Concurso para o Ministério Público do Rio apresenta indício de plágio

Perguntas idênticas às de provas realizados em 2007 e 2010 foram encontradas em exames para cargos de nível técnico

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

A prova de admissão para o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, realizada no último dia 27, continha pelo menos quatro questões que apresentam indícios de terem sido copiadas de dois concursos anteriores: da OAB-RJ, em 2007, e da Fiocruz, em 2010. O MP-RJ não nega nem confirma o plágio. Por enquanto, se limita a orientar os candidatos que se “sentirem prejudicados a apresentarem um recurso no órgão”. As perguntas idênticas foram encontradas nas provas para a Formação de Quadros Permanentes dos Serviços Auxiliares, os chamados cargos técnicos.

O gabarito "A" da prova de nível médio para as funções de técnico na área administrativa contém quatro questões com indícios de plágio. A de número 27, por exemplo, é idêntica à questão número 06 da prova para a Fiocruz aplicada em 2010 sob organização da Cespe/UnB. A cópia foi integral e reproduziu, inclusive, as repostas na mesma ordem. Veja abaixo:

Reprodução
Gabarito da prova da Fiocruz (à esquerda) mostra que a mesma questão foi copiada na prova do MP-RJ (direita)

Há ainda muita semelhança estre as questões 71, 72 e 73 e, respectivamente, as questões 65, 66 e 68 da prova para a OAB-RJ realizada em 2007 pela FGV-Projetos.

Reprodução
Gabarito da prova da OAB (esq) e do MP-RJ (dir): pergunta igual e respostas parecidas (a reposta 'A' é a mesma nas duas provas), apenas algumas palavras foram modificadas

Ao todo foram oferecidas 155 vagas para candidatos de níveis médio ou superior em cargos de técnico e analista. Para os formados em Administração, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas ou em Direito, foram 29 vagas. Para aqueles com apenas o ensino médio completo – cujas provas continham perguntas encontradas pelo iG em concursos anteriores – os número de vagas era maior: 126. De olho nos salários de R$ 5.143,19 (para cargos de analista) e R$ 3.157,47 (técnico), os candidatos tiveram de desembolsar R$ 80 e R$ 60, respectivamente, para fazer a prova. Segundo o MP 103.718 candidatos se inscreveram no certame.

Reprodução
MP-RJ diz que candidatos que se sentirem prejudicados devem recorrer. Nesta questão, perguntas idênticas e troca de algumas palavras e na ordem das respostas

A prova do Ministério Público do Rio de Janeiro foi organizada pela Fundação Universitária José Bonifácio, ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Procurada pelo iG , por telefone e por e-mail, durante uma semana, os responsáveis pela organização não retornaram.

Um dos candidatos que se sentiu prejudicado é Eduardo Bernardo de Souza, de 29 anos. Morador de Minas Gerais, ele veio ao Rio apenas para fazer a prova. Além de pagar pela inscrição, teve gastos com passagem interestadual e alimentação (cerca de R$ 200). Ao descobrir que as questões foram copiadas de outros concursos, Eduardo afirmou que a lisura do processo foi quebrada. “Quem fez as provas da OAB-RJ ou da Fiocruz, conhecia as questões. Mas muitos concurseiros também podem ter tido algum benefício, porque o gabarito dessas provas é de livre acesso na internet e quem estudou por essas questões já sabia as respostas”, reclama. “Vindo do Ministério Público, que deveria ser defensor das leis, isso espanta”, resume.

Reprodução
Nesta questão algumas modificações foram feitas nas opções de resposta da prova do MP, no entanto, o mesmo conteúdo foi escrito de maneira diferente

Na internet o assunto suscita debates em diferentes fóruns de discussão. “Havendo prova inconteste de que as questões são repetidas (ou têm alterações irrelevantes - o que dá na mesma), a melhor solução judicial é o mandado de segurança, com pedido de liminar para anular as questões repetidas ou, conforme a extensão do problema, toda a prova. Já houve, inclusive, decisão judicial de anulação de concurso por irregularidades na prova, como questões repetidas”, escreve um candidato em uma das listas virtuais. “A utilização de questões de outras bancas sem a citação da fonte é sim crime, crime de plágio, previsto na lei 9.610/98. Quanto aos prejudicados creio que cabe denúncia ao MP”, responde outro candidato.

“Copiar integralmente não dá”, diz especialista

O advogado Sérgio Camargo, especializado em concursos públicos, explica que diante da ausência de uma lei específica para concursos públicos é possível contornar a chamada lei do plágio. “É possível pegar uma questão existente, que já tenha sido aplicada em concursos anteriores, e modificá-la, trocar algumas questões da resposta, inserir novos elementos. Agora copiar o texto integralmente não dá, pode gerar a anulação de todo o concurso”, ele avalia.

Camargo afirma em casos como o da prova do MP-RJ, o mais comum é ter as questões que apresentam indícios de plágio – se confirmada a cópia – anuladas. Porém, ele faz um alerta: “Quando isso acontece todo mundo leva vantagem, inclusive as pessoas que erraram a questão. Isso bagunça todo o ranking do concurso”.

O Ministério Público do Rio de Janeiro informa que os candidatos que quiserem recorrer devem ler o edital do concurso (http://www.mp.rj.gov.br/portal/page/portal/Internet/Concursos/Servidor/Concurso_2011 ou www.fujb.ufrj.br/mprj) para saber como proceder para reivindicar a anulação das questões. O resultado das provas para nível técnico do MP-RJ será divulgado na próxima semana, segundo a assessoria de imprensa do órgão.

    Leia tudo sobre: concursoministério publicorio de janeiroplágio

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG