Complexo da Maré, agora ocupado pelo Bope, é o QG de Beira-Mar no Rio

Braço-direito do traficante, Marcelinho Niterói transformou favela Parque União em entreposto de drogas e armas do bando

Mario Hugo Monken, iG Rio de Janeiro |

Agência O Globo
Marcelinho Niterói quando foi preso no Paraguai em 2006
O Complexo da Maré , ocupado há duas semanas pelo Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar), na zona norte do Rio de Janeiro, tornou-se nos últimos três anos o "QG" da quadrilha do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, na cidade.

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Apontado como o número 1 de Beira-Mar nas ruas, o traficante Marcelo da Silva Leandro, o Marcelinho Niterói, transformou a favela Parque União, uma das 15 comunidades da Maré, no principal entreposto de drogas e armas do grupo.

Marcelinho Niterói é o responsável por administrar os negócios de Fernandinho, atualmente preso na penitenciária federal de Mossoró (RN).

Segundo os setores de inteligência da polícia do Rio, ele coordena as rotas de transporte de cocaína e maconha que chegam dos países vizinhos, como o Paraguai e a Bolívia, e sua distribuição nos pontos de venda no RJ.

Ele usa o Parque União como seu principal esconderijo desde a ocupação pelas Forças de Pacificação do Exército no Complexo do Alemão, na zona norte, iniciada em novembro do ano passado.

Em abril, a PF (Polícia Federal) fez buscas na comunidade atrás do criminoso mas não conseguiu prendê-lo e mantém o assunto em sigilo.

O comandante do Bope, coronel Willman René, disse que Niterói é um dos alvos da sua operação, que visa combater o tráfico de drogas e tem resultado na apreensão de várias armas pesadas e drogas.

"Temos informes de que ele (o Marcelinho Niterói) pode estar escondido aqui", disse. Um novo quartel do Bope está sendo construído na Maré mas ainda não tem prazo para a inauguração.

Em maio, a Polícia Civil prendeu o traficante Antônio Jacinto Neto, o Lindo, que atua no Parque União. Em depoimento na 22ª DP (Penha), ele contou que Marcelinho Niterói realmente se esconde na favela.

De acordo com um policial civil, Lindo disse que o braço-direito de Beira-Mar costumava a entrar em uma casa e logo passar para outra para não deixar pistas e que seus seguranças não deixavam ninguém chegar perto dele.

Laços familiares

Segundo fontes da Polícia Civil, uma das razões que levaram Marcelinho Niterói escolher a favela Parque União como base é a sua amizade com o chefe do tráfico no local, Jorge Luiz Moura, o Alvarenga. Os dois são concunhados.

No final de 2009, Niterói se casou com a irmã da mulher de Alvarenga em uma cerimônia que ocorreu no Complexo do Alemão e teria reunido toda a cúpula da facção criminosa Comando Vermelho (CV).

Um agente ouvido pelo iG informou que haveria vários bunkers espalhados pela favela que serviriam como abrigo para Niterói. Segundo o policial, Niterói também costuma viajar para outros estados, entre eles Minas Gerais e Bahia.

Marcelinho Niterói ajuda Beira-Mar desde os anos 90 e a relação dos dois é estreita. Durante a ocupação no Alemão, por exemplo, foram apreendidas em uma casa de Niterói cartas que teriam sido escritas por Fernandinho dentro de penitenciárias federais.

Nos manuscritos, Beira-Mar fala de um suposto plano de sequestro de autoridades religiosas que seriam usadas como moedas de troca para a soltura de milicianos presos em Campo Grande (MS). O traficante também transmite, pelos bilhetes, ordens aos seus subordinados.

Marcelinho Niterói está solto desde 2006 quando foi expulso do Paraguai. Na ocasião, ele foi entregue à PF do Mato Grosso do Sul mas como não tinha mandado de prisão pendente, ganhou a liberdade. O Disque-Denúncia oferece uma recompensa de R$ 2 mil para quem tiver informações que ajudem na sua captura.

Guilherme Pinto/Agência O Globo
Caveirão do Bope parado no Complexo da Maré. Unidade de elite da PM do Rio terá um quartel na comunidade


Pasta de cocaína

No início de setembro, a Polícia Civil descobriu um dos esquemas de Niterói no Parque União. Três traficantes, sendo um deles paraguaio, foram presos na rodovia Presidente Dutra, na altura da Serra das Araras, na Região Serrana, com 33 kg de pasta base de cocaína e 8 kg de pasta de crack.

Parte do material, segundo o delegado Rodrigo Santoro, da 59ª DP (Duque de Caxias, Baixada Fluminense), seria levado para o Parque União. Lá, os traficantes transformariam a pasta de cocaína e crack em droga pronta para consumo e, em seguida, distribuiriam entre duas favelas de Duque de Caxias, a Beira-Mar e Parque das Missões, ambas dominadas pelo grupo de Fernandinho.

Segundo Santoro, os traficantes presos eram responsáveis por trazer de 50 kg a 60 kg de pasta base de cocaína a cada 15 dias para o Rio de Janeiro e parte desta droga sempre ia para o Parque União.

Embora seja vinculado ao Comando Vermelho, Marcelinho Niterói também negociaria com grupos rivais. A suspeita surgiu a partir da apreensão, em maio, de 25 kg de cocaína no Leblon, na zona sul. Segundo as investigações, a droga saiu da favela da Rocinha , controlada pela facção Amigos dos Amigos (ADA), e abasteceria o Parque União.

Tráfico de armas

Reprodução
Entrada da favela Parque União, no Complexo da Maré, que se transformou em entreposto de Beira-Mar no Rio
Um processo que tramita na 25ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça revela ainda que Niterói vem financiando, há pelo menos três anos, o envio de armas para o Parque União.

Segundo investigações da PF que resultaram no processo, a quadrilha tentou trazer até mesmo um fuzil do Exército argentino, que acabou apreendido na cidade de Toledo (PR).

De acordo com os autos, Niterói usava um porteiro morador da favela como intermediário com o fornecedor de armas, que ficava baseado em Foz do Iguaçu (PR).

Esse morador, que foi preso, era encarregado de repassar o dinheiro dos traficantes para uma mulher que fazia os depósitos em contas bancárias indicadas pelo "matuto" (fornecedor). De acordo com os autos, um dos depósitos feitos para o fornecedor chegou a R$ 50 mil.

Esse fornecedor, identificado pelas alcunhas de Joaquim ou Bigode, viajava para a Bolívia e ao Paraguai para adquirir as armas. As investigações indicam que o contato dele no Paraguai era um traficante conhecido pelo apelido de Dom Carlos.

As armas compradas nos países vizinhos, segundo os autos, ficavam escondidas em um bar no centro de Foz do Iguaçu e eram transportadas de carro para o Rio de Janeiro.

Entre 2008 e 2009, a PF (Polícia Federal) fez pelo menos duas grandes apreeensões de armas em Toledo (PR) cujo destino seria o Parque União.

Na primeira delas, foram recolhidas 20 pistolas, quatro revólveres e uma submetralhadora. Na segunda, os agentes federais conseguiram interceptar um carregamento com dois fuzis, duas submetralhadoras, duas pistolas, além de 18 carregadores para fuzis, pistolas e submetralhadoras e cerca de 200 munições.

Um dos fuzis apreendidos, de modelo Fal, teria sido desviado do Exército argentino, de acordo com as investigações.

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