Conheça quem é quem na quadrilha de Nem da Rocinha

A partir de investigação da polícia e denúncia do MP, iG revela como eram divididas as funções no bando que comandava a favela

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Reproduçao TV Globo
O traficante Nem foi preso em novembro, no porta-malas de um carro
A operação das forças de Segurança do Estado do Rio para a ocupação da Rocinha desmontou a quadrilha do traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem . Além do próprio Nem, ex-”dono” do morro, muitos de seus principais colaboradores foram presos pela polícia, durante o cerco e a tomada, em novembro.

O iG teve acesso a denúncia do Ministério Público anterior à ocupação, que revela como funcionava o bando do traficante e quais eram as atribuições de seus principais integrantes. O organograma da quadrilha foi montado a partir de investigação da Polícia Civil, que contou com interceptações telefônicas, quebra de sigilos bancário e prova testemunhal.

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Segundo o MP, os integrantes da facção ADA (“Amigos dos Amigos”) praticavam atividades criminosas que iam do tráfico de drogas, de armamento, explosivos e munições de uso proibido e restrito, lavagem de dinheiro, favorecimento pessoal e crime de bando, agindo “conscientes e voluntariamente, de forma dolosa” para “fins criminosos diversos”.

Divulgação
Panfleto distribuído pelo Bope com foto de criminosos da Rocinha, durante a ocupação. Os três principais foram presos
“As provas colhidas, testemunhais, documentais e de interceptação telefônica, deixam mais do que evidente a atuação criminosa dos denunciados. Tratam-se de pessoas violentas e que, sendo que algumas tem até mandados de prisão já pendentes, e/ou, registros policiais por outras investigações”, afirmou a denúncia do MP.

A quadrilha

Nem é o líder da quadrilha e principal denunciado pelo MP, por tráfico de drogas e associação para o tráfico. De acordo com o MP, Nem “comanda como líder maior da facção ADA, em especial e mais diretamente todo o tráfico de entorpecentes na favela da Rocinha ”.

Segundo o MP, Nem “prepara, adquire, vende, expõe à venda, tem em depósito drogas sem autorização legal” e esconde o dinheiro fruto da prática criminosa, através de diversas ações de lavagem de dinheiro, em associação com outros - entre os quais o líder comunitário Vanderlan Barros de Oliveira, o Feijão. Nem foi preso em 10 de novembro, pelo Batalhão de Choque da PM e por policiais federais, na Lagoa (zona sul).

Vanderlan , o Feijão , é considerado “braço-direito” de Nem e “laranja do tráfico” , e foi denunciado por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Segundo a denúncia, ele “atuava no sentido de facilitar a atuação financeira da facção ADA”. Atuando como “tesoureiro do tráfico”, Feijão mantinha em seu nome duas empresas – o lava-jato V Barros de Oliveira Comércio de Acessórios para Veículos Ltda. e a distribuidora WC Comércio de Gelo Ltda. – e usava contas correntes das firmas para quitar débitos da facção criminosa e despesas pessoais e da família de Nem. Foi ele quem comprou o enxoval para o filho do traficante com a mulher, Danúbia.

Reprodução da internet
Feijão, apontado pelo MP e pela polícia como "laranja" de Nem

Feijão também emprestava oito linhas de telefone em seu nome para integrantes da quadrilha, entre os quais seu irmão, Fábio Barros Oliveira . Cabia a Feijão receber o dinheiro do tráfico, “fraudulentamente o declarando como capital oriundo de atividade empresarial”.

De acordo com o MP, o lava-jato recebeu depósitos de altas quantias em dinheiro, sendo “cristalinamente incompatíveis com a atividade empresarial exercida em localidade extremamente pobre”. Feijão pagou por festas, aluguel de brinquedos, shows, cervejadas e outros eventos promovidos pelo tráfico local . Ele responde ao processo em liberdade.

Feijão era ajudado na lavagem de dinheiro do tráfico por Antônio Alessandro da Silva , o Magrinho , seu filho de consideração e funcionário do lava-jato. Magrinho confessou em depoimento ser “laranja” do tráfico e é considerado “figura importante na hierarquia da facção ADA na favela da Rocinha”.

Na denúncia, Magrinho é descrito como o responsável por receber valores da venda de drogas pelos “gerentes” das “bocas-de-fumo” e por fazer pagamentos determinados por Feijão. Ele também emprestava folhas de cheque de sua conta para traficantes – canhotos de cheques com nomes de criminosos foram apreendidos com ele.

Divulgação/Taiane Hunder/Seap
Coelho, Carré, Peixe (ou Foca) e Nem, presos tentando fugir do cerco à Rocinha
“Nas informações bancárias está evidente o total descompasso entre o dinheiro circulante em sua conta-corrente e os valores que declara receber de salário. Assim, dissimulava a natureza, origem e movimentação de valores provenientes diretamente do tráfico ilícito de substâncias entorpecentes”, afirma o MP.

Irmão de Feijão, Fábio Barros de Oliveira é apontado como “contador” e gerente de “bocas-de-fumo” de Nem na Rocinha, como ficou demonstrado em interceptações telefônicas feitas pela polícia.

Leandro Nunes Botelho , o Scooby , é acusado de atuar “no preparo, embalo e venda de material entorpecente”, como ficou claro por conversas flagradas em interceptações telefônicas, inclusive entre ele e o Thiago, o “Pateta”. De acordo com o MP, Scooby atua ainda “na venda de armamento pesado”. Ele recebia e mantinha arma de fogo, acessórios, explosivos e munições de uso proibido e restrito, sem autorização legal.

