendo clara encomenda de armas”, em interceptações telefônicas. Pateta não foi preso na operação de cerco e tomada da favela e continua foragido.

Corpo coberto ao lado de táxi, após tiroteio em São Conrado, era de Adriana, do bando de Nem
Vicente Seda
Corpo coberto ao lado de táxi, após tiroteio em São Conrado, era de Adriana, do bando de Nem
Rodrigo Belo Ferreira , o Rodrigão , foi denunciado por comandar “vários setores da facção criminosa”. Ele é considerado importante integrante da quadrilha. Apesar de ter a foto exposta em cartazes de “procurado”, Rodrigão escapou ao cerco policial à Rocinha e continua foragido.

Mulher da quadrilha morreu em tiroteio

Até mulheres integravam a quadrilha de Nem da Rocinha. Adriana Duarte de Oliveira dos Santos foi considerada “mulher de confiança da facção criminosa” e era responsável pelo transporte de drogas entre a Rocinha e outras favelas dominadas pela ADA, em especial para o complexo de São Carlos (que abrange os morros da Mineira, São Carlos, Querosene e Zinco), no Estácio (zona central do Rio), entregando-as diretamente aos traficantes locais.

Segundo a denúncia, Adriana tinha “íntimo relacionamento” com os criminosos, e entregava a “mercadoria ilícita pessoalmente ao chefe do tráfico da facção ADA nessa comunidade, Anderson, vulgo Coelho”.

Adriana normalmente fazia de táxi o percurso de 17km entre os dois morros, “visando a não levantar suspeitas”. Interceptações telefônicas flagradas pela polícia mostraram que ela foi escolhida para esse papel de “mula” por ser mulher e chamar menos a atenção de policiais. Ela morreu baleada, em agosto de 2010, em tiroteio entre policiais e traficantes, após a invasão do Hotel Intercontinental, em São Conrado .

Rogério Avelino da Silva , o Rogério 157 , foi denunciado após uma operação policial ter apreendido em sua casa documentos contendo “inventário de armas de grosso calibre, explosivos e munições, que totalizam um valor astronômico de mais de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), bem como relatórios de tática de guerrilha, deixando claro, assim, sua importância e ingerência como um membro de confiança e cabeça da facção ADA”. Para o MP, ele prestava aos criminosos “auxílio destinado a tornar seguro proveito de crime”. Rogério foi preso na invasão do Intercontinental, com outros nove criminosos.

Bope apresenta armas apreendidas na ocupação da Rocinha
Agência OGlobo
Bope apresenta armas apreendidas na ocupação da Rocinha

Fábio Soares Martins é acusado de atuar como “vapor” em bocas-de-fumo da Rocinha e segurança pessoal e office-boy de Nem e de sua mulher, Danúbia, sendo definido como “facilitador dos trabalhos da facção criminosa”. “Fábio atuava na segurança do traficante Nem e de sua família, auxiliando-os a subtrair-se à ação de autoridade pública”, diz o texto do MP.

Marcelo Silva de Figueiredo , o Chorrão , atuava no tráfico da Rocinha e intermediava “a compra de armamento de grosso calibre”, como mostrou gravação de conversa telefônica em que encomenda arma para a quadrilha.

Renato Araújo , o Meio Quilo , era traficante e tinha como função principal receber pagamentos de Antônio Alessandro, o Magrinho, “relacionados com sua atividade ilícita, conforme canhotos de cheques da conta corrente usada pela facção”.

Amaro Pereira da Silva , o Neto , atuava como segurança da quadrilha de tráfico de drogas de Nem. “Com a mencionada conduta, o acusado prestava auxílio aos criminosos da facção ADA, visando subtração dos mesmos da ação de autoridade pública”, afirma o MP, que o denunciou ainda por formação de quadrilha.

Anderson Rosa Mendonça , o Coelho , era o chefe do tráfico de drogas no Complexo de São Carlos, na ocasião da denúncia, 2010. Coelho fazia intenso comércio de drogas com a Rocinha, dominada pela mesma facção. Segundo o MP, Coelho “age na troca, compra e venda de entorpecentes com os traficantes da Favela da Rocinha, visto serem todos da mesma facção criminosa. Por várias vezes recebe e manda o entorpecente através da denunciada Adriana”.

Danúbia, mulher de Nem, está presa
Reprodução/Internet
Danúbia, mulher de Nem, está presa

Com a ocupação do Complexo de São Carlos pela polícia, em fevereiro de 2011, e a inauguração de uma UPP, em maio, os traficantes de drogas locais foram expulsos. Coelho e Sandro Luís de Paula Amorim, o Peixe , ou Foca – com quem dividia a liderança nos morros –, e se refugiaram na Rocinha.

Como sinal de consideração e sinal de status dentro da ADA, Nem os recebeu e lhes arrendou um ponto de venda de drogas, tarefa de relevância no tráfico local. Uma mostra da importância estratégica dos dois dentro da facção foi o fato de terem sido presos em 9 de novembro, tentando fugir da Rocinha, com a escolta de três policiais civis, um policial militar da reserva e um ex-PM.

O grupo, dividido em quatro carros – um deles blindado – foi detido por policiais federais, no Jardim Botânico, dias antes da ocupação da favela.

Outro "dono" de morro, Cristiano Santos Guedes , o Puma , chefe do tráfico nas favelas do Quitanda, Pedreira e Lagartixa (também da ADA) foi denunciado no mesmo processo, acusado de negociar com Scooby e Nem a entrega e troca de drogas entre as favelas.

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