Thiago Cáceres , o Pateta , também atuava no tráfico e foi flagrado ao telefone falando sobre a venda de drogas com Scooby e outros criminosos da Rocinha. Ele também foi denunciado como responsável por “solicitar a vinda de armamento de outra comunidade para a Rocinha, fazendo clara encomenda de armas”, em interceptações telefônicas. Pateta não foi preso na operação de cerco e tomada da favela e continua foragido.

Vicente Seda
Corpo coberto ao lado de táxi, após tiroteio em São Conrado, era de Adriana, do bando de Nem
Rodrigo Belo Ferreira , o Rodrigão , foi denunciado por comandar “vários setores da facção criminosa”. Ele é considerado importante integrante da quadrilha. Apesar de ter a foto exposta em cartazes de “procurado”, Rodrigão escapou ao cerco policial à Rocinha e continua foragido.

Mulher da quadrilha morreu em tiroteio

Até mulheres integravam a quadrilha de Nem da Rocinha. Adriana Duarte de Oliveira dos Santos foi considerada “mulher de confiança da facção criminosa” e era responsável pelo transporte de drogas entre a Rocinha e outras favelas dominadas pela ADA, em especial para o complexo de São Carlos (que abrange os morros da Mineira, São Carlos, Querosene e Zinco), no Estácio (zona central do Rio), entregando-as diretamente aos traficantes locais.

Segundo a denúncia, Adriana tinha “íntimo relacionamento” com os criminosos, e entregava a “mercadoria ilícita pessoalmente ao chefe do tráfico da facção ADA nessa comunidade, Anderson, vulgo Coelho”.

Adriana normalmente fazia de táxi o percurso de 17km entre os dois morros, “visando a não levantar suspeitas”. Interceptações telefônicas flagradas pela polícia mostraram que ela foi escolhida para esse papel de “mula” por ser mulher e chamar menos a atenção de policiais. Ela morreu baleada, em agosto de 2010, em tiroteio entre policiais e traficantes, após a invasão do Hotel Intercontinental, em São Conrado .

Rogério Avelino da Silva , o Rogério 157 , foi denunciado após uma operação policial ter apreendido em sua casa documentos contendo “inventário de armas de grosso calibre, explosivos e munições, que totalizam um valor astronômico de mais de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), bem como relatórios de tática de guerrilha, deixando claro, assim, sua importância e ingerência como um membro de confiança e cabeça da facção ADA”. Para o MP, ele prestava aos criminosos “auxílio destinado a tornar seguro proveito de crime”. Rogério foi preso na invasão do Intercontinental, com outros nove criminosos.

Agência OGlobo
Bope apresenta armas apreendidas na ocupação da Rocinha

Fábio Soares Martins é acusado de atuar como “vapor” em bocas-de-fumo da Rocinha e segurança pessoal e office-boy de Nem e de sua mulher, Danúbia, sendo definido como “facilitador dos trabalhos da facção criminosa”. “Fábio atuava na segurança do traficante Nem e de sua família, auxiliando-os a subtrair-se à ação de autoridade pública”, diz o texto do MP.

Marcelo Silva de Figueiredo , o Chorrão , atuava no tráfico da Rocinha e intermediava “a compra de armamento de grosso calibre”, como mostrou gravação de conversa telefônica em que encomenda arma para a quadrilha.

Renato Araújo , o Meio Quilo , era traficante e tinha como função principal receber pagamentos de Antônio Alessandro, o Magrinho, “relacionados com sua atividade ilícita, conforme canhotos de cheques da conta corrente usada pela facção”.

Amaro Pereira da Silva , o Neto , atuava como segurança da quadrilha de tráfico de drogas de Nem. “Com a mencionada conduta, o acusado prestava auxílio aos criminosos da facção ADA, visando subtração dos mesmos da ação de autoridade pública”, afirma o MP, que o denunciou ainda por formação de quadrilha.

Anderson Rosa Mendonça , o Coelho , era o chefe do tráfico de drogas no Complexo de São Carlos, na ocasião da denúncia, 2010. Coelho fazia intenso comércio de drogas com a Rocinha, dominada pela mesma facção. Segundo o MP, Coelho “age na troca, compra e venda de entorpecentes com os traficantes da Favela da Rocinha, visto serem todos da mesma facção criminosa. Por várias vezes recebe e manda o entorpecente através da denunciada Adriana”.

Reprodução/Internet
Danúbia, mulher de Nem, está presa

Com a ocupação do Complexo de São Carlos pela polícia, em fevereiro de 2011, e a inauguração de uma UPP, em maio, os traficantes de drogas locais foram expulsos. Coelho e Sandro Luís de Paula Amorim, o Peixe , ou Foca – com quem dividia a liderança nos morros –, e se refugiaram na Rocinha.

Como sinal de consideração e sinal de status dentro da ADA, Nem os recebeu e lhes arrendou um ponto de venda de drogas, tarefa de relevância no tráfico local. Uma mostra da importância estratégica dos dois dentro da facção foi o fato de terem sido presos em 9 de novembro, tentando fugir da Rocinha, com a escolta de três policiais civis, um policial militar da reserva e um ex-PM.

O grupo, dividido em quatro carros – um deles blindado – foi detido por policiais federais, no Jardim Botânico, dias antes da ocupação da favela.

Outro "dono" de morro, Cristiano Santos Guedes , o Puma , chefe do tráfico nas favelas do Quitanda, Pedreira e Lagartixa (também da ADA) foi denunciado no mesmo processo, acusado de negociar com Scooby e Nem a entrega e troca de drogas entre as favelas.

